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Brasileiras andam insatisfeitas com a própria vagina. Mas por quê?

Pesquisa indica que sete em cada dez mulheres não estão em paz com a região íntima. É hora de despir mitos, tabus e o desconhecimento

Por Daniella Grinbergas 20 nov 2020, 14h45

Como é que vamos ter intimidade com algo ou alguém a quem chamamos até pelo nome errado? Pois é, vou começar esta história com um esclarecimento: diferentemente do que ouvimos por aí, vagina não é sinônimo de órgão genital feminino. A bem da verdade, o termo de direito é vulva — vagina é só uma das estruturas que a compõem. Só que a palavra pegou de um jeito que as pessoas a utilizam por aí como o conjunto da obra. E tem mulher que ainda fica corada ao ouvi-la.

É tanta vergonha e tabu que o povo recorre a uma porção de apelidos, dos mais infantilizados aos pejorativos. Mas a va…, ops, vulva merece mais atenção e respeito. Até porque o buraco é lá embaixo. Uma pesquisa recente, feita pela Nielsen Brasil, a Intimus e a Troiano Branding com 398 mulheres de 16 a 45 anos das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, escancara a falta de conhecimento e o descontentamento da brasileira com a região íntima.

No estudo, batizado de “Os Estigmas da Vagina”, salta aos olhos o dado de que 68% das entrevistadas dizem ter alguma insatisfação com a genitália. Além disso, 15% das participantes não olham para ela diariamente, 25% não costumam tocá-la e metade confunde a imagem da vulva com a da vagina.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, presidente da Associação Brasileira de Medicina e Saúde Sexual, o desconhecimento da vulva é o que leva à não aceitação e a outros dissabores. “Muitas mulheres não se dispõem a entrar em contato com essa região. Elas não olham, não tocam, como se nem tivessem esse direito, e, aí, a rejeitam antes mesmo de entender como funciona”, diz a também professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Para Carmita, essa visão está intimamente ligada à educação sexual, ou melhor, à falta dela. A ginecologista Carolina Ambrogini, coordenadora do Projeto Afrodite da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda e relata que boa parte das pacientes que chegam ao consultório simplesmente nunca olhou direito para essa parte do corpo. “Tenho um espelhinho e faço questão de apresentar a anatomia da própria vulva a cada uma delas. Muitas se espantam, algumas não querem ver, outras acham estranho e até nojento. Uma pena, porque o conhecimento deveria ser natural”, conta a especialista em sexualidade.

Como se reverte isso, agora e nas próximas gerações? O canal é o autoconhecimento. “Isso deveria ser estimulado desde a infância pela família, pela escola e pelos profissionais de saúde. Toda mulher precisa compreender suas estruturas, saber como se comporta a secreção vaginal ao longo do ciclo menstrual, o que é ou não normal”, afirma a ginecologista Flávia Fairbanks, secretária da Comissão Nacional Especializada de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Sim, autoconhecimento — da vulva inclusive — tem muito a ver com a saúde.

Mas por que as brasileiras se queixam tanto da própria região íntima? Voltando à pesquisa, a maioria das entrevistadas reclama dos pelos (33%), depois vem a cor (18%), seguida da aparência em geral (17%) e do tamanho (15%). E é aí que precisamos desfazer outro mito: não existe padrão ideal de vulva. Elas não são iguais, nem deveriam ser! Algumas mulheres têm lábios maiores e outras, menores; umas têm tom de pele mais escuro, enquanto há aquelas com a cor mais clara; existem vulvas mais ou menos peludas, e por aí vai. Vide a obra The Great Wall of Vagina, do escultor britânico Jamie McCartney, que moldou, em gesso, 400 vulvas de mulheres reais de diferentes idades e regiões do mundo.

“A diversidade é inerente ao ser humano. Cada mulher é única e uma vulva não é igual a outra. Precisamos nos olhar com mais carinho, independentemente de formato, cor ou estética da região íntima. Daí a importância de criar debates sobre o tema para que as mulheres se sintam mais confiantes e obstinadas a praticar o autocuidado e o autoconhecimento, tendo uma relação saudável com a sua vulva”, propõe Monica Fernandes, gerente de cuidados femininos para a América Latina da Kimberly-Clark, grupo responsável pela marca Intimus e que encomendou a pesquisa à Nielsen.

