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Inquietos tardios: TDAH não tem idade para começar

Cientistas descobrem que o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, pode ter início na vida adulta e não apenas na infância

Um jovem no auge dos 30 anos procura o psiquiatra. Ele sofre de distração crônica. O problema já lhe custou dois empregos, um namoro e um carro batido. No consultório, fala bastante e se remexe na cadeira. Os sintomas indicam TDAH, sigla para transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, condição que afetaria cerca de 3% da população adulta mundial.

Mas o paciente jura que não era assim tão desfocado e agitado quando criança. Segundo o DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Academia Americana de Psiquiatria, o TDAH nos adultos é a continuação do distúrbio manifestado ainda na infância. Mas novos estudos vêm colocar em xeque esse consenso.

Após acompanhar um total de mais de 7 mil pessoas, pesquisas conduzidas em paralelo no Brasil, no Reino Unido e na Nova Zelândia concluíram que o transtorno pode, sim, aparecer a partir dos 18 anos. “Estamos diante de algo totalmente novo. Até pouco tempo atrás ninguém acreditaria que o TDAH poderia ter início após a adolescência”, diz o psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores da investigação brasileira.

A primeira evidência a favor do fenômeno surgiu em um trabalho realizado com mil neozelandeses nascidos em 1972. A equipe da neuropsicóloga Terrie Moffitt, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, examinou os participantes quando tinham 7, 9, 11, 13 e 15 anos. Também fez perguntas sobre o comportamento deles a seus pais e professores.

Terrie voltou a avaliá-los após os 30 anos de idade. A surpresa veio ao comparar a lista das crianças com a dos adultos com o transtorno: ao redor de 90% dos indivíduos diagnosticados com TDAH não havia sido uma criança distraída e inquieta. “Chegamos a checar os dados para ver se eles haviam tido na infância pelo menos alguns dos sintomas de TDAH, mas não… Quando crianças, não apresentavam nenhum sinal”, relata Terrie.

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O achado convulsionou o meio médico, mas era cedo para provocar mudança nos manuais. Qual não foi o espanto quando dois estudos de peso trouxeram resultados semelhantes. Um deles, o maior em número de voluntários, foi feito por especialistas da UFRGS, que avaliaram na infância e aos 18 anos mais de 4,2 mil indivíduos nascidos em Pelotas (RS) e constataram que 87% dos jovens com TDAH não tinham o problema quando pequenos.

Resultado próximo ao encontrado por um time do King’s College London, na Inglaterra, com 2 mil gêmeos. “Quase 70% dos adultos com o transtorno não preencheram os critérios do TDAH quando foram avaliados aos 5, 7, 10 e 12 anos”, conta a líder da pesquisa, Jessica Agnew-Blais.

Essas descobertas abalaram certezas e trouxeram à tona uma série de perguntas. Uma das mais intrigantes é: o TDAH com início na vida adulta seria um transtorno diferente? Para a estudiosa Terrie Moffitt, não há dúvida de que se trata de uma nova condição. Ela se baseia em pelo menos dois argumentos. O primeiro é o fato de que o TDAH na infância afeta sobretudo meninos — são quase três para cada menina.

Na vida adulta, porém, a proporção se iguala. “Outra evidência é que as crianças com o distúrbio têm baixo desempenho em testes neuropsicológicos, enquanto a maioria dos adultos, pelo contrário, se sai acima da média”, detalha. Isso corrobora a tese de que, ao contrário do que pregam as definições clássicas, o TDAH tardio não seria um problema ligado ao desenvolvimento cerebral. “Mas precisamos fazer novas pesquisas para analisar esse aspecto. Hoje sabemos que o cérebro segue amadurecendo até os 25 anos”, pondera Arthur Caye, doutorando em psiquiatria e coautor do estudo da UFRGS.

A manifestação do transtorno entre adultos também teria por trás uma forte influência do ambiente social. Especialistas chegam a considerar que famílias superprotetoras e escolas pouco exigentes poderiam mascarar eventuais sintomas ainda na infância.

