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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

A corrida de obstáculos de um paciente com asma grave

Essa doença respiratória crônica requer equilíbrio entre diagnóstico preciso e adesão ao tratamento

Por Leda Rabelo, pneumologista* - Atualizado em 15 out 2020, 18h25 - Publicado em 30 jul 2020, 13h57

A asma é uma das doenças crônicas mais prevalentes: afeta cerca de 334 milhões de pessoas em todo o mundo, e 13% da população brasileira. Uma parcela pequena de asmáticos (3 a 10%) apresenta a chamada asma grave. Ocorre que essa pequena faixa de pacientes consome até seis vezes mais recursos do que os indivíduos com versões leves ou moderadas do problema. Ela contabiliza 60% dos custos totais com asma, além de representar a maior parte das 250 mil mortes pela doença que ocorrem anualmente no planeta (e das cinco mortes por dia no Brasil).

A asma grave impõe um grande impacto negativo na qualidade de vida, podendo gerar muitas crises e perda de função pulmonar. Essa população também sofre com os efeitos colaterais dos medicamentos usados para aliviar as crises, apresenta alta taxa de mortalidade e profundas consequências negativas nas esferas psicológica e social.

Não é fácil — nem para o paciente, nem para o médico —, reconhecer o diagnóstico de asma grave. Uma parcela muito pequena desses indivíduos está sendo acompanhada por pneumologistas com experiência em conduzir o quadro. São pessoas que vão constantemente ao pronto-socorro, usam corticoides orais em altas doses durante as crises… Elas consomem mais de uma unidade de broncodilatador de alívio por mês (a qual contém 200 doses), muitas vezes sem supervisão médica, e até já foram internadas em UTI.

Mesmo com cuidados de uma equipe com experiência em tratar asma grave (geralmente em centros universitários), são necessários no mínimo seis meses para fechar o diagnóstico. É preciso fazer exames e afastar outras possíveis doenças por trás dos sintomas. Esse tempo também inclui o manejo, quando possível, de situações que podem agravar qualquer quadro de asma (rinite, refluxo gastroesofágico, ansiedade, exposição ambiental a alérgenos, tabagismo ativo e passivo etc). Ao lidar com essas questões, muitas vezes os sintomas já são bastante amenizados.

Sem dúvida, o fator mais importante do descontrole da doença tem sido a má adesão ao tratamento, em especial ao corticóide inalatório (o pilar do tratamento do asmático). Quando esse fator é corrigido, só uma pequena parcela de asmáticos continua descontrolada. Essa dificuldade de adesão medicamentosa passa por fatores culturais, financeiros e, principalmente, pela ausência do que chamamos de educação em asma. Em resumo, é conhecer a doença, sua abordagem e suas consequências, aprender a usar dispositivos inalados, saber como agir numa crise de exacerbação e por aí vai.

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Mas, como eu disse, após todo esse processo de otimização do tratamento, alguns pacientes ainda permanecerão sintomáticos e tendo crises de exacerbação. E mesmo para eles, que já estão usando doses altas de corticóide inalado, associado a uma ou mais medicações para o controle da enfermidade, hoje há o que fazer. Me refiro às drogas imunobiológicas disponíveis no Brasil (Anti IgE e Anti IL 5), que podem ser usadas com o objetivo de atingir o controle da asma grave.

Os imunobiológicos apresentam indicação precisa. De acordo com características fisiopatológicas, algumas pessoas recebem o Anti IgE e outras, o Anti IL 5. Uma parcela de pacientes tem indicação para ambas as classes terapêuticas — porém, infelizmente, um grupo de asmáticos graves ainda não se beneficia de nenhuma dessas categorias medicamentosas.

A jornada que o asmático grave atravessa até chegar a uma medicação efetiva para o controle de sua doença é árdua e cheia de obstáculos. No entanto, o apoio de uma equipe médica bem preparada e com experiência facilita esse caminho.

E esse trajeto pode ter menos obstáculos a partir de uma consulta pública da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que pode viabilizar, por meio dos planos de saúde, a disponibilização das terapias de última geração com potencial para tratar quem possui asma grave, devolvendo a qualidade de vida ao paciente.

Para entender o potencial de abrangência dessas terapias, um estudo recente conduzido pelo médico pneumologista Álvaro Cruz, diretor executivo da Fundação ProAr e membro do Conselho da Iniciativa Global contra a Asma (GINA), mostrou que a maioria dos pacientes com asma grave é elegível aos tratamentos de última geração.

*Leda Rabelo, médica pneumologista, professora do Grupo Magistério Superior da Universidade Federal do Paraná.

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