Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês
Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Pseudociência na rede pública de saúde: quem paga a conta?

Especialistas questionam aval do governo paulistano a homeopatia e tratamentos alternativos

Por Natalia Pasternak Taschner, Marcelo Takeshi Yamashita e Beny Spira* Atualizado em 3 abr 2019, 17h42 - Publicado em 19 jul 2017, 11h40

A homeopatia é uma conhecida forma de medicina alternativa. Bastante popular no Brasil, foi objeto de uma lei promulgada no final de maio de 2017, que prevê sua inclusão nos hospitais municipais de São Paulo.

Podemos arriscar que a maioria dos pacientes acredita que a homeopatia é cientificamente comprovada. Afinal, se assim não fosse, por que incluí-la no rol de medicamentos prescritos?

Na realidade, porém, a homeopatia não é comprovada pela ciência. Seus “medicamentos” não passam pelos mesmos testes rigorosos que os convencionais. Criada no final do século 18 pelo médico alemão Samuel Hahnemann, essa vertente praticamente não sofreu alterações significativas em 200 anos. Passou ao largo de todas as descobertas científicas que revolucionaram a medicina, e seus princípios contrariam o que sabemos hoje sobre Química e Física.

A homeopatia é baseada em duas premissas: o princípio dos similares e a lei dos infinitesimais. O primeiro prega a máxima “simila similibus curentur”, que significa “similar cura similar”. Ou seja, uma determinada enfermidade pode ser curada com alguma substância que contribui para o mesmo problema. Um exemplo: resfriados podem ser tratados com cebola (Allium cepa), pois a cebola, ao ser picada, causa sintomas parecidos com os do resfriado, tais como coriza e irritação dos olhos.

O segundo princípio da homeopatia prega a diluição seriada do composto, até que não reste nenhuma molécula da substância original. Um típico remédio homeopático está diluído 1060 vezes — o número 1 seguido por 60 zeros. Para ter uma ideia, essa diluição equivale a uma gota do princípio ativo em um recipiente com um volume muitas e muitas vezes maior que o volume do Sol!

Portanto, se o rótulo de algum produto homeopático for apagado, não há como descobrir qual o “princípio ativo” que ele contém.

  • O princípio das diluições deve seguir também o pressuposto das sucussões, o ato de agitar vigorosamente o frasco a cada diluição. Elas são necessárias para que o “espírito” da molécula possa ser ativado, segundo Hahnemann. Os homeopatas modernos chamam esse processo de diluições de memória da água.

    Voltando ao nosso exemplo do remédio feito de cebola ultradiluída, se um indivíduo tomar um medicamento baseado em Allium cepa por uma semana, ficaria curado do resfriado. Mas o que acontece se o mesmo paciente não tomar o remédio cebolístico por uma semana? Isso mesmo que você pensou: o resfriado passa assim mesmo!

    Muitos defensores da homeopatia alegam que ela não é apropriada para doenças graves, mas seria eficaz para tratar problemas crônicos. Será que funciona mesmo?

    Continua após a publicidade

    É importante ter em mente que algumas enfermidades benignas ou leves e episódios de mal-estar, assim como resfriados, simplesmente curam-se sozinhos. E as manifestações das doenças crônicas frequentemente vão e voltam.

    Mas a ciência testou a homeopatia? Se sim, qual foi o resultado?

    Estudos bem conduzidos demonstraram que a homeopatia não tem efeito além do que chamamos placebo — o efeito de autossugestão mediante a intervenção de um médico ou terapeuta. Isso não quer dizer que ela não funcione. Quando falamos que não funciona além de um placebo, significa que uma pílula de açúcar teria o mesmo efeito do remédio homeopático. Sim, algumas pesquisas mostram que o paciente muitas vezes sente-se melhor com uma pílula de açúcar!

  • Uma robusta revisão de estudos publicada em março de 2015 pelo Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica do governo australiano – a maior já realizada sobre o tema até o momento – analisou as bases de dados de publicações médicas em busca de artigos relevantes sobre homeopatia entre 1997 e 2013. As principais conclusões desse estudo foram:

    • Não há evidências confiáveis de que a homeopatia é efetiva para tratar quaisquer problemas de saúde.
    • Homeopatia não deve ser utilizada para tratar problemas de saúde graves ou que possam vir a se tornar graves.
    • Pacientes que optam pela homeopatia colocam sua saúde em risco se recusarem ou postergarem tratamentos cientificamente comprovados.

    Trabalhos como esse levaram ao fim do financiamento público da homeopatia na Suíça em 2005 e na Austrália em 2015. No Reino Unido, o parlamento obteve uma primeira vitória para conseguir o mesmo. Nos Estados Unidos, desde 2016 os remédios homeopáticos têm de estampar no rótulo a seguinte mensagem: “Não há evidência científica de que este produto funcione”.

    Certamente devemos respeitar o direito individual de cada um escolher o seu tratamento. Mas definitivamente uma política pública não deve fomentar uma prática que não possui embasamento científico. Infelizmente, ao aprovar uma lei para a homeopatia, a legislação brasileira está na contramão de outros países, que valorizam a ciência e as evidências.

    Sabemos que a medicina tradicional não é perfeita. A história mostra que seus erros deixaram sequelas e mortes. A diferença é que, graças a ela, a expectativa e a qualidade de vida aumentaram incrivelmente, e temos tratamentos reais e comprovados para diversos males. Além disso, a ciência busca corrigir seus erros e testar seus resultados. Se a medicina alternativa funcionasse, ela iria se chamar simplesmente medicina.

    * Natalia Pasternak Taschner é bióloga, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora dos projetos Cientistas Explicam e Pint of Science no Brasil e uma das idealizadoras e colaboradoras do blog Café na Bancada

    Marcelo Takeshi Yamashita é físico, professor e vice-diretor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

    Beny Spira é biólogo e professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP)

    Continua após a publicidade
    Publicidade