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Preocupação excessiva é doença

Trata-se do que os especialistas chamam de transtorno de ansiedade generalizada. Será que é seu caso?

Por Kátia Stringueto | Foto Alex Silva

A vida está longe de ser um mar de rosas. E é melhor andar precavido. Mas isso não significa se afogar em preocupações e ficar o tempo todo na defensiva imaginando que o futuro será um fardo. Nem muito menos achar que, ao antecipar as tragédias, elas estarão sob controle e nunca acontecerão. Na verdade, pensamentos inquietantes e exagerados, quase sempre focados no lado ruim das coisas, não têm nada de preventivos. Tiram, isso sim, o fôlego da saúde.

O trabalho, o filho, o namorado, o papagaio... Pessoas que se preocupam incontrolavelmente com tudo podem estar entre os cerca de 2 a 3% da população que sofre de ansiedade generalizada, um transtorno que, caprichoso, tende a piorar na virada do ano. “Costumo abrir o consultório no dia 25 de dezembro a pedido desses pacientes”, diz a psiquiatra Erica Camargo, professora do Departamento d e Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, no interior de São Paulo.

“O vestibular, a ideia de fazer um balanço das tarefas cumpridas ou não durante o último ano, tudo isso agrava o sofrimento”, confirma o psiquiatra Márcio Bernik, do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Tem mais: “Estamos falando daquele indivíduo que, pegando o exemplo das compras de Natal, acha que gastará mais do que pode, que ninguém irá gostar do seu presente e que seu carro, estacionado na rua perto do shopping, será roubado”, diz Bernik. É mesmo uma espiral de descontrole. Os estudos mostram que os portadores do transtorno de ansiedade generalizada (TAG) demoram cerca de 15 anos para pedir ajuda. Em geral, porque acreditam que é normal ser hipervigilante. “Os indivíduos com TAG costumam ser ótimos funcionários, de tanto prever riscos”, continua o especialista. “Quando chegam à consulta, contam que na juventude, apesar de muito agitados, tinham mais gás que seus colegas. E só procuraram tratamento porque sentem que essa energia acabou e surgiram prejuízos na vida afetiva e social”, completa.

A agonia de viver pensando que algo pra lá de chato vai acontecer não vem em voo solo. “Há palpitações, falta de ar, náuseas, dificuldade de concentração e de sono”, detalha Sandra Inês Ruschel, professora da Pontifícia Universidade Catól ica do Rio de Janeiro. “A pessoa fica tão atenta ao que terá de fazer no dia seguinte que sempre demora para dormir”, explica a psiquiatra.

Daí surgem contraturas musculares, fadiga e tremores — o medo, aliás, é um sintoma que cresce muito nesse pessoal. Sem falar nos problemas cardiovasculares resultantes de tanto estresse e depressão. “Quatro de cada cinco indivíduos deprimidos evoluíram de um quadro de ansiedade não tratado”, pontua Bernik. A ansiedade generalizada altera a produção de neurotransmissores responsáveis pelo equilíbrio do nosso humor. “Essa é uma das prováveis causas da doença”, diz Erica. Já viu esse filme? Então, aproveite o período de mudanças e vire a página.

 
 
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