Clique e assine com até 72% de desconto
Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Saúde do homem: por uma cultura mais preventiva durante e após a Covid-19

No mês de conscientização sobre o câncer de próstata, médico chama a atenção para queda nos exames e procedimentos que combatem a doença

Por Geraldo Faria, urologista* Atualizado em 19 nov 2020, 11h10 - Publicado em 14 nov 2020, 10h32

A transmissão do coronavírus não só impactou a rotina do mundo todo como afetou intensamente a atividade médica. Parte expressiva dos profissionais de saúde passou a dedicar-se exclusivamente à atenção dos pacientes infectados. Unidades hospitalares tiveram que adaptar seus ambulatórios e enfermarias para atender aos acometidos pela nova doença. Essas mudanças diminuíram de forma drástica a capacidade da rede de saúde de prestar atendimento às pessoas portadoras de outros problemas. Consultas, tratamentos e cirurgias acabaram postergados.

No Brasil, houve uma queda de 70% nas cirurgias voltadas ao câncer e uma redução de até 90% das biópsias enviadas para análise. Estima-se que ao menos 50 mil brasileiros deixaram de receber diagnóstico de câncer nos dois primeiros meses de pandemia (entre março e maio de 2020), de acordo com dados levantados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e pela Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) junto aos principais serviços de referência do país, nas redes pública e privada.

Outro dado, este do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), estimou uma redução de 50% no número de diagnósticos de câncer no país. Só no mês de abril, 70% das cirurgias para tumores malignos foram adiadas na instituição paulistana. Acrescente-se a esse quadro a insegurança da população, que evitou procurar os serviços de saúde por medo da exposição a ambientes potencialmente contaminados pelo coronavírus.

Toda essa situação acabou resultando no retardamento do diagnóstico de doenças cujo sucesso do tratamento depende muito de uma identificação precoce. É o caso justamente dos tumores malignos.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) calcula que, em 2020, ocorram no Brasil cerca de 65 840 casos novos de câncer de próstata — são aproximadamente 63 casos novos a cada 100 mil homens. Utilizando-se os dados do Icesp referentes à redução da detecção de câncer no período, é provável que mais de 30 mil homens deixaram de ter o diagnóstico da doença com a pandemia.

Continua após a publicidade

Isso é preocupante para uma patologia cuja cura está diretamente ligada à sua identificação precoce. O câncer de próstata é o segundo tumor maligno mais comum entre os homens, perdendo somente para o câncer de pele não melanoma. É a segunda maior causa de óbito oncológico no sexo masculino: estima-se que um quarto dos portadores morrem devido à doença.

Infelizmente, cerca de 20% dos pacientes com câncer de próstata ainda são diagnosticados em estágios avançados, quando não há mais chances de cura. Nesse cenário, diversos estudos têm demonstrado que os homens são mais vulneráveis às enfermidades do que as mulheres, especialmente as doenças crônicas e graves, e por essa razão morrem mais cedo. A cultura vigente em nossa sociedade estimula um comportamento até irresponsável de muitos homens, que resistem em cuidar da saúde com a convicção de que são imunes a quaisquer doenças.

A falta de uma cultura preventiva que valorize o autocuidado, o medo da descoberta de uma doença e a possibilidade de ter de se submeter a um tratamento, bem como a vergonha em realizar procedimentos clínicos e de se expor a um profissional da saúde, são alguns elementos que tornam os homens mais resistentes a procurarem atendimento médico.

Um estudo realizado no Centro de Referência da Saúde do Homem, órgão da Secretaria de Saúde de São Paulo, mostrou que 60% do total de pacientes recebidos naquela unidade já apresentavam doenças em fase avançada e necessitavam de atendimento de maior complexidade.

Neste momento em que ainda temos motivos para nos preocupar com a pandemia, devemos, mais do que nunca, aproveitar o Novembro Azul para incentivar os homens a vencer a barreira do desconhecimento e do preconceito. E é importante que os médicos entendam que a avaliação periódica da próstata não se encerra em si mesma, mas também representa uma oportunidade para que os homens sejam investigados, orientados e tratados em relação a outros problemas que podem comprometer sua saúde.

* Geraldo Faria é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia – Regional São Paulo e membro da Associação Americana de Urologia e da Associação Europeia de Urologia

  • Continua após a publicidade
    Publicidade