A insatisfação com os domínios da vulva não parou aí. O cheiro também foi alvo de protesto de 18% das participantes do estudo. Soma-se a isso o fato de que as secreções são campeãs nas reclamações feitas em consultas médicas. O que dizer disso? “Estamos falando de uma mucosa, ou seja, na região íntima há secreção e odor. Calcinha limpa só se for de criança ou de idosa”, responde Carolina. Mais do que se conscientizar de que a vagina tem cheiro mesmo, é preciso que a mulher conheça o seu até por uma questão de saúde. Mudanças no odor podem ser indicativos de infecções.

Da menstruação à menopausa

Apesar de todo o tabu que a envolve, a menstruação sempre foi a porta de entrada para os diálogos sobre a intimidade feminina. Mesmo que a fonte da informação esteja fora de casa, a adolescente acaba se dispondo a buscar respostas e mais conhecimento de seu corpo a partir do momento em que menstrua. Na pesquisa da Nielsen, metade das entrevistadas diz procurar na leitura (de revistas, sites etc.) orientações sobre suas partes íntimas e o período menstrual. Mas é evidente que esse tema precisa ser mais naturalizado. Em pleno 2020, tem mulher se sentindo impura e tentando disfarçar quando está menstruada.

Quer exemplos do dia a dia que denunciam esse constrangimento? Repare quantas perguntam bem baixinho se a colega tem um absorvente para ceder ou escondem o dito-cujo quando vão ao banheiro se trocar. Os ginecologistas tentam a todo custo mudar esse estigma e, mais do que isso, fazer com que a mulher sinta, conheça e aceite o seu ciclo. Sim, porque o organismo dá demonstrações claras, como a secreção vaginal espessa que desce pelo canal durante o período de ovulação.

Para perceber esses sinais, porém, é preciso entrar em contato com o próprio corpo e desbravá-lo — e não é raro que moças mais jovens ou maduras não avancem nessa jornada. “Temos um distanciamento cultural da nossa intimidade. No entanto, com debate e muito diálogo, as mulheres vão, aos poucos, fazendo as pazes com a menstruação, se empoderando do sangue menstrual, se conhecendo melhor”, avalia a ginecologista, obstetra e sexóloga Rebeca Gerhardt, que atua na capital paulista.

Na outra ponta dessa caminhada, a menopausa chega como uma onda e traz enormes mudanças hormonais e físicas, que podem repercutir na anatomia íntima. Mas não é que as mulheres mais velhas estão se mostrando um pouco mais bem resolvidas nessa seara? É o que aponta a pesquisa da Nielsen: quem tem mais de 40 anos tende a se queixar menos do visual da vulva do que as mais novas.

Esse público também tem buscado o médico para contornar eventuais chatices que vêm com a idade. “À medida que o conhecimento vai se expandindo, cresce a demanda por melhorar uma área que, por muito tempo, foi considerada um tabu para procedimentos de qualquer natureza, em especial os estéticos”, afirma o dermatologista Thales Bretas, que estuda os efeitos de técnicas como a aplicação de laser na região íntima na Universidade Federal Fluminense (UFF).

As principais reclamações que chegam ao consultório com a menopausa são a atrofia da vagina, quando ocorre uma diminuição em sua lubrificação e rugosidade; a flacidez nos grandes lábios, que pode ocorrer devido à queda na produção de colágeno no pedaço; o aumento da dimensão dos pequenos lábios; e a redução do volume da vulva. O perrengue maior é que a mucosa da vagina perde tecido e fica mais fininha, se machucando facilmente. Junto a isso, tem a falta de lubrificação natural em razão da deficiência do hormônio estrogênio. Aí já viu: pode ficar bem difícil na hora da penetração.

Mas nem tudo está perdido. Nem de longe. Além da reposição hormonal e de cremes específicos — que sempre devem ser usados sob orientação médica —, há novos tratamentos à base de laser e radiofrequência que vêm demonstrando bons resultados. E, se a ideia é dar um tapa no visual, mesmo ciente de que cada vulva é única, a cirurgia plástica pode entrar em cena com a ninfoplastia, que promete revigorar a aparência dos lábios. A procura pelo procedimento vem crescendo, mas, antes de entrar no bisturi, é essencial passar por exames e verificar se não haverá comprometimento na função vaginal. Ora, nem tudo se resume à estética.

Pequeno manual de anatomia

Será que você conhece mesmo o órgão genital feminino?

