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Um reparo no curto-circuito

Após décadas sem tratamento adequado, a doença ganha uma série de opções terapêuticas que prometem revolucionar a vida do paciente - e mais está por vir

A Sociedade Nacional de Esclerose Múltipla, dos Estados Unidos, é categórica em um documento que traça a  biografia desse distúrbio: “A história da esclerose múltipla ainda está sendo escrita, mas a luta contra ela progrediu mais na última década do que no século passado inteiro”. Ora, se até meados de 1990 não existia sequer uma droga capaz de conter o problema e o surgimento de suas consequências — que vão de dificuldades para se mexer até visão embaçada -, nos últimos tempos foram lançadas mais ou menos duas por ano. A coroação dessa nova fase veio faz pouco, quando uma delas, o fingolimode (da farmacêutica Novartis), recebeu o Prix Galien suíço de 2014, prêmio que reconhece as medicações mais inovadoras do mercado.

“Já disponível no Brasil faz alguns anos, esse fármaco, além de eficiente, foi o primeiro de uso oral contra a esclerose múltipla”, conta o neurologista Jefferson Becker, coordenador do programa de neuroimunologia do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ou seja, o remédio breca o transtorno e, de quebra, traz conforto. “É importante ressaltar que a doença costuma aparecer em pessoas entre 20 e 40 anos”, aponta Leonardo de Deus Silva, neurologista da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista. “São jovens, em geral mulheres, que conviverão com essa condição por bastante tempo e, assim, ganham muito ao não precisarem de injeções frequentes”, arremata.

As mais novas opções medicamentosas seguem a mesma toada. O laboratório Genzyme, por exemplo, recebeu recentemente a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para dois princípios ativos: um, batizado de teriflunomida, também é administrado oralmente e visa controlar casos leves ou moderados da esclerose múltipla. Já o alentuzumabe, que retarda a incapacidade física e reduz a frequência de surtos – quando os sintomas vêm com tudo -, requer injeções. Mas detalhe: são só cinco dias consecutivos de picadas no início do tratamento e, 12 meses depois, outros três. “Após isso, acompanhamos o paciente. Vários deles não precisam tomar doses adicionais por três ou quatro anos”, revela Becker.

Se há uma consequência que incomoda demais a maioria dos 2,5 milhões de pessoas ao redor do globo com a doença, essa é a limitação para ir e vir. Segundo levantamento da GSK Consumer Experiences, 96% dos pacientes e cuidadores veem a marcha como o ponto mais impactado pela chateação. Para isso, já está disponível a fampridina, droga comercializada pelo laboratório Biogen Idec, que eleva em até 25% a velocidade de caminhada. “Ela não impede o agravamento do quadro, mas melhora a condução elétrica entre neurônios fragilizados, o que se traduz em uma passada mais natural”, resume Silva. Essa solução é bem-vinda especialmente nos indivíduos com uma versão da enfermidade chamada primária progressiva — ela representa 15% dos casos, é mais intensa e não responde bem aos outros fármacos. Mas a fampridina dá maior autonomia a essa turma, o que já é um grande avanço.

Além de comprimidos e injeções, a reabilitação física melhorou muito. “Atualmente, sabemos lidar bem com esse grupo de pacientes”, assegura o médico Beny Schmidt, chefe do Laboratório de Patologia Neuromuscular da Universidade Federal de São Paulo. “Se o indivíduo desenvolve restrições para andar, por exemplo, o fisioterapeuta pode colocá-lo para se exercitar na água e, então, fortalecer sua musculatura”, emenda. Estratégias personalizadas assim, em conjunto com um suporte psicológico, incrementam significativamente a qualidade de vida.

Apesar de tudo, ainda não há uma cura para a esclerose múltipla. Até porque, para isso, seria necessário reprogramar o sistema imune de modo a não agredir os neurônios – uma missão bem complexa. Entretanto, no último encontro dos comitês americano e europeu para o tratamento e pesquisa de esclerose múltipla, sediado em Boston, nos Estados Unidos, estudos com medicamentos que visam regenerar as áreas cerebrais danificadas foram alvo de discussão. “Isso já seria impressionante. Hoje em dia, o máximo que fazemos é minimizar a inflamação e o ataque ao cérebro”, avalia Becker, que esteve no evento. Se essas drogas virarem realidade, talvez seja possível recuperar a função das células nervosas e limar as sequelas.

Outra promessa é testada há alguns anos na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Lá, a reumatologista Maria Carolina de Oliveira Rodrigues e outros profissionais conduziram transplantes de células-tronco em 90 voluntários com o distúrbio. A ideia é recriar o sistema imune a partir de células do próprio indivíduo a fim de que ele não cometa mais os autoataques. “A doença estaciona em 60% dos casos”, atesta a médica. Ocorre que a técnica, embora menos agressiva do que no passado, traz efeitos colaterais pesados — antes de repovoar a imunidade, quimioterápicos são aplicados para erradicar as unidades de defesa originais, o que abala o organismo e o deixa suscetível a infecções oportunistas.

De volta à vida real, cabe lembrar que existem hábitos que ajudam a domar a esclerose. “Estudos apontam que o tabagismo a agrava”, exemplifica Elizabeth Comini Frota, neuroimunologista da Universidade Federal de Minas Gerais. “E o excesso de sódio também seria prejudicial”, complementa André Matta, neurologista da Universidade Federal Fluminense. Pois é, não são só os cientistas que devem se mobilizar para mudra a história natural dessa doença.