A visita ao pediatra sempre inclui um pit stop na balança. Para muitos pais, esse momento provoca ansiedade. E quase sempre não seguram a pergunta: “Doutor, o peso do meu filho é normal?” A preocupação com a dança do ponteiro (para cima ou para baixo) é natural. Afinal, ninguém quer para o filho apelidos como palito ou baleia. A prova dos nove para saber se o desenvolvimento está dentro do esperado quem faz é o pediatra. Ele usa a curva de crescimento, que cruza a altura e o peso da criança. Esse cálculo não tem erro.
IMAGEMTXTSe o especialista afirma categoricamente que os números estão perfeitos e ainda assim os pais duvidam, talvez o problema esteja no próprio casal. Tamanha ansiedade tem seu preço: uma nada improvável dor de cabeça no futuro. “Às vezes a criança é magra por causa do metabolismo e é obrigada a comer mais do que necessita só para acalmar a aflição paterna”, afirma a psicóloga Patricia Spada, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Se ela perde a noção
de saciedade, pode se tornar um adulto obeso.”
Por outro lado, o pequeno do tipo fortinho nem sempre tem uma relação neurótica com a comida. Ele pode ser dono de uma ossatura mais pesada ou estar tomando remédios à base de cortisona, que o deixam mais inchado. Considere, ainda, que
poucas crianças passam ilesas por uma fase de gula. E tudo isso acaba se refletindo no peso. O que não significa, no entanto, que obrigatoriamente engrossarão a fileira dos obesos na vida adulta. Traduzindo: se o pequeno se alimenta bem e de forma equilibrada, relaxe. A preocupação excessiva só vai criar nele uma relação de extrema angústia com a comida.
Olho vivo
Se mesmo ouvindo esse conselho uma nuvem de inquietação ainda rondar a mesa de jantar, siga a orientação da nutricionista Cristina Teruko Karya, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Avalie os hábitos alimentares do seu filhote, seja ele magricela ou gorducho”.
Isso inclui fazer um levantamento do que é oferecido, a forma de preparo, o horário das refeições e, acima de tudo, a relação da criança com a comida. Ficar um tempão mastigando para fingir que está comendo ou, ao contrário, detonar um pacote de bolachas num piscar de olhos indicam que algo está errado. Preste atenção e tente identificar as razões para o desequilíbrio. Elas são várias e vão desde o excesso de refrigerante ou de TV, passando pela falta de atividade física, monotonia do cardápio e até ansiedade com os desafios da vida. Em que caso seu filho se encaixa?
Apetite de leão
De qualquer maneira, vale a regra de ouro. Nunca faça nada drástico por conta própria, temendo não ver resultado. Ou seja, nem pense em limar as guloseimas do cardápio ou empurrar goela abaixo colheres e mais colheres de estimuladores de apetite. Atitudes, por sinal, que deixam os especialistas preocupados.
Quando o assunto é nutrição, um dito popular faz todo o sentido: as aparências enganam. A experiência da promotora de vendas Priscila Carrijo com seu filho Mateus, de 9 anos, é exemplar. Ela nunca se assustou com a magreza do garoto, que mede 1,49 metro de altura e pesa só 35 quilos. Isso até seis meses atrás, quando quis trocar o plano de saúde. Para seu desespero, o convênio escolhido recusou, alegando que o menino devia ser raquítico, anêmico ou ter algum problema grave de saúde para ser tão magro. “Levei-o ao pediatra chorando, mas ele assinou um atestado comprovando que meu filho é saudável”, conta. O incrível é que Mateus é o que se chama de um bom prato e vive reclamando que a mãe lhe dá pouca comida. “Às vezes fico horrorizada com a quantidade que ele come e acho até que vai passar mal!”
Mateus traça de tudo, de lasanha a estrogonofe, de macarrão com molho roquefort a yakisoba, além de peixe, frango, batata, lingüiça, salsicha, salada, pastel, cheeseburguer, milk-shake. Ele não gosta de muito doce nem de bala, mas tem paixão por chocolate. Tanto que devora pelo menos uma barra todo dia. “Como bastante mesmo e quem pega no meu pé é meu pai, querendo que eu raspe o prato”, diz Mateus. “Só às vezes é que não consigo.”
E olha que o garoto é bem ativo. Adora andar de bicicleta, joga futebol todo dia e treina duas vezes por semana. Praticou natação por três anos, mas desde fevereiro trocou a piscina pelo tênis — tem duas aulas por semana e bate bola todo sábado e domingo. Também joga handebol na escola diariamente. Vê TV ou fica no videogame no máximo uma hora por dia. Sua lancheira tem sempre salgadinho e refrigerante. “Mas se deixassem eu comeria chocolate no café, no almoço e no jantar!”, diz ele.
