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A história bizarra das crianças romenas que não eram amadas

Falta de carinho prejudica demais a formação do cérebro. E uma experiência da vida real mostrou como essa ausência é devastadora

Ao longo de séculos e mais séculos, cientistas e filósofos se debruçaram sobre uma questão fundamental: o que nos torna humanos? As respostas são as mais variadas. Alguns apostam no poder de processamento dos neurônios. Outros acreditam na força dos genes, transmitidos de geração em geração. Um terceiro grupo crê no transcendental/espiritual. As respostas, enfim, são as mais diversas possíveis e é bem provável que a verdade seja uma mistura de todas.

Neste texto, gostaria de destacar um ponto que ajuda a entender a nossa condição única de humanidade: a importância das relações sociais e da conexão com outras pessoas para que sejamos saudáveis e conscientes de nossa existência e importância nesse mundo.

Não há exemplo melhor para ilustrar isso do que um episódio trágico que aconteceu na Romênia, durante a segunda metade do século 20. Em 1966, o presidente Nicolae Ceausescu criou uma política para aumentar a população do país. Seu plano era elevar o número de romenos de 23 milhões para 30 milhões até o ano 2000.

Para cumprir a meta mirabolante, ele tornou a concepção uma preocupação do estado. Em primeiro lugar, proibiu métodos contraceptivos, como a camisinha e a pílula. Em seguida, criminalizou todo tipo de aborto. Como se não bastasse, criou leis que obrigavam todas as mulheres a serem examinadas por médicos estatais, orientados a fazer perguntas do tipo “com que frequência você faz sexo?” ou “por que você não consegue engravidar?”. Esses profissionais eram conhecidos na boca pequena como a “polícia da menstruação”.

As mulheres que não engravidavam (ou que tinham menos de cinco filhos!) eram obrigadas a pagar um “imposto do celibato” e os médicos responsáveis pelos bairros com casos de morte infantil eram punidos com cortes de 10 a 25% em seus salários. “O feto é uma propriedade da sociedade inteira e aquelas que tentam evitar os filhos são desertoras das leis de continuidade nacional”, proclamou, num discurso, Ceausescu. Surreal.

Ideia de jerico

Numa análise mais superficial, o plano do líder romeno foi um sucesso. Bastaram alguns meses para que a taxa de natalidade do país explodisse: passou de 1,9 nascimentos por mulher em 1966 para 3,6 em 1967.

Mas os resultados mostraram sua outra face em pouco tempo: com uma situação precária, a mortalidade infantil alcançou 83 mortes a cada mil nascimentos (a média da Europa estava em 10 mortes à época). Cerca de 10% dos bebês nasciam abaixo do peso — as crianças com menos de 1,5 quilo eram simplesmente ignoradas a ponto de não receberem qualquer tratamento médico para conseguir sobreviver.

A “polícia da menstruação” investigava as mulheres que não engravidavam. Algumas tinham até que pagar impostos pela falta de prole.

Um segundo efeito colateral nefasto da política romena: com pouco dinheiro para manter a família, mães e pais começaram a abandonar seus filhos. O governo criou, então, orfanatos para abrigar essas crianças largadas na rua. E é aí que a história fica ainda mais perversa.

Os funcionários desses abrigos eram orientados a não demonstrar qualquer tipo de afeto pelos bebês. Se eles chorassem, deveriam ser ignorados até aprenderem que não receberiam atenção. Todos dormiam em berços semelhantes, enfileirados em grandes galpões. O corte de cabelo era igual. A roupa era a mesma. Quando estavam um pouquinho maiores, eram obrigados a enfrentar filas para esvaziar os penicos ou retirar a refeição na cozinha. Nada de abraços, brincadeiras ou carinho.

A situação se agravou tanto que, em 1989, ano em que Nicolae Ceausescu foi deposto, a Romênia tinha 170 mil crianças vivendo nessas condições. E a esmagadora maioria delas desenvolveu sérios problemas neurológicos, como veremos adiante.

