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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

O lado b(om) do pessimismo

Equilibrar as expectativas e balancear sentimentos pessimistas e otimistas pode ser a chave para conquistar mais bem-estar mental

Por Rodrigo De Aquino, comunicólogo e especialista em felicidade e bem-estar* 19 set 2021, 11h33

Em tempos de crise, inúmeros sentimentos negativos invadem o cotidiano. Com eles, o pessimismo insiste em se fazer presente. Natural! Acontece que, em vez de sucumbir diante dessa tropa de choque emocional, podemos aprender com esses estados mentais e transformar nossa realidade interior.

O pessimismo é uma ferramenta usada pelo cérebro para nos proteger dos reveses da vida. Faz parte daquele pacote de instintos que herdamos dos nossos ancestrais para sobreviver e criar ambientes seguros. Nos primórdios, a proteção tinha a ver com eventos meteorológicos, falta de alimentos ou animais ferozes. Atualmente, lutamos contra prejuízos financeiros, doenças e a destruição do nosso ecossistema, por exemplo.

Então, o que fazer quando o pessimismo aparece? Ele não precisa ser demonizado, desde que usado como plataforma de amparo, fonte de realismo ou de busca da precisão, ganhando formas positivas com critério e senso de perspectiva. A diferença entre otimistas e pessimistas está na dose e no foco de atenção diante das situações que nos rodeiam. Em uma mesma situação, alguns enxergam desafios e oportunidades; outros, problemas e dificuldades.

Criativos, profissionais de marketing e vendedores precisam ter uma alta dose de otimismo para realizar seu trabalho diário. Tesoureiros, auditores, médicos e engenheiros de segurança, por sua vez, precisam adotar uma cautela austera em suas atividades.

Não há certo ou errado, o cuidado a ser adotado é não transformar o pessimismo na casa do perfeccionismo, da baixa autoestima ou da procrastinação, afetando o desempenho pessoal, gerando ansiedade e confirmando as expectativas negativas anteriormente previstas.

O pessimista real adota um viés cognitivo que reforça suas expectativas negativas e, em uma espiral descendente, encontra em cada experiência uma resposta danosa para suas ansiedades. O pessimista defensivo dobra seus esforços em cada desafio, encontrando novas soluções e aumentando sua motivação.

+ LEIA TAMBÉM: Como treinar o cérebro para ser mais otimista

Para sair desse imbróglio, o importante é trabalhar o “senso de presença” e refletir se o cenário apresenta uma base real para o pessimismo. Depois disso, dá para seguir por dois caminhos:

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a) Se a situação não for tão ruim quanto parece, tire o peso das costas e as lentes do negativismo. Em seguida, procure pessoas próximas (amigos, colegas de trabalho, líderes etc.) para falar sobre as inseguranças que surgiram.

b) Se a situação for realmente complicada, lembre-se de que no erro existem pontos de reflexão, aprendizado e compreensão. Freios falharam, desfalques aconteceram e, mesmo com danos, esses acontecimentos serviram para o desenvolvimento de novas tecnologias e formas inovadoras de se trabalhar. Como diz o escritor alemão Friedrich Höderlin: “No perigo, multiplica-se também aquilo que salva”.

Vale ressaltar que o lado b(om) do pessimismo não deve servir de pretexto para sustentar esse comportamento, pois estudos apontam que são os otimistas que se recuperam mais rápido das derrotas e, resilientes, conseguem mais rapidamente se reerguer e recomeçar, o que se traduz em benefícios inclusive para a saúde física.

Já diria Martin Seligman, pai da Psicologia Positiva: “A vida impõe os mesmos reveses e tragédias tanto para o otimista quanto para o pessimista, mas o otimista consegue enfrentá-los com mais tranquilidade”.

É importante sublinhar que pessoas com personalidades diferentes possuem gatilhos de motivação e engajamento diferentes. Falar para um pessimista que “tudo vai dar certo” é tão ineficaz quanto pedir para um otimista “desistir de uma causa ou projeto”.

No final das contas, a resposta está na flexibilidade e no caminho do meio. Dependendo da dose, o pessimismo protege ou impede avanços; já o otimismo pode criar novos horizontes ou cenários ilusórios. Seguindo o caminho das virtudes e encontrando o lado b(om) do pessimismo, fica mais fácil encontrar um jeito para ser mais feliz.

* Rodrigo de Aquino é comunicólogo, especialista em bem-estar e felicidade e fundador do Instituto DignaMente

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