bichos

Água-viva e ouriço

Animais marinhos venenosos como as águas-vivas e as caravelas podem estragar um dia à beira-mar. Uma pesquisa aponta os acidentes mais comuns e como se defender desses bichos esquisitos por Tito Montenegro

O gabinete do professor Vidal Haddad na Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, é apertado. O pouco espaço não impede que seus assuntos preferidos estejam pregados nas paredes. A fotografia do time de futebol dos médicos da instituição disputa espaço com outras, de cobras e taturanas.

E a carteirinha de violeiro está perto de imagens de animais aquáticos venenosos, como as águas-vivas e as caravelas. São esses bichos o que mais desperta o interesse do dermatologista atualmente. Durante um ano e meio ele montou base no litoral em busca de acidentes com banhistas.

Daí surgiu uma tese em que avalia e ensina como agir nesses casos.

Botucatu fica a mais de 300 quilômetros do litoral. Para um pesquisador entusiasmado com o seu objeto de estudo, parecia perto o suficiente para que o trajeto fosse vencido quase uma vez por semana. Isso durante longos 18 meses. O resultado valeu a pena. Haddad observou em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, 144 banhistas que sofreram acidentes com águas-vivas, caravelas, arraias, ouriços-do-mar e até peixes, como o bagre. Isso representa um em cada mil pacientes que entraram no pronto-socorro local, contabiliza Haddad.

O número não é pequeno até porque a maioria das pessoas que foram, digamos, atacadas por um desses animais não chega sequer a procurar ajuda.

É o caso do engenheiro químico gaúcho Antônio Alberto Andrade da Rosa, de 26 anos. Ele perdeu a conta das vezes em que foi queimado por mãe-dágua como os sulistas costumam chamar a água-viva em Tramandaí, praia do litoral norte do Rio Grande do Sul. Dá uma ardência, além de uma dor forte e chata, porque coça, descreve Andrade da Rosa. Então fica um vergão na pele, com a marca dos tentáculos. O histórico de acidentes se deve ao hobby que ele pratica: o surfe. Mas qualquer banhista de final de semana está exposto ao perigo em todo o litoral brasileiro.

A paixão de Rosa pelo mar com 12 anos ele já pegava as suas primeiras ondas não se espelha no trabalho de Haddad. Não sou fã de praia nem gosto de areia, avisa o dermatologista. O que eu gosto é de atender quem está lá. Na época em que esteve entre Botucatu e Ubatuba, não teve do que reclamar. Fez dezenas de atendimentos e percebeu que os ouriços-do-mar são os responsáveis por metade de todos os casos de acidentes nas praias.

Bicho espinhoso
O problema dos ouriços não é o veneno, mas as suas espículas. Quando esses espinhos penetram na pele, se quebram automaticamente, conta o dermatologista Rodolfo Dantas Júnior, do Hospital Universitário Edgar Santos, em Salvador. Então podem provocar uma inflamação grave.

Se isso ocorrer, a região atingida muda de aspecto, pois fica endurecida e com uma coloração mais escura é uma lesão que os especialistas chamam de granuloma. É preciso, portanto, retirar imediatamente os pedaços do ouriço que ficaram cravados no corpo.
Na capital baiana, como toda cidade costeira, não é preciso ir muito longe para encontrar esses animais. O negócio é ficar esperto para não pisar num deles. Cuidado semelhante vale para evitar o contato com as águas-vivas, as caravelas e as arraias. Nesses casos há veneno. E a dor costuma ser insuportável. Ela pode durar 24 horas.

Menos freqüentes que os ouriços-do-mar são as águas-vivas e as caravelas. No levantamento de Vidal Haddad, um em cada quatro acidentes tinha como responsáveis esses bichos gelatinosos e translúcidos belos, até. Eles são da família dos celenterados, animais com células que liberam substâncias urticantes, explica o biólogo Sérgio Henrique Gonçalves da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em outras palavras, substâncias que provocam dor e coceira ao mesmo tempo.

Essas células venenosas estão localizadas somente nos tentáculos dos celenterados. Quando encostam na pele, provocam a sensação de que o local está sendo queimado. Em seguida, ficam as marcas em forma de fios, que desaparecem em poucos dias, sem deixar a lembrança de cicatrizes.

A teoria do xixi
Na maioria das vezes, os cuidados necessários podem ser tomados pela própria vítima. Em primeiro lugar, deve-se retirar os tentáculos da caravela ou da água-viva que eventualmente fiquem aderidos à pele, orienta o dermatologista Rodolfo Dantas Júnior. Outra dica é jogar xixi isso mesmo! sobre a área afetada. Há duas razões para isso. A amônia e o calor da urina combatem as substâncias urticantes liberadas, diz Dantas Júnior.

Líquidos em temperaturas altas sempre são antídotos. Qualquer veneno de peixe se degenera no calor, ensina Vidal Haddad. Por isso, deixe o local machucado imerso em água quente entre 30 e 90 minutos. Compressas de água do mar e a aplicação de vinagre, segundo o dermatologista, também ajudam a aliviar a dor.

Mas existem casos em que não se pode abrir mão do atendimento médico. Segundo Dantas Júnior, deve-se correr até o pronto-socorro se a vítima tiver alguns desses sinais, alarmes de que o veneno caiu na corrente sangüínea e pode estar gerando reações como a do choque anafilático:

- Respirar com dificuldade
- Ficar zonzo
- Sentir o pulso bater mais forte
- Sofrer queda de pressão
- Acabar com uma vermelhidão muito forte no local
- Guia marinho

Para evitar o susto com as águas-vivas e as caravelas, preste atenção num detalhe: elas nunca estão sozinhas. Quando você vê duas, três ou quatro delas, é hora de sair do mar, pois sempre aparecem em grupos, conta Haddad. Conhecimentos como esses estão prestes a virar livro. A tese do dermatologista vai ser recheada com 200 imagens e se transformar no Atlas de Animais Aquáticos Perigosos do Brasil, que deve ser lançado nos próximos meses pela Editora Roca. Não há dúvida de que o volume vai passar a disputar o espaço do gabinete apertado com a carteira de violeiro, a foto do time de futebol...

Curiosidades

- 25% dos acidentes com animais marinhos são causados por águas-vivas e caravelas.

- As arraias geralmente não chegam perto da praia. Por isso, os acidentes com elas acontecem com pescadores profissionais e mergulhadores e não com banhistas.



dieta dos pontos


sinta seu coração


receitas saudáveis





Rede MdeMulher
Publicidade