Clique e Assine a partir de R$ 6,90/mês
Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Covid-19 também impacta a doação de órgãos para transplantes

Médico chama a atenção para as dificuldades impostas pela pandemia do coronavírus na realização de transplantes pelo país

Por Dr. Sérgio Ximenes, urologista e especialista em transplantes* Atualizado em 24 jul 2020, 19h04 - Publicado em 25 jul 2020, 15h00

O Brasil realiza atualmente transplantes diversos, como os de córnea, fígado, pâncreas, coração, rim, pulmão e intestino. E a demanda é expressiva. A fila de espera para transplante renal, por exemplo, é de quase 25 mil pessoas e mais de mil cidadãos aguardam por um fígado.

Em março, logo que foi determinada a quarentena, foi anunciada também a suspensão dos transplantes por doador vivo, tendo como objetivo protegê-los do risco de contaminação com o coronavírus. No entanto, sabemos que a doação de órgãos de pessoas falecidas é fundamental para o tratamento dos pacientes em lista de espera, pois somente 17% dos transplantes renais e 5,7% dos transplantes de fígado são realizados por doador vivo.

As doações vinham crescendo gradativamente nos últimos anos no Brasil. Em 2019, atingiu o índice inédito de 18,1 pmp (por milhão de população), sendo que, no primeiro trimestre de 2020, ainda sem a influência da pandemia, atingiu o índice de 18,4 pmp. Na Espanha, para se ter uma ideia, o índice é de 48 doadores pmp.

Houve queda de 32% nas doações de órgãos entre o primeiro óbito registrado por Covid-19 até o final de junho de 2020, impactando negativamente em 43% o número total de transplantes de todos os órgãos no mesmo período. Com a decretação de calamidade pública pela transmissão comunitária do vírus Sars-CoV-2 no território nacional, a Coordenação Geral do Sistema Nacional de Transplantes emitiu uma Norma Técnica estabelecendo os critérios para a seleção de candidatos a doadores de órgãos e tecidos.

  • Assim, os potenciais doadores com diagnóstico de Covid-19 ativo ou com o exame positivo e histórico de síndrome respiratória aguda grave, foram contraindicados para doação. Os indivíduos com suspeita para a Covid-19 tiveram contraindicação relativa, isto é, deixando a decisão a critério da equipe captadora, com consequente aumento do número de doadores não elegíveis.

    Além dessas situações que culminaram em redução das doações, podemos citar que, com a diminuição de pessoas circulando em virtude do isolamento social, também houve uma redução no número de acidentes por morte encefálica por trauma, uma das principais causas de óbito dos doadores.

    Continua após a publicidade

    A abordagem da família para autorização da doação também ficou mais dificultosa. Muitas não comparecem aos hospitais temendo a contaminação pelo vírus ou preferem acelerar o sepultamento e não aguardar todo o protocolo de doação que é bastante rígido no país.

    A ocupação dos leitos de UTI por pacientes em tratamento de Covid-19 também limita a atividade do transplante — tanto para o doador de múltiplos órgãos que deve ser mantido em terapia intensiva até a realização da captação como para os receptores que devem realizar seus primeiros dias de pós-operatório nesse mesmo ambiente.

    Muitas equipes, principalmente no Norte e no Nordeste do Brasil, suspenderam completamente a atividade de transplantes com o início da quarentena. Com isso, muitos órgãos que foram captados nessas regiões foram direcionados para centros do Sul e do Sudeste. Houve, porém, dificuldade para transporte dos órgãos pela diminuição do número de voos no período, limitando a utilização de órgãos mais sensíveis como coração, pulmão e fígado.

    As curvas de doação de órgãos apresentaram sinais de leve recuperação a partir da segunda quinzena de junho, o que talvez indique uma adaptação das organizações de procura de órgãos às novas condições pós-pandemia, melhorando a busca ativa e a abordagem familiar. Precisamos avançar nesse caminho.

    Os dados descritos neste texto foram obtidos junto aos canais de comunicação da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) e da CGSNT (Coordenação Geral do Sistema Nacional de Transplantes)

    * Dr. Sérgio Ximenes é chefe do Departamento de Transplante da Sociedade Brasileira de Urologia – Regional São Paulo (SBU-SP) e doutor em urologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

  • Continua após a publicidade
    Publicidade