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Blog Saúde é Pop Saúde é pop Por Blog Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.

Filmes, livros e peças que ajudam a entender o universo autista

Para especialista, obras como o documentário Delicadeza é Azul tornam o público mais empático e generoso com o autismo

Por André Bernardo 20 jan 2021, 09h46

Dono de uma memória fora do comum, Kim Peek (1951-2009) era capaz de proezas inimagináveis. Por exemplo: ler um calhamaço de 300 páginas em apenas 40 minutos. E, terminada a leitura, ele conseguia recitar, linha por linha, parágrafo por parágrafo, o que tinha acabado de passar os olhos. Com apenas 16 anos, o rapaz já tinha “devorado” todos os livros — incluindo mapas, atlas e guias de viagem — da biblioteca municipal de Salt Lake City, a capital de Utah (EUA), onde nasceu. Por essa razão, conseguia calcular a distância entre duas cidades, estados ou países em fração de segundos. Quando morreu, aos 58 anos, vítima de um infarto, Kim Peek já tinha decorado cerca de 9 mil títulos, incluindo a obra completa de seu autor predileto, o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616).

Kim Peek era portador da síndrome de savant (“sábio”, em francês). Ao mesmo tempo em que era capaz de feitos extraordinários, como dizer o dia da semana em que qualquer pessoa nasceu, não conseguia abotoar a camisa ou fazer a barba. Sua vida começou a mudar em 1984, quando conheceu o roteirista Barry Morrow.

Impressionado com a habilidade do sujeito de decorar tudo o que ouvia, Morrow resolveu contar sua história no cinema. Resultado: Rain Man (1988) ganhou quatro estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, roteiro original (Ronald Bass e Barry Morrow), diretor (Barry Levinson) e ator (Dustin Hoffman).

Como forma de agradecimento, Morrow cedeu sua estatueta para Peek. Nem precisava. Com o sucesso do filme, Peek percorreu os Estados Unidos de costa a costa, sempre acompanhado do pai, Fran Peek, dando palestras.

O filme Rain Man (1988) foi o primeiro a retratar o universo de um autista. Sim, a síndrome de savant faz parte do transtorno do espectro autista (TEA). Desde então, o distúrbio que abrange 70 milhões de pessoas no mundo inteiro, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), inspirou uma infinidade de produções, dos mais diferentes gêneros e estilos, como os filmes Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (1993), Mary & Max – Uma Amizade Diferente (2009) e Farol das Orcas (2016), e as séries The Big Bang Theory (2007), Atypical (2017) e The Good Doctor (2017).

O preferido da neurologista Carla Gikovate é Temple Grandin (2010), estrelado por Claire Danes. Ph.D. em zootecnia, Grandin é professora da Universidade do Colorado (EUA), presta consultoria ao governo americano, faz palestras, visita fazendas e escreve livros. Sua obra mais famosa, a autobiografia Uma Menina Estranha (clique para comprar), foi a que deu origem ao filme. “O autismo é parte do que sou, mas não deixo que ele me defina”, declarou a cientista em O Cérebro Autista — Pensando Através do Espectro (2013).

Mestre em Psicologia pela PUC-Rio e especialista em educação especial inclusiva, Carla Gikovate é uma das entrevistadas do documentário Delicadeza é Azul (2020), em cartaz nos cinemas. Ao longo de 72 minutos, os diretores Yasmin Garcez e Sandro Arieta apresentam depoimentos de autistas, familiares e especialistas. E refletem, entre outros temas, sobre as melhores opções de tratamento e os desafios de uma sociedade mais inclusiva. Dos relatos mostrados no doc, um dos mais emocionantes é o de Marcelo Máximo. Como pai de Tayná, uma criança com necessidades especiais, diz que “perdeu o direito de morrer”.

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“Quis falar sobre o que nos faz diferentes um dos outros e sobre a normalidade que existe na diferença”, explica a diretora. “Dizem que pessoas com o transtorno têm dificuldade com o toque, mas descobri que, dentro do espectro, cada um vive o autismo de forma singular”. Durante a produção do documentário, Yasmin e Sandro visitaram o Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), referência no tratamento do distúrbio. Em uma dessas visitas, entrevistaram o neurologista infantil Adailton Pontes, que morreu em 2016.

Em seu site, a neurologista Carla Gikovate recomenda, além do já citado Temple Grandin (2010), Adam (2009) e The story of Luke (2012). “Trabalhos sensíveis, como o Delicadeza é Azul, ajudam a entender o universo do outro e a enxergar o mundo através de seu olhar. Acredito que, ao ver um filme desses, o público se torna mais empático e generoso”, explica a neurologista.

Há pelo menos 30 anos, ela atende famílias de autistas. O momento do diagnóstico, diz, é sempre doloroso. Mal ela termina de falar e pais e mães já estão derramando as primeiras lágrimas. “Trinta anos depois, tenho muitos pacientes adultos. Uns estão na faculdade, outros procurando suas parceiras amorosas”, conta.

Além de filmes, o site de Carla recomenda alguns livros: O Estranho Caso do Cachorro Morto (2003), de Mark Haddon; Mãe, Me Ensina a Conversar (2006), de Dalva Tabachi; e Nascido em um Dia Azul (2006), de Daniel Tammet.

Um dos mais recentes do gênero é Sem Lógica para o Amor (2020), da escritora americana Tracey Garvis Graves. “A parte mais difícil do livro foi retratar com precisão todas as características da protagonista, Annika”, conta a autora. Para não cometer nenhuma imprecisão, ela contou com a ajuda da educadora Hillary Faber, que trabalha com educação especial. “Queria ter certeza de que estava tratando Annika com o respeito que ela merece”.

Obras sobre personagens autistas não são encontradas apenas nas telas de cinema, nos catálogos do streaming ou nas estantes das livrarias. O ator Leandro Hassum acaba de estrear o espetáculo Zé e Nina – A história de uma Amizade, livre adaptação de Renata Mizrahi para a animação australiana Mary e Max – Uma Amizade Diferente. No palco do Teatro das Artes, no Rio de Janeiro, ele interpreta um senhor autista de 60 anos que se comunica, através de cartas, com uma menina de 9.

Enquanto Zé não tem amigos, Nina (Elisa Pinheiro) não lida bem com sua aparência. “O espetáculo fala sobre o respeito às diferenças. Nem todo mundo encara o mundo da mesma forma. Apesar de diferentes entre si, Zé e Nina têm algo em comum: a solidão. Aos poucos, eles descobrem outro ponto de interseção: a amizade. Não precisamos conhecer alguém pessoalmente para demonstrar carinho ou estender a mão. Isso é o mais bacana”, explica o ator, que não esconde sua admiração pela Benê (Daphne Bozaski), de Malhação: Viva a Diferença (2017), portadora da síndrome de Asperger.

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