Outro lado da balança
Já se a criança está engordando além da conta e nenhum dos pais é obeso, tente descobrir a razão — excesso de comida, pouco exercício, maus hábitos... Talvez o ataque à geladeira sirva de válvula de escape para compensar algum problema afetivo. Mais uma vez, a observação do comportamento e da curva de crescimento é o melhor a fazer para saber o tamanho da encrenca.
A instrutora de trânsito Andréa Brandão, mãe de Roberta, 9 anos, 1,32 metro e 36 quilos, percebe que a filha come demais e está procurando segurá-la. “Ela adora salada e come coisas saudáveis, mas exagera na quantidade — sempre quer repetir”, conta a mãe. Roberta confirma: adora macarrão, panqueca e o waffle que sua avó faz, mas também come todo dia salada de alface, tomate, chuchu, berinjela, beterraba. Nunca deixa resto no prato e é chamada de balofa pelo irmão.
“Adoro comer!”, diz a menina. “Eu me acho gordinha, mas não estou nem um pouco chateada com isso. Bom, também não quero virar obesa como meu tio, que pesa 157 quilos! Mas vou fazer regime só porque minha mãe mandou.” Péssimo sinal. Dizem os nutricionistas que mais vale a reeducação do que rígidas restrições alimentares.
Roberta não gosta muito de brincar de correr e prefere sentarse num canto para ler um bom livro. Mas não é exatamente uma menina sedentária. Fez natação por três anos e pratica saltos ornamentais e basquete duas vezes por semana. Seu pediatra sempre diz que ela está um pouco abaixo da média na altura e no limite do peso. “Lá em casa nunca tem refrigerante e quase nada é proibido. Minha mãe apenas me pede que eu maneire.” Conselhos certeiros para um crescimento saudável e sem problemas no futuro.
Se a criança é enjoada
Ter preferência por determinados alimentos é muito comum até os 4 anos. Depois a mãe tem que insistir para o filho experimentar de tudo — e, se não gostar, pelo menos mordiscar um pouco. Não tolera feijão? Faça lentilha ou ervilha. Torce o nariz para o espinafre? Tente escarola, berinjela, abobrinha. Enjoou de bife? Ofereça frango, peixe ou ovo. Relacione os alimentos que a criança seletiva prefere e procure variar. “Quando ela disser que não gosta de algo, só leve a sério se você já o ofereceu no mínimo dez vezes. Mude a forma de preparo e a apresentação e insista”, ensina a nutricionista Anita Sachs, chefe da disciplina de nutrição do departamento de medicina preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E nada de ceder às birras e permitir que só coma guloseimas. Conhecer novos alimentos e sabores é também aumentar a ingestão de vitaminas, fibras e minerais.
IMAGEMTXTPara emagrecer os gordinhos
• Ofereça alimentos saudáveis, explicando que dão mais energia para brincar.
• Evite alimentos industrializados, ricos em gordura e sódio. Um veneno (principalmente) para quem está acima do peso.
• Use leite semidesnatado no café da manhã e no preparo dos alimentos.
• Substitua os sorvetes cremosos por picolés de frutas. Eles são gostosos e matam a vontade de comer o doce.
• Não permita que a criança faça a refeição na frente da TV. Distraída, ela não percebe o que nem quanto está comendo.
• Hora de comer é para falar de amenidades e não para dar broncas. Ensine seu filho a mastigar devagar. Também importante descansar o garfo no prato e só pegá-lo de novo depois que engolir o bocado.
• Não proíba fast-food. Combine lanchonete uma vez por mês. Assim a criança aprende a esperar com calma pelo programa tão aguardado.
IMAGEMTXTPara engordar os magrinhos
• Quanto mais colorido o prato, melhor. Alimentos de diferentes tonalidades não deixam a refeição apenas mais atraente. Eles são garantia de comida saudável.
• Para aumentar o valor calórico, incremente a receita com requeijão, creme de leite, azeite ou manteiga. Só não vale exagerar na dose por causa dos altos teores de gordura. Aí você resolve um problema, mas arranja outro.
• Em vez do refrigerante, que tem muitas calorias e nenhum nutriente, ofereça suco de frutas adoçado com açúcar — e apenas um copo, para não tirar o apetite.
• Incremente o leite de todo dia com mel, frutas frescas ou secas, nozes ou amêndoas. Batido como vitamina fica uma delícia.
• Não lote o prato nem exija que coma tudo. Cuidado com a ansiedade!
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