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Saúde é pop Por Blog Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.

Loucos por Carnaval: os blocos da saúde mental

Blocos carnavalescos no Rio de Janeiro pregam, no ritmo da folia, o respeito a quem tem um transtorno mental e o fim do preconceito

Por André Bernardo - Atualizado em 21 mar 2020, 09h57 - Publicado em 22 fev 2020, 08h01

Há 20 anos, às vésperas do Carnaval do ano 2000, um grupo de pacientes e funcionários do Instituto Philippe Pinel, hospital de referência no tratamento de transtornos psiquiátricos, e de outras instituições de saúde mental da Zona Sul do Rio se reuniu para confabular. O objetivo deles era um só: colocar o bloco na rua. Literalmente falando. Bem, por uma série de dificuldades, não foi daquela vez.

Dali a alguns anos, o grupo tentou de novo. E, dessa vez, rolou. Ou quase. Com o apoio de ritmistas do bloco Empolga às 9h, um dos mais famosos da folia carioca, usuários e profissionais saíram por vários setores da instituição, cantando marchinhas de carnaval. “Lá pelas tantas, o cortejo parou em frente à unidade de tratamento de alcoolistas e, só depois, nos demos conta da deselegância de termos cantado ali ‘Cachaça’ e ‘Turma do Funil’”, relata o psicanalista Alexandre Ribeiro Wanderley, um dos fundadores do bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! e integrante da comissão organizadora.

Os versos “deselegantes” a que Alexandre se referem são os famosos: “Você pensa que cachaça é água? / Cachaça não é água, não / Cachaça vem do alambique / E água vem do ribeirão” e “Chegou a turma do funil / Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto / Há, há, há, há, mas ninguém dorme no ponto / Nós é que bebemos e eles que ficam tonto”.

A ideia de formar um bloco carnavalesco com usuários, familiares, profissionais da rede pública de saúde mental e simpatizantes da causa antimanicomial animou a todos. Dentro e fora dos muros do Pinel. Logo, funcionários de outras instituições e de Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) resolveram cair na folia e criar seus próprios blocos de Carnaval.

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O nome Tá Pirando, Pirado, Pirou!, a propósito, foi sugestão de um dos pacientes (ou usuários, como alguns preferem ser chamados), Seu Gilson Secundino: “Não vamos fazer Carnaval só pra quem já pirou e está aqui dentro do Pinel. Vamos pra rua brincar com quem ainda tá pirando…”, disse ele. Os nomes, aliás, são os mais criativos possíveis: Se Pirar, a Gente Cuida, Amai-vos Uns aos Loucos e RivoTrio.

Oficialmente, o Tá Pirando! foi fundado em 2004. Em 2020, com o enredo “Dá um breque no ‘fake’: a Terra é redonda e o mundo dá voltas!” realiza seu 15º desfile, para um público estimado de 2 mil foliões – metade deles usuários e profissionais de saúde. Coincidência ou não, o bloco desfila todos os anos pela Avenida Pasteur, endereço do primeiro hospício da América Latina, o Hospital Nacional de Alienados, fundado por Dom Pedro II em 1852.

“Nosso objetivo é desconstruir representações estigmatizantes da loucura e ajudar a criar um novo imaginário social”, afirma Wanderley. “O louco precisa ser reconhecido como um cidadão que tem direitos como todos nós e é capaz de contribuir para a construção de um mundo mais amoroso, inclusivo e plural”.

O dia a dia de um bloco que milita pela causa da saúde mental não é lá muito diferente dos demais. Todos os anos, os membros se reúnem para escolher um tema para o desfile do próximo carnaval. O escritor Lima Barreto (1881-1922), que passou dois meses no Hospício Nacional dos Alienados, entre dezembro de 1919 e fevereiro de 1920, e a cantora Dona Ivone Lara (1922-2018), que trabalhou como enfermeira e assistente social em hospitais psiquiátricos de 1947 a 1977, já foram temas do Tá Pirando!

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Definido o enredo, ou seja, a história que será contada na avenida, os integrantes se dividem entre as mais diferentes funções: uns pesquisam a sinopse, outros compõem os sambas-enredos, outros, ainda, confeccionam fantasias, alegorias e adereços, e assim por diante. Escolhido o samba-enredo através de concurso, há um ensaio geral com todos os integrantes da agremiação.

Quando não estão na avenida, os foliões participam de atividades de terapia ocupacional, como oficinas de pintura, música e artesanato. “O concurso de sambas desperta o desejo de compor dos usuários. Indivíduos que jamais se imaginaram artistas reconhecem que são criativos e talentosos”, relata Wanderley.

Hoje são incontáveis os blocos de Carnaval que, a exemplo do Tá Pirando!, discutem saúde mental, inclusão social, reforma psiquiátrica, entre outros temas. Só no Rio, três dos mais famosos são: Loucura Suburbana, Zona Mental e Império Colonial. Criado em 2001, o Loucura Suburbana é dos mais antigos e tradicionais. O bloco nasceu no Instituto Municipal Nise da Silveira e desfila toda quinta-feira antes do Carnaval pelas ruas do Engenho de Dentro, na Zona Norte.

“Não são todos os pacientes que se engajam. Há aqueles com transtornos graves, como autismo e esquizofrenia. Dos que participam, uns compõem letras de samba, outros dão ideias de alegorias e adereços. Faz muito bem à autoestima deles. É como se gritassem ao mundo: ‘O Carnaval é meu, a cidade é minha, não sou um excluído, também faço parte dessa festa!’”, diz a musicoterapeuta Débora Rezende, coordenadora do Zona Mental e uma das fundadoras do Loucura Suburbana.

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O bloco Zona Mental estreou em 2015 e, desde então, desfila toda terça-feira de Carnaval pelas ruas de Bangu, na Zona Oeste. Já o Império Colonial foi criado em 2011 e integrou usuários, funcionários e moradores da antiga Colônia Juliano Moreira, na Taquara. O baile deste ano teve a vida e obra de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), importante artista plástico brasileiro e também “paciente psiquiátrico”, como enredo e aconteceu na quarta-feira, dia 12. Reuniu cerca de 100 foliões. “O Carnaval é a festa mais democrática que existe. Transforma pacientes em cidadãos e ajuda a promover sua reinserção social. Todos vão para a rua e não se sabe quem é quem. Não há confinamento ou internação”, afirma a musicoterapeuta Luiza Santiago, uma das coordenadoras do bloco, que trabalha no CAPs Manoel de Barros, na Colônia Juliano Moreira.

O Carnaval é tão democrático que há espaço para outras lutas. Contra a dependência química, por exemplo. O bloco Alegria sem Ressaca, fundado em 2003 pelo psiquiatra Jorge Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (ABRAD), tenta conscientizar a população da importância da prevenção ante o álcool e outras drogas no período carnavalesco. Todos os anos, duas semanas antes do início da festa, o bloco desfila pela orla de Copacabana, atraindo um público estimado de 3 mil pessoas.

Ao longo dos anos, angariou a simpatia de foliões ilustres, como a cantora Elza Soares, a atriz Luiza Tomé e o lutador José Aldo. “Queremos mostrar aos foliões que é perfeitamente possível pular o carnaval de ‘cara limpa’, sem consumir drogas ou beber em excesso”, diz Ângela Hollanda, conselheira familiar da Clínica Jorge Jaber há 22 anos e familiar de um usuário em recuperação.

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