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Saúde

Crianças acima do peso correm alto risco de sofrerem um infarto ou derrame antes dos 50 anos

O excesso de peso na infância tem de ser levado mais a sério, alerta o endocrinologista Alfredo Halpern. Nesta entrevista, ele revela os fatores inusitados por trás desse fenômeno e o papel da família no seu tratamento

Crianças acima do peso correm alto risco de sofrerem um infarto ou derrame antes dos 50 anos


por Diogo Sponchiato | design Laura Salaberry e Fernanda Didini | fotos Silvia Zamboni

Quando o paulistano Alfredo Halpern, idealizador da famosa dieta dos pontos, começava sua carreira, no final da década de 1960, a obesidade não figurava como tema de disciplina nas faculdades médicas nem despertava o interesse de grupos de pesquisa e sociedades científicas. Ao gordo se atribuía um mero defeito de caráter que o fazia abusar da comida e ter preguiça de se mexer. Por isso, a ele se receitava uma dieta insossa e restritiva. Não passava pela cabeça das pessoas - inclusive dos clínicos - que os quilos de sobra eram sintoma de uma doença, muito menos que ela virasse uma epidemia global. Hoje a obesidade assusta porque vem aparecendo mais cedo, ainda na infância, e não dá sinais de recuo. É justamente para ir ao encontro desse cenário que Halpern, um dos pioneiros nos estudos e no combate ao excesso de peso no Brasil, lança, em parceria com SAÚDE, A Nova Dieta dos Pontos para Crianças e Adolescentes, atualização do seu livro já clássico, voltada para a família que se preocupa com a saúde de seus integrantes mais jovens - algo em evidência, uma vez que 30% da garotada se encontra acima do peso. Nesta entrevista, o especialista, que se divide entre os pacientes do consultório e do Hospital das Clínicas de São Paulo, discute a ascensão e as causas da obesidade infantil, suas repercussões de curto e longo prazo, bem como algumas soluções para freá-la a tempo.

SAÚDE - Quando o senhor começou a lidar com a obesidade, já previa que ela ganhasse essa dimensão e afetasse tantas crianças?
ALFREDO HALPERN -
Não. Minha incursão nesse terreno se deu ao mesmo tempo que surgia o interesse científico pelo assunto mundo afora, no início dos anos 1970. Eu notava, então, que sete em cada dez dos meus pacientes me procuravam em função do peso ou do diabete. Já tratava de uma forma diferenciada a obesidade quando ela estourou, na década de 1980. De lá para cá, o problema cresceu e temos um maior entendimento da sua seriedade, isto é, a noção de que é uma doença que mata. O que mais preocupa hoje é o avanço desse fenômeno entre as crianças, que, se continuarem acima do peso, estão sujeitas a uma vida mais curta.

Qual o impacto imediato desse problema?
As crianças gordas estão expostas a distúrbios ortopédicos e psicológicos e tendem a ter alterações na pressão e nos níveis de triglicérides e glicose. Estudos mostram que, entre elas, é maior o risco de se formarem placas de gordura nas artérias. Além disso, o diabete tipo 2 já está aparecendo na infância.

Como a obesidade influencia o futuro dessa população mais jovem?
A criança acima do peso corre grande risco de virar um adulto obeso. Imagine alguém com 30 anos que é gordo desde os 4, 5 anos. Ele tem quase três décadas de convivência com as desordens provocadas pelo peso e, dessa forma, fica mais propenso a infartar ou ter um derrame antes dos 50. Observávamos nos últimos anos um declínio na mortalidade por doença cardiovascular, mas a projeção é de que ela volte a crescer daqui a 20 anos por causa da obesidade infantil atual.