Cenas aterradoras

O pediatra Charles Nelson, do Hospital de Crianças de Boston, nos Estados Unidos, foi visitar um desses internatos no final dos anos 1990. Ao chegar lá, ficou extremamente assustado com o cenário que encontrou: as crianças grudaram nele, pedindo desesperadamente por qualquer tipo de atenção ou afago.

Ao voltar para sua casa, resolveu lançar o “Projeto de Intervenção Precoce de Bucareste”, em que avaliou, junto com colegas das americanas universidades de Maryland e Tulane, qual o impacto da falta de amor nos primeiros anos de vida.

O grupo de cientistas investigou 136 daqueles sujeitos aos 2, 4, 6, 8 e 12 anos de idade. Em média, eles apresentavam um quociente de inteligência (o popular QI) na cada dos 60, enquanto o esperado para a faixa etária é de 100 pontos. Além disso, os exames mostraram déficits no desenvolvimento cerebral, linguagem atrasada e atividade neural reduzida.

Esse trabalho pioneiro abriu um novo campo de investigação, conhecido como “a ciência da negligência” (com perdão da rima). Hoje, já se sabe que a interação dos bebês com indivíduos mais velhos é primordial para a formação de um cérebro saudável. Quando essa criança emite algum estímulo de comunicação (um grunhido, um sorriso, um barulho…), espera um retorno de seu pai, sua mãe ou de quem estiver por perto.

Caso essa resposta não venha, isso é interpretado como um sinal de perigo. A massa cinzenta em formação se enche de hormônios do estresse, que comprometem pra valer a ligação entre os neurônios, conhecidas como sinapses. Agora, imagine o que aconteceu na cabeça desses pobres meninos e meninas da Romênia, que não receberam um estímulo sequer?

Junto com uma boa alimentação e o hábito da meditação, manter a mente estimulada por conversas, livros, palavras-cruzadas e novos aprendizados é a melhor maneira de evitar encrencas como a demência

No recém lançado Cérebro: Uma Biografia (Editora Rocco), o neurocientista David Eagleman, professor da Universidade Stanford (EUA), conta a história de Carol e Bill Jensen, um casal que morava na cidade de Wisconsin e decidiu viajar até a Romênia para adotar os órfãos Tom, John e Victoria, de 4 anos, durante a década de 1980.

No caminho de volta para o aeroporto, Carol pediu que o taxista explicasse em inglês para ela o que tanto as crianças discutiam no banco de trás nessa língua estrangeira que ela não entendia. O motorista respondeu que não era capaz de traduzir, pois aqueles sons não faziam parte do idioma romeno. Sozinhas e sem contato com adultos, os pequenos tinham desenvolvido um dialeto próprio, sem qualquer paralelo com a realidade em que viviam.

Neurônios rebobinados

A boa notícia é que, com a quantidade certa de amor e carinho, o cérebro infantil é capaz de se modificar para melhor. Tom, John e Victoria, por exemplo, hoje têm uma vida normal na terra do Tio Sam. Quanto antes o afeto é restabelecido, melhores são os resultados. Claro que nem todos conseguiram se recuperar e muitas daquelas crianças são hoje adultos bastante traumatizados.

Esse exemplo extremo da Romênia demonstra a importância de vivermos em um ambiente amoroso e rico em interações para nossa formação como indivíduos. Aliás, ter uma mente estimulada por conversas, livros, palavras-cruzadas e novos aprendizados, ainda é melhor estratégia para evitar problemas comuns na velhice, como a demência.

Entramos hoje em dezembro, mês marcado por festas e celebrações. Eis um ótimo momento para estar próximo (ou se reaproximar) dos familiares e dos amigos que tanto nos fazem bem – e, claro, manter o contato durante o ano novo que logo começa. As relações sociais não são apenas um determinante de nossa condição de seres humanos. Elas são um fator primordial do que nos torna ainda mais humanos. E, claro, fazem bem para a saúde.

Em tempo: Nicolae Ceausescu e sua esposa foram julgados e fuzilados em 1989. Enquanto isso, o abandono de crianças segue como um problema sério da Romênia: para tentar conter o problema, uma lei de 2005 criminaliza a entrega de crianças a orfanatos.


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