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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Brasileiro descuida do coração na pandemia do coronavírus

Nova pesquisa constata que população negligencia sintomas de problemas cardiovasculares, medidas de prevenção e consultas ao médico

Por André Jácomo, diretor de pesquisa do IBPAD* Atualizado em 11 nov 2020, 12h11 - Publicado em 10 nov 2020, 19h31

Os brasileiros passaram a cuidar menos do coração durante a pandemia da Covid-19. Essa é a principal revelação do estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD), com apoio da empresa Edwards Lifesciences, para a campanha “Unidos pelo Coração”.

A pesquisa acende o sinal vermelho especialmente por duas razões. Os cardíacos estão entre os pacientes que mais sofrem de complicações quando infectados pelo coronavírus. E, a despeito da Covid-19, as doenças cardiovasculares já se inserem entre as principais causas de morte no Brasil.

Para entender se os brasileiros estavam atentos ao coração, foram ouvidas em agosto 2 mil pessoas, numa amostra representativa e proporcional da população brasileira e com margem de erro de 2 pontos percentuais nos resultados. Mais da metade dos entrevistados (52%) afirmaram que deixaram de procurar ou evitaram, ao máximo, algum tipo de atendimento médico por causa do novo vírus. O medo de contágio e o temor de aglomerações foram citados como os principais motivos para deixar de lado a consulta médica.

Essa é uma atitude de alto risco. Independentemente da pandemia, dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) indicam que, diariamente, uma média de mais de 1 100 brasileiros vão a óbito por conta de problemas do coração e circulação. São números muito próximos da mortalidade por Covid-19 registrada no Brasil em julho, o mês mais crítico da pandemia, com médias diárias superiores a 1500 mortes.

O cruzamento dessas duas informações permite, também, supor a possibilidade ainda maior de subnotificação de casos de pessoas que, na pandemia, efetivamente padeceram de algum problema de coração e, ainda assim, evitaram procurar o médico.

Dos entrevistados pela pesquisa, 18% dos brasileiros tiveram sintomas típicos de doenças cardiovasculares, como dor no peito ou dormência no braço. Entretanto, 26% dessas pessoas sintomáticas retardaram quanto puderam a busca por atendimento médico e 24% delas simplesmente deixaram de procurar o hospital. Tudo por medo de contágio. Podemos imaginar, assim, que uma parcela considerável dos brasileiros tenha convivido calada com doenças novas ou pré-existentes, basicamente por receio de contrair o coronavírus ao sair de casa para fazer consultas ou exames.

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É ainda mais grave pensar essa realidade para as doenças cardiovasculares, cujo sucesso no tratamento é garantido com o alerta e a prevenção precoces e contínuos. Tal peculiaridade e o fato de cardiopatias estarem entre as comorbidades que mais acentuam o quadro grave de Covid-19 deveriam levar o brasileiro a se preocupar mais com a saúde do coração.

Em vez disso, a pesquisa do IBPAD descobriu que 67% dos entrevistados mudaram pouco ou moderadamente suas atitudes em relação à prevenção de doenças cardiovasculares. Até era esperado que os mais jovens fossem, disparadamente, os mais displicentes nesse sentido. Mas não foi o que revelou o estudo. Mesmo entre os entrevistados mais velhos, nas faixas de 45 a 59 anos e dos maiores de 60 anos de idade, o percentual de abandono dos cuidados não muda muito e ficou entre 67% e 64%, respectivamente.

A falta de cuidado e atenção dos brasileiros em relação às doenças cardiovasculares, infelizmente, é um mau hábito antigo e não restrito ao período da pandemia. A nova pesquisa mostra que as doenças cardíacas preocupam apenas 22% dos brasileiros, pouco mais da metade da porcentagem da primeira colocada no ranking, o câncer (47%). Também aponta que aproximadamente quatro em cada dez brasileiros sequer fizeram alguma consulta ao cardiologista na vida. E, entre quem já foi alguma vez a esse profissional, 60% disseram que a consulta ocorreu há mais de um ano.

Acrescenta-se ao cenário o fato de que muitas doenças cardiovasculares são ignoradas pela maioria dos brasileiros. Por exemplo, as doenças estruturais do coração, como o estreitamento da válvula aórtica, são desconhecidas por 85% do público.

Os robustos resultados revelados na pesquisa para a campanha “Unidos pelo Coração” exigem um olhar cuidadoso da comunidade médica, dos tomadores de decisão e das autoridades públicas de todos os poderes. É irrefutável: o país, que ainda luta para superar a Covid-19, sofre silenciosamente de doenças do coração.

* André Jácomo é diretor de pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD)

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