Vulva

Vamos começar pelo todo. Essa é a denominação da parte externa do órgão genital feminino, que vai desde o monte pubiano até o ânus, ou seja, tudo o que dá para enxergar ali.

Vagina

É a cavidade, em forma de tubo, que faz a comunicação da vulva com o útero. Revestida de uma mucosa, é o canal de saída da menstruação e do bebê na hora do parto.

Monte de Vênus

Também chamado monte pubiano, é literalmente uma gordurinha que protege o osso púbico. Ele fica lá em cima da vulva e é coberto de pelos — e nos protege contra o atrito.

Lábios

Há os pequenos e os grandes. São dobras da pele que defendem a entrada do canal vaginal. Durante a relação sexual, os pequenos lábios aumentam de tamanho.

Clitóris

Pequenino por fora, é maior por dentro. Muito sensível ao tato, com suas 8 mil terminações nervosas, tem papel importante na excitação e no prazer sexual.

Uretra

A mulher tem dois canais na região genital. Um é a vagina. O outro é a uretra, a rota por onde passa o xixi. Tem cerca de 4 centímetros e liga a bexiga à vulva.

Microbiota

No canal da vagina, há uma população de micro-organismos benéficos, que ajudam a manter o pH ácido da região. Essa comunidade de bactérias ainda evita que patógenos passem até o útero.

Lubrificação

Resultado da associação do muco cervical, produzido no colo do útero, e da secreção da mucosa vaginal e de dois conjuntos de glândulas. É essencial para que a penetração seja mais prazerosa.

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Odor

A vagina tem cheiro! E ele pode mudar ao longo do dia, principalmente se a vulva ficar abafada, e no ciclo menstrual. A dica é reconhecer seu odor e se atentar caso ele fique intenso.

Pelos

O debate sobre mantê-los ou não é antigo e, até agora, não se chegou a um veredicto sobre seu papel protetor. Sinta-se à vontade para apará-los, caso incomodem você.

E a higiene?

Lave com sabonete uma vez ao dia (íntimo ou de pH neutro) e faça a limpeza dos lábios e nunca do canal vaginal. Use só papel ao ir ao banheiro (da vulva para o ânus).

Ponte para o prazer

Se nem devidamente apresentadas as mulheres são à sua região genital, imagine se elas costumam ir atrás da descoberta do prazer sem limites que pode sair dali. Ao contrário dos homens, estimulados a se masturbar desde cedo, há um tabu fortíssimo em relação à prática feminina. Tanto que a pesquisa da Nielsen aponta que uma em cada quatro mulheres não costuma nem se tocar. “Das que se masturbam, muitas descobrem a autoerotização sozinhas e grande parte ainda sente culpa ao fazer isso”, observa Flávia.

É como se a vulva fosse uma parte excluída da convivência ou intocável mesmo. “A gente vê desde pacientes que, quando têm indicação de uso de um creme vaginal, precisam de um aplicador, porque não são capazes de introduzir o dedo ali, até aquelas que afirmam ter dificuldade de encontrar o próprio canal”, revela Carmita.

Eis aqui outra barreira a ser demolida com a normalização da conversa sobre a masturbação. Mais do que promover o autoconhecimento e o prazer individual, a prática ajuda a estabelecer uma vida mais feliz com os parceiros ou parceiras. Não tem essa de terceirizar o orgasmo! Quem sabe exatamente do que gosta pode indicar o caminho da felicidade a quem está aí do lado. Só precisamos falar mais (e com naturalidade) do assunto.

Ao mesmo tempo, temos de acabar com o estigma de que só se deve prestar atenção ao órgão genital no contexto da relação sexual. “A mulher precisa entrar em contato com a vulva e a vagina pensando em sua saúde física e emocional, além de realizar os cuidados de higiene”, argumenta a professora da USP. Estando familiarizada com a área, fica mais fácil identificar qualquer desordem que apareça. “Você só vai saber cuidar de um órgão se o conhece”, ressalta Carmita.

É com isso em mente que vale a pena conhecer os resultados de outra pesquisa, esta feita pelo Ibope a pedido da farmacêutica Bayer. Ela aponta que mais da metade das brasileiras já teve candidíase pelo menos uma vez na vida. E, apesar de ser uma doença comum, as mulheres têm vergonha de reconhecê-la.

