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Os exercícios e a reciclagem do corpo

Uma nova teoria desvenda de que maneira a atividade física transforma potenciais ameaças à nossa saúde em benefícios, protegendo o organismo de uma série de doenças por Theo Ruprecht • ilustração O Silva • fotos Dercílio

As fábricas, ao produzirem suas mercadorias, inevitavelmente geram lixo. São restos de materiais, gases tóxicos, máquinas quebradas e por aí vai. Sem uma limpeza adequada, os dejetos se acumulam até o ponto em que atrapalham o dia a dia da indústria. Com o corpo acontece algo semelhante. As tarefas realizadas pelas células culminam em resíduos nocivos que, se não colocados na lixeira, comprometem seu trabalho e o de suas companheiras. Ainda bem que há um mecanismo responsável por nos livrar dessa sujeira e, assim, manter cada uma das pequenas unidades do organismo saudáveis. Mas, em vez de jogar fora as porcarias, essa estratégia natural, chamada de autofagia, reutiliza o entulho em prol do bom funcionamento celular.

 

A grande surpresa, revelada em uma pesquisa com camundongos da Universidade do Sudoeste do Texas, nos Estados Unidos, é que os exercícios promovem essa espécie de reciclagem. Mais do que isso, o estudo comprova que o fenômeno estimulado pela prática esportiva realmente faz um bem danado por, entre outras coisas, varrer para longe um dos males que mais crescem em incidência atualmente: o diabete.


"No tecido muscular, a autofagia facilita o aproveitamento de glicose nas células e, com isso, evita picos de açúcar no sangue que culminam no transtorno", relata Congcong He, autora do levantamento. Esse processo também deixa as células do pâncreas livres de partículas prejudiciais e, logo, funcionando a pleno vapor para fornecer insulina, o hormônio que bota a glicose dentro da célula.

 

Por mais que Congcong He tenha concentrado seus esforços recentes no diabete, ela vê a autofagia como uma explicação plausível para o fato de a atividade física barrar o surgimento de outros problemas sérios, como um câncer. "Ela diminui o risco de mutações que desencadeiam tumores", resume a cientista.

 

Uma das razões para isso — e que, aliás, esclarece o porquê de sessões na academia rejuvenescerem o corpo — é que um sistema eficiente de reciclagem no organismo baixa a concentração de radicais livres, moléculas capazes de lesar toda a célula, inclusive seu DNA. É que ele transforma mitocôndrias defeituosas em outras novinhas em folha, como já mostramos no infográfico das páginas anteriores. "Quando essas estruturas possuem falhas, produzem uma quantidade grande de radicais livres ao fornecerem energia", ensina Rafael Herling Lambertucci, educador físico da Universidade Cruzeiro do Sul, na capital paulista.

 

Em algumas situações, no entanto, nem mesmo uma equipe de limpeza altamente preparada consegue livrar certas células de toda a sucata acumulada. Quando o caso é crítico assim, elas mesmas costumam se desligar em um complexo processo denominado apoptose. "É uma autofagia da célula inteira. E os exercícios aprimoram essa ação de defesa", esclarece Marcelo Aisen, oncologista do Centro Paulista de Oncologia, em São Paulo. Resultado: menor probabilidade de um pedacinho problemático da gente escapar da coleta seletiva e, então, começar a causar estragos nas imediações que às vezes levam ao câncer.

 

Agora, se por um lado o elo estabelecido entre a malhação e a autofagia seja animador, alguns especialistas pedem um pouco de cautela. "Trata-se de uma descoberta novíssima e, por isso, há muito para estudar antes de compreendermos suas implicações à saúde de cada um", pondera Jomar Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. "Mais do que isso, essa suposta consequência da prática esportiva não explica todas as vantagens proporcionadas por ela", completa. Por exemplo: assim como abandonar o sedentarismo faz uma espécie de higienização das células cardíacas, deixando-as mais fortes e menos propensas a panes, essa atitude aumenta a fabricação de óxido nítrico, uma substância que dilata os vasos sanguíneos. Em outras palavras, levantar-se da cadeira e ir para a ginástica debela doenças cardiovasculares em no mínimo duas frentes.

