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Túnel do Tempo Por Blog O repórter André Biernath desenterra o passado e vislumbra o futuro da arte (e da ciência) da Medicina

Os 200 anos de Florence Nightingale, a mãe da enfermagem moderna

Comemorado em 12 de maio, o Dia Internacional da Enfermagem faz uma justa homenagem a mulher que revolucionou a profissão

Por André Biernath - 12 Maio 2020, 16h22

Você sabe por que o 12 de maio marca o Dia Internacional da Enfermagem? Em homenagem à Florence Nightingale (1820-1910), nascida neste mesmo dia, há exatos 200 anos. Essa mulher britânica é tão importante para a história de sua profissão que, em toda formatura ou colação de grau do curso de enfermagem, alunos do mundo inteiro repetem um juramento escrito por ela:

“Juro, livre e solenemente, dedicar minha vida profissional a serviço da pessoa humana, exercendo a enfermagem com consciência e dedicação; guardar sem desfalecimento os segredos que me forem confiados, respeitando a vida desde a concepção até a morte; não participar voluntariamente de atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano; manter e elevar os ideais de minha profissão, obedecendo aos preceitos da ética e da moral, preservando sua honra, seu prestígio e suas tradições.”

Esse texto resume muito bem até os dias de hoje as bases da enfermagem: cuidar da vida humana desde a concepção até a morte. Os enfermeiros são verdadeiros heróis, que muitas vezes colocam em risco sua própria saúde para garantir que seus pacientes fiquem bem. Isso, aliás, torna-se ainda mais claro em tempos de pandemia, quando o novo coronavírus exige uma dose extra de trabalho e dedicação desses profissionais de saúde.

E essa história valorosa começou justamente com Florence: nascida no início do século 19 em Florença, numa região que hoje pertence à Itália, ela logo mostrou à sua família que não iria se satisfazer com o papel de esposa ou dona de casa. Indignada com o tratamento oferecido aos mais pobres no Reino Unido, foi uma das vozes mais famosas na busca por melhores condições de vida na época.

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Aos 20 e poucos anos, ela fez treinamentos e visitas a hospitais de Alemanha, Irlanda, Escócia e França para desenvolver sua vocação: cuidar dos enfermos em hospitais e asilos. Nesses países, aprendeu a importância do ar fresco e da luz para a melhora dos pacientes. Também descobriu como a higiene é essencial e foi uma das primeiras adeptas da lavagem de mãos e da limpeza de objetos — recomendações que, diga-se, continuam em alta, como pode ser visto nas campanhas de combate à Covid-19

Atuação no front

Florence também teve um papel de destaque durante a Guerra da Crimeia, que se desenrolou entre 1853 e 1856 no leste da Europa. Em 1854, partiu em direção a Scutari, região da atual Turquia, para dar suporte aos feridos ao lado de outras dezenas de enfermeiras voluntárias, todas treinadas por ela. 

E foi ali que o conhecimento da enfermeira fez toda a diferença: com aquelas práticas básicas de priorizar a circulação do ar, a exposição ao sol e a higiene, Florence conseguiu derrubar a mortalidade entre os soldados britânico. Antes de suas intervenções, 42% morriam nos leitos. Depois, essa taxa caiu para incríveis 2,2%.

Ela é considerada a pioneira da enfermagem justamente por isso: em outros conflitos ao longo da história, já existiam hospitais de campanha. Mas eles tinham condições péssimas e as pessoas que trabalhavam ali como ajudantes dos médicos não tinham formação alguma na área. Florence Nightingale foi a primeira a estruturar um serviço baseado na evidência científica da época, o que trouxe resultados impressionantes.

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A preocupação em aplicar e produzir conhecimento, aliás, é outra grande contribuição dela para a ciência moderna. Curiosa por natureza, Florence tinha grande apreço por números e estatísticas. Ela tabulou dados e informações de muitos pacientes e foi pioneira no uso de gráficos na área da saúde. Isso não apenas facilitou a compreensão de tais medidas e tratamentos, como ajudou a comprovar a sua eficácia numa época em que nem se sabia da existência de vírus e bactérias

De volta ao lar

Durante a Guerra da Crimeia, a pioneira contraiu uma doença infecciosa (provavelmente brucelose ou febre tifóide). Quando retornou para casa, não tinha mais condições de permanecer no dia a dia de hospitais. Mesmo assim, Florence continuou a trabalhar: ela produziu um relatório de quase 900 páginas, sistematizando todo o conhecimento que obteve durante o confronto. Esse foi apenas um de dezenas de livros e artigos que escreveu ao longo das décadas.

Ainda acamada, ela também desenvolveu em 1859 o projeto do que viria a se tornar a Escola de Enfermagem do Hospital St. Thomas, em Londres. A instituição existe até hoje como parte do King’s College London, uma das principais universidades do Reino Unido. O hospital, aliás, fez uma homenagem a ela ontem (11 de maio), com uma projeção na sua parede de entrada. Confira nesse tweet:

Um legado que dura dois séculos 

A criadora da enfermagem moderna seguiu ativa pelo resto da vida e recebeu muitas honrarias. Florence Nightingale morreu no dia 13 de agosto de 1910, aos 90 anos de idade. Mas, até para homenagear a vida dessa heroína, o mundo celebra sua data de nascimento. Como dissemos, no 12 de maio se comemora o Dia Internacional da Enfermagem.

E esse não é o único fato celebrado hoje: também estamos no Dia Nacional para a Sensibilização da Fibromialgia. Em sua biografia, Florence teve vários episódios de dor crônica e fadiga, que são as principais características dessa doença. Alguns acreditam que ela sofria da condição, daí a escolha da data para conscientizar e levar informações sobre o quadro.  

Os verdadeiros mitos

Mas voltemos ao Dia Internacional da Enfermagem: essa data em 2020 ganha contornos ainda mais especiais (e não apenas porque são 200 anos redondos do aniversário de Florence). Estamos diante da maior pandemia do século. Com milhões de casos e milhares de mortes, a Covid-19 representa um gigantesco desafio para os sistemas de saúde de todo o mundo. E boa parte do trabalho incansável de cuidar dos pacientes internados depende dos enfermeiros. 

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São eles que estão na linha de frente, realizando o primeiro atendimento, acolhendo os mais necessitados e dando suporte para que eles permaneçam vivos. Nesse trabalho, a própria saúde está em jogo: o Conselho Internacional de Enfermeiros estima que pelo menos 90 mil profissionais de saúde se infectaram com o coronavírus. Já há registro de 260 mortes confirmadas de enfermeiros por Covid-19 no mundo. 

Mais que os devidos aplausos hoje ou amanhã, esses trabalhadores merecem o reconhecimento sobre tudo o que estão fazendo para sempre. Sem eles, pode ter certeza que nossa situação estaria muito pior. Que o legado de Florence Nightingale sirva de motivação e inspiração para todos nós.  

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