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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

A emergência do autocuidado para as contas do sistema de saúde

Profissional defende uma maior conscientização sobre hábitos que promovem não só mais qualidade de vida mas também um uso racional do sistema de saúde

Por Cesar Bentim* Atualizado em 7 jul 2020, 18h56 - Publicado em 7 jul 2020, 12h23

O sistema de saúde já enfrentava dificuldades dramáticas para responder às necessidades da população mundial antes mesmo da pandemia do coronavírus. Diante da crise trazida pela Covid-19, seja do ponto de vista da infraestrutura, dos recursos humanos ou do seu financiamento, a saúde agora está realmente na UTI.

A destinação de recursos para a saúde já representa cerca de 10% do PIB de diversos países, limitando aumentos significativos, visto que o orçamento do Estado atende uma série de prioridades. Portanto, faz-se necessário repensar investimentos, reavaliar custos e buscar caminhos sustentáveis para esse sistema que é vital a todos nós.

O endereçamento de possíveis soluções vai desde a oferta de saneamento básico amplo, passando pela responsabilidade individual da própria saúde, até os cuidados especiais em doenças graves ou incuráveis. O leque é vasto e passa por particularidades muito específicas.

Um dos primeiros passos nessa jornada pela saúde de todos os cidadãos é conscientizá-los sobre a responsabilidade individual que se deve ter em relação à própria qualidade de vida, o que chamamos de autocuidado.

  • Afinal, o que é autocuidado?

    O termo resume um conceito desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e contempla uma atitude ativa e responsável de cada individuo diante da própria saúde, 24 horas por dia, 7 dias por semana, por meio de hábitos como higiene pessoal, alimentação balanceada e atividade física.

    Um dos aspectos mais relevantes do autocuidado é a obtenção de informações de fontes confiáveis, o combate às fake news (ou notícias falsas) e a valorização de veículos de comunicação e profissionais de saúde que transmitem orientações e informações baseadas em ciência.

    Os demais pilares trabalham outros aspectos com potenciais efeitos positivos na saúde física e mental. São indiscutíveis as vantagens de um estilo de vida saudável nos planos individual e familiar. O desafio é medir o impacto financeiro desses benefícios à sociedade, trazendo elementos concretos para que as autoridades e os governos mudem a lógica de como andam gerindo a saúde.

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    Investir, realizar, publicar e debater estudos que comprovem a eficácia dos pilares do autocuidado no custo evitado pela adoção de práticas saudáveis deveria estar na pauta emergencial do setor público e privado.

    Uma contribuição nesse sentido vem do sétimo e último pilar, a utilização responsável dos medicamentos isentos de prescrição médica, os MIPs. Eles representam uma alternativa racional e segura para que a população consiga adquirir medicamentos antes de acessar o sistema de saúde ou ter de ir a um hospital. Essa solução traz, entre outras vantagens, uma economia para o sistema.

    Estudos de economias geradas pelo consumo de MIPs ao redor do mundo vêm sendo publicados e nos ajudam a visualizar melhor o cenário. Nos Estados Unidos, onde existem as pesquisas mais abrangentes na área, observa-se que, para cada dólar gasto na compra de um MIP a fim de tratar um sintoma menor, a economia ao se evitar o acesso ao sistema de saúde é de 7 dólares. No Brasil, um estudo revela uma economia potencial da ordem de pelo menos 350 milhões de reais.

    O que se vê como serviço “gratuito” de saúde no SUS e mesmo no sistema privado é, na verdade, pago pelo dinheiro de todos os cidadãos na forma de impostos, co-participações ou desembolso em exames e medicamentos. Não existe tratamento de graça.

    Assim, melhorar os serviços de saúde é responsabilidade de todos. Em nossas mãos está a aplicação do autocuidado, assim como a replicação dos seus conceitos ao nosso redor, o que nos transforma em agentes de saúde.

    Os desafios do sistema de saúde, ainda mais com a pandemia, são profundos e complexos. Cabe a nós refletir sobre a contribuição do autocuidado na ressignificação dos cuidados com a própria saúde.

    * Cesar Bentim é publicitário e profissional de marketing, consultor e empreendedor no segmento farmacêutico e fundador da startup Artegist Healthcare Consulting, com sede em São Paulo e filial em Lisboa, Portugal

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