A candidíase é causada por um fungo que vive na microbiota vaginal, mas que se prolifera desordenadamente quando há algum desequilíbrio. A prevenção é simples, com cuidados diários, como usar roupas leves em dias quentes, dormir sem calcinha, não ficar com biquíni molhado e higienizar corretamente a região — fungos e bactérias fazem a festa em áreas abafadas.

O tratamento não é nenhum bicho de sete cabeças. Existem pomadas e comprimidos vaginais que o médico poderá prescrever, inclusive para impedir complicações. Grande parte do problema poderia ser evitada com informação e orientação.

E aí temos muito a melhorar. Um estudo feito pela Febrasgo no ano passado descobriu que 20% das brasileiras não passam em consulta com o ginecologista com regularidade. Um número considerável de mulheres acha que não é preciso ir ao profissional porque está saudável, enquanto outras pensam que visitas de rotina são desnecessárias. Ledo engano! Os encontros anuais são imprescindíveis. “Neles coletamos exames, rastreamos doenças, esclarecemos dúvidas do cotidiano e falamos sobre a sexualidade”, destrincha Flávia.

Viva a vulva!

Mas vamos enxergar o copo meio cheio também. A mesma pesquisa que alerta para o descontentamento com as partes baixas traz progressos à vista. Segundo os relatos, as brasileiras estão se dispondo a dar mais atenção à vulva, a falar mais da região íntima, a olhar para ela e tocá-la. Esse é o primeiro passo para o empoderamento diante do próprio corpo, algo que traz mais qualidade de vida. “Sabemos que o estigma persiste e está bem enraizado. Por isso, é fundamental levantar a discussão e estimular cada mulher a se sentir mais confiante”, acredita Monica.

E, se você se chocar com mulheres escancarando intimidades, fazendo questionamentos efusivos, gritando alto que têm direito sobre a própria vagina, entenda que está tudo bem. Estamos entrando em uma luta por uma mudança cultural, e toda essa transformação passa por um período de extremos. “Isso é necessário para se chegar à naturalização do assunto. Somente quando a questão estiver resolvida, não precisaremos mais exacerbar essa apropriação da vulva, porque isso estará definitivamente incluso na nossa forma de ser e pensar”, conclui Carmita. Seja muito bem-vinda, vulva. A gente chega lá!

Os males da vagina

Conheça os problemas mais comuns que agridem a região — diante dos sintomas, procure o médico.

Candidíase

É causada por um fungo que mora na flora vaginal. O problema se dá quando ele se prolifera sem controle. Os sintomas são coceira, ardência e corrimento branco.

Infecção por HPV

É um vírus transmitido pelo sexo que pode provocar verrugas. Muitas vezes, porém, é assintomático. E o pior é que está ligado ao câncer de colo de útero. Mas tem vacina!

Vaginose

É uma infecção causada por bactérias, resultante de desequilíbrio da microbiota. Os sinais de alerta são: incômodo, corrimento acinzentado e odor forte, similar ao de peixe estragado.

Tricomoníase

É uma infecção sexualmente transmissível provocada por um protozoário. É dedurada por um corrimento espumoso amarelo-esverdeado, coceira e dores no local.

Vulvodínia

Trata-se de uma dor crônica na vulva ou na vagina com duração mínima de três meses — e sem causas específicas. Fatores hormonais e emocionais podem estar envolvidos.

Atrofia vaginal

Também chamada vaginite atrófica, se dá geralmente após a menopausa. O revestimento da vagina fica mais fino, o tônus muscular enfraquece e a lubrificação se reduz.

Rejuvenescimento íntimo?

É assim que ficou conhecido um grupo de tratamentos feitos em clínicas e consultórios destinados principalmente a mulheres na menopausa. E não é só estética, não! Eles ajudam a recuperar a satisfação sexual e a qualidade de vida. Com a queda dos hormônios, o tecido que reveste a vagina fica mais fino e a lubrificação diminui, o que leva a ferimentos e dores sobretudo no ato sexual. Além disso, a menopausa pode deixar toda a região mais flácida.

“E a flacidez do assoalho pélvico, que sustenta a bexiga e a uretra, faz com que a mulher tenha perda involuntária de urina por esforço”, nota o médico Thales Bretas. Aí entra o rejuvenescimento íntimo, que engloba aplicação de laser de CO2 e radiofrequência na área, e melhora a situação. Só que tem que fazer com um médico especializado nesses procedimentos.

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