 

E quanto seria necessário ralar para incrementar a nossa reciclagem interna? "Ainda não há uma definição de dose ideal, até porque isso deve variar de pessoa para pessoa. Mas o estudo sugere que a regularidade é peça-chave para que a autofagia seja realmente positiva", avalia o fisiologista Orlando Laitano, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina, Pernambuco. Suar com frequência pode até sujar a camiseta, mas limpa seu corpo de vários vilões do bem-estar.

 

 

Um remédio que imita a atividade física

Graças ao trabalho americano, no futuro talvez a gente encontre pílulas que incitem a autofagia como uma corrida, o que ajudaria no combate a várias doenças. Porém, isso demorará para acontecer — se acontecer. Por isso, o esporte ainda é o melhor medicamento.

 

 

A inanição serve como um exercício?

Já existem evidências científicas sólidas de que ficar um bom tempo sem comer também ativa a autofagia. "Só que, nesse contexto, o processo é deflagrado com o intuito de consumir o interior das células para garantir um pouco mais de energia", relata o educador físico Rafael Lambertucci. Ou seja, um estômago vazio por um período prolongado não preserva cada uma das partes que nos compõem, mas, sim, as queima aos poucos só para garantir a sobrevivência do indivíduo.

 

 

 

O reaproveitamento do lixo


Veja como a autofagia atua dentro da célula:

 

Acúmulo de dejetos
Com o passar do tempo, certas moléculas de proteína que participam de inúmeras tarefas das células ou que formam sua maquinaria e seu DNA começam a apresentar defeitos. É um enorme amontoado de resíduos tóxicos que, sem tratamento, gera um caos nada saudável, capaz de repercutir na integridade celular e no tecido da qual ela faz parte.

 

Ameaças ensacadas
Ainda não se sabe exatamente como, mas o exercício auxilia o organismo a criar em maior quantidade autofagossomos mais eficientes e rápidos. Trata-se de membranas que englobam as sobras maléficas, impedindo que elas continuem a causar estragos.

 

Centro de compostagem
Os sacos de lixo — ou melhor, os autofagossomos — desembocam em lisossomos, que aproveitam o material antes perigoso para construir proteínas novas. As principais funções delas você conhece abaixo:

 

1. Mitocôndrias
Juntas, as moléculas recicladas podem formar a organela com o nome acima. E é ela que, ao se valer de glicose e oxigênio, fabrica energia para as atividades do organismo, de uma contração muscular até o armazenamento de memórias.

 

2. Energia extra
Se a célula necessitar de um gás a mais urgentemente, aquelas proteínas são quebradas em componentes menores, parecidos com carboidratos e gorduras. Ou seja, com potencial para se tornarem substratos energéticos.

 

3. DNA
Nosso código genético é formado por uma grande sequência de aminoácidos. Quando um deles falha, outro pode ser obtido por meio daquelas partículas reaproveitadas, deixando nossos genes intactos.

 

 

 

Corpo renovado

 

A conversão do lixo celular em material aproveitável traz ganhos dos pés à cabeça:

  

Coração
Além de oferecer gás extra para aqueles momentos mais desgastantes, a autofagia mantém as células do peito com saúde para dar e vender, o que aplaca o risco de complicações.

 

 

Pâncreas
As células beta desse órgão produzem insulina, hormônio que controla a glicemia. Elas desempenham melhor seu papel quando não há resíduos tóxicos por ali e toda a maquinaria está em ordem.

 

 

Câncer
Os substratos reciclados substituem pedaços falhos do DNA que poderiam transformar uma célula sadia em uma potencialmente cancerosa.

 

 

Músculos
Suas fibras conquistam resistência por conseguirem aproveitar com eficácia a glicose. Assim, as caminhadas ficam mais longas — ou até viram corridas com o passar do tempo.

 

 

Metabolismo
Em tese, ele se tornaria acelerado quando somos ativos porque, entre outras coisas, células imaculadas simplesmente trabalham em dobro e, dessa forma, gastam mais calorias.

 

 



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