Como na vida adulta essa rede de apoio costuma se esvaziar, perrengues profissionais e pessoais trariam à superfície os efeitos colaterais da desatenção ou da agitação. Os dados levantados pelo King’s College London reforçam o papel do ambiente. “Na nossa amostra, encontramos gêmeos idênticos que compartilham 100% do DNA e um tinha TDAH e o outro, não”, destaca Jessica Agnew-Blais.

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Mas os entendidos não perdem de vista a possibilidade de o distúrbio mimetizar indícios de outros problemas, como depressão e dependências químicas. Até porque pessoas deprimidas ou sob efeito de entorpecentes não raro ficam constantemente avoadas. Nessa linha de raciocínio, o TDAH tardio seria, na verdade, uma manifestação de outros reveses psiquiátricos.

No entanto, estudos como o feito na população gaúcha refutam a hipótese. Nele, foram excluídos todos os fatores capazes de causar esse tipo de confusão e, mesmo assim, foi encontrado um número significativo de jovens diagnosticados apenas com desatenção crônica.

Teorias à parte, ainda é cedo para tecer conclusões definitivas sobre a existência e as causas da nova síndrome. Mas sua descoberta reacende uma polêmica antiga e que cerca o próprio TDAH infantil. Há quem defenda que a distração e a impulsividade são comportamentos compreensíveis em uma época agitada como a nossa — e não uma doença. “É comum pais e professores enquadrarem como problemático um comportamento inquieto esperado para determinada faixa etária”, diz a psicóloga Simone Bampi, coordenadora do Núcleo de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Nesse sentido, o crescimento nas vendas de metilfenidato (Ritalina e afins), estimulante prescrito contra o TDAH, joga mais lenha na controvérsia – um levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro acusa aumento de 775% no uso do medicamento em uma década.

Para não confundir um comportamento patológico com uma personalidade mais irrequieta, é preciso um diagnóstico rigoroso. Até porque quem convive com TDAH não pode ficar sem tratamento, não importa se ele começou na infância ou mais tarde. “Pacientes adultos não devem permanecer sem atendimento apenas porque o DSM-5 só reconhece o transtorno na infância”, frisam os psiquiatras Stephen Faraone e Joseph Biederman em editorial do reputado periódico Jama Psychiatry. Enquanto a ciência caça novas respostas, convém manter o foco nessa premissa.

O cérebro com TDAH

Exames de neuroimagem mostram que a massa cinzenta de uma criança com a condição é menos densa em áreas envolvidas com controle, atenção e planejamento, o que explica sintomas como distração e inquietude constantes. Em regiões centrais do córtex cerebral, as últimas a amadurecer, o atraso no desenvolvimento chega a ser de cinco anos em relação a pessoas sem TDAH. À medida que os anos passam, porém, a diferença tende a desaparecer. Daí a necessidade de novos estudos para entender o transtorno de manifestação tardia.

Os 18 sinais do TDAH

A criança precisa ter ao menos seis sintomas de desatenção ou hiperatividade (ou de ambos) por mais de seis meses e sofrer com as consequências disso. Já o adulto deve apresentar, no mínimo, cinco sinais

  1. Não presta atenção em detalhes ou comete erros por descuido.
  2. Tem dificuldade de manter a atenção em tarefas, conversas e leituras.
  3. Parece não escutar quando lhe dirigem a palavra.
  4. Não segue instruções até o fim e não consegue terminar trabalhos.
  5. Tem dificuldade para organizar compromissos e cumprir prazos.
  6. Reluta em se envolver em tarefas que exijam esforço mental prolongado.
  7. Perde itens necessários como documentos, chaves, celular etc.
  8. É facilmente distraído por estímulos externos ou pensamentos.
  9. É avoado para atividades cotidianas como pagar contas, retornar ligações…
  10. Remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira.
  11. Levanta da cadeira em situações em que se espera que fique sentado.
  12. Corre ou sobe nas coisas em contextos inapropriados.
  13. É incapaz de brincar ou se envolver em atividades de lazer calmamente.
  14. É inquieto permanentemente.
  15. Fala demais.
  16. Deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída ou termina as frases dos outros porque não consegue esperar.
  17. Tem dificuldade para aguardar a sua vez, como em filas.
  18. Interrompe ou se intromete em conversas, jogos ou atividades alheias sem ser convidado.
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