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Virosfera O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.

Nós, os vírus! Os fragmentos virais que carregamos com a gente

Uma viagem pelo que são, afinal, os vírus e por quais heranças eles deixaram em nossas células

Por Paulo Eduardo Brandão 13 jan 2021, 09h51

Pequenos agentes infecciosos. Parasitas fora do domínio da vida. Assassinos. Causadores de epidemias e doenças debilitantes e letais. É assim que a história nos mostra os vírus. E influenza, varíola, sarampo, raiva, Covid-19 e tantas outras viroses emergentes, reemergentes e permanentes parecem dar sentido a esse ponto de vista. Mas viajemos por alguns instantes pelo mundo microscópico para observar a imensidão de uma esfera viral e acompanhar seu percurso evolutivo. Há muito com o que se surpreender.

Há uns 4 bilhões de anos, sob águas e rochas porosas, pequenas fitas de RNA (ácido ribonucleico, o avô do DNA) formadas espontaneamente aprenderam a fazer cópias delas mesmas. Mas eram muito frágeis e não duravam muito, até que foram envoltas por bolhas microscópicas de gorduras inorgânicas que as protegiam. Agora, estruturas envelopadas envolviam o RNA que se replicava: já eram vírus, ainda que nem existissem células.

Nesse mundo de RNA, a complexidade foi crescendo e as estruturas somando-se, dando origem às primeiras células. Mas pode ter sido o contrário também: as células vieram antes e algumas acabaram simplificando-se até ao ponto de se transformarem em vírus. Ou, então, os vírus vieram de material genético que escapou das células? Ou, quem sabe, as três alternativas estão corretas? As hipóteses ainda estão aí.

Pois bem, membranas não são apenas envoltórios que mantêm um ambiente químico estável para nossas células funcionarem bem, mas também barreiras à entrada de vírus. A espessura da membrana externa de nossas células evoluiu exatamente pela competição com os vírus que queriam penetrá-las. Sem vírus, também não há competição; sem a membrana celular, não teríamos algumas funções fisiológicas essenciais.

  • Viajando para o interior das nossas células, encontramos as mitocôndrias, as usinas elétricas cheias de enzimas de onde as células obtêm energia a partir do oxigênio e que são, em sua origem, bactérias que aprenderam a viver ali. E de onde vieram as enzimas das mitocôndrias? Sim, dos vírus!

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    Agora mergulhando mais fundo nas nossas células, encontramos uma fortaleza dentro de outra: o núcleo celular, que protege nosso DNA. Mas nem todas as células na natureza têm núcleo: bactérias e seus similares não têm. Aí se especula que tenhamos herdado esta estrutura de algum vírus que desaprendeu a se replicar e cuja “casca” capturou os cromossomos de nossas células ancestrais.

    Há vírus que infectam bactérias, protozoários, plantas e todos os tipos imagináveis de animais. Há vírus que infectam outros vírus! Há vírus que fazem uma célula se unir a outra e entrar em rápida divisão, o que pode levar tanto à formação da placenta na gravidez – vírus cujos genes estão integrados em nosso genoma há séculos – quanto ao desenvolvimento de algumas variedades de câncer por alguns outros tipos de vírus.

    Mas, afinal, vírus são seres vivos? Temos que nos aproximar ainda mais para responder. Tudo o que é vivo tem metabolismo, ou seja, é capaz de fazer reações químicas para manter seu próprio funcionamento e fazer fluir energia eletroquímica. Tudo o que é vivo tem o potencial de fazer cópias do seu genoma, de ter uma estrutura organizada e é submisso às leis da evolução.

    Todas essas características encontramos nos vírus QUANDO eles estão infectando células. Mais do que isso: uma célula infectada por um vírus torna-se o próprio vírus, já que todo seu metabolismo é hackeado por ele.

    Ao final de “A Origem das Espécies”, encontramos Charles Robert Darwin maravilhado com as infinitas formas de seres vivos, de grande beleza e originárias de um início simples. Ficar maravilhado com os vírus não significa permanecer passivo frente a eles, mas nos convida a sentir quanto o pequeno e o grande compartilham o fenômeno da vida neste planeta.

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