Quais são os fatores que fazem um menino ou menina crescer com quilos a mais?
Há o motivo básico de que as crianças estão comendo mais e gastando menos energia. Elas consomem porções caloricamente maiores e os lares estão repletos de biscoitos e bolachas. Embora haja mais escolas de esporte, no dia a dia elas se mexem menos e ficam enclausuradas nos apartamentos. No entanto, uma série de outros fatores está incriminada, a começar pela privação de sono. A criança dorme mais tarde e acorda cedo para ir ao colégio, sem contar o excesso de luz à noite. Isso desequilibra alguns hormônios, levando ao ganho de peso. A queda nos níveis de vitamina D, devido à menor exposição ao sol, e na ingestão do cálcio do leite também interfere em mecanismos de controle da massa corporal. Há também substâncias que - ainda bem - estão sendo abolidas, como o bisfenol que aparecia nas mamadeiras, capazes de estimular a proliferação do tecido gorduroso. E tem mais: já se sabe que a flora intestinal influencia o balanço energético, e o padrão de bactérias dos obesos é diferente do encontrado nos magros. Até o ar condicionado, acredite, pode contribuir com o peso, já que minimiza variações térmicas que induziriam o corpo a queimar calorias.


Essa lista não tem fim...
E o problema às vezes se inicia antes de a criança nascer. Mães diabéticas costumam gerar filhos muito grandes, enquanto aquelas que têm obsessão por dieta na gravidez dão à luz bebês pequenos. Tanto peso de mais como de menos ao nascer estão ligados à obesidade na infância. Nesse último caso, que tem crescido em função do maior número de cesarianas, o corpo da criança entende que precisará acumular mais e mais gordura para sobreviver. Não bastasse isso, já sabemos que gestações tardias e a falta de amamentação também colaboram para o problema.

E qual a responsabilidade da família pelos filhos gordinhos? Como ela pode ajudar?
A influência da família começa pela genética e se estende pelos hábitos dos pais e pelos exemplos que eles dão. Se você está acima do peso e não quer que seu filho também continue assim, busque emagrecer. É preciso criar um lar saudável, com menos biscoitos e frituras, para que a criança tenha as melhores escolhas dentro de casa. Não é que ela não pode comer uma batata frita ou um doce, mas isso tem de ser a exceção, e não fazer parte do cotidiano. Deve-se incutir desde pequeno o consumo de frutas e verduras e a prática de exercícios. No final de semana, por exemplo, os pais podem muito bem incluir atividade física no programa. Existem até videogames que cobram movimentos da garotada. Outro ponto que defendo é que a criança precisa sair de casa com o café da manhã tomado. Isso evita que ela se lance às opções menos nutritivas que costumam ser vendidas nas escolas.

Por falar em escola, ela tem um papel a cumprir na questão do peso?
Muito. Os colégios precisam incentivar mais a prática de esportes lúdicos, ensinar princípios de nutrição e suas cantinas devem ofertar comidas mais saudáveis.

No livro o senhor fala do preconceito contra a criança obesa.
O bullying é um dos fatores que mais atrapalham o tratamento, porque cria um círculo vicioso que faz o pequeno ficar deprimido e se refugiar na comida. É difícil evitar que ele não sofra esse tipo de agressão, mas temos de trabalhar sua autoestima, mostrar que os outros também têm defeitos, nem sempre corrigíveis. E conscientizá-lo de que se perder peso poderá se livrar dessa chateação.

Qual a vantagem da dieta de pontos para o público infantil? O que muda na nova edição?
O esquema de pontos foi criado há cerca de 40 anos e tem dado resultados tão gratificantes porque permite comer de tudo, mas de forma controlada. Anotando o que se ingere, você presta mais atenção na comida e tende a fazer escolhas mais saudáveis. O livro não se resume a uma tabela atualizada com 2 mil alimentos, mas parte do pressuposto de que é preciso compreender um problema para superá-lo. Uma das novidades é a restrição da gordura trans, dos produtos industrializados, que nos últimos anos demonstrou ser mais engordativa e nociva à saúde. As crianças costumam gostar do método, que funciona sobretudo se forem orientadas e convencidas de que, ao passar pelo período de maior restrição e chegar ao peso ideal, elas terão aprendido para o resto da vida a se alimentar direito comendo de tudo.

 

A Nova Dieta dos Pontos para Crianças e Adolescentes
Autores
Alfredo Halpern, com as nutricionistas Ana Paola Monegaglia Vidigal e Mônica Beyruti
Editora Abril
Número de páginas 196
Preço sugerido R$ 24,90
À venda nas principais livrarias e na lojaabril.com.br
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