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A maconha na cabeça dos adolescentes

Pesquisa brasileira sugere que o uso dessa erva antes dos 15 anos prejudica funções mentais no futuro por Theo Ruprecht / ilustração Nik Neves

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Se as bebidas alcoólicas e o tabaco saíssem de cena, a maconha seria a droga mais consumida no mundo. No Brasil, cerca de 9% da população a usa ou ao menos a usou regularmente. Hoje em dia, estima-se que 65% das pessoas têm acesso fácil a ela. Dados como esses preocupam muitos pais, que veem com frequência relatos de supostos malefícios da erva Cannabis sativa para a cabeça de seus filhos. Mas a questão é que, até agora, poucos experimentos sérios foram realizados sobre a influência da marijuana no desenvolvimento mental dos adolescentes. Em outras palavras, há muita opinião para poucos fatos concretos.

Em meio a esse cenário, a psicóloga Maria Alice Fontes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizou uma bateria de testes cognitivos em 104 usuários crônicos desse entorpecente. Parte deles havia começado a fumar quase todos os dias antes dos 15 anos, enquanto a outra adotou o baseado após essa idade. No estudo, finalista do Prêmio SAÚDE de 2011, a turma mais precoce obteve os piores resultados nas avaliações. "Esse grupo específico apresentou um déficit de memória, atenção e capacidade de se organizar", destaca Maria Alice. "Ele ainda continha mais indivíduos que insistiam nos mesmos erros", completa.

 

O uso da maconha é três vezes mais comum entre os rapazes. O pico de consumo se dá na faixa dos 18 aos 24 anos

Curiosamente, quem passou a fumar maconha só mais velho alcançou uma performance muito semelhante ao de voluntários que nunca tiveram o costume de utilizar o alucinógeno. "Mas isso ainda não quer dizer que ele é inofensivo a partir dessa idade. Será necessário fazer outro trabalho para verificar essa hipótese", ressalta Paulo Jannuzzi Cunha, neuropsicólogo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC) que também esteve envolvido no projeto.

 

De qualquer modo, há um elo entre inalar a fumaça da Cannabis durante os primeiros anos da juventude e uma cabeça, digamos, mais fraca. "O cérebro conta com um sistema com o nome de endocanabinoide. Ele regula, entre outras coisas, a fome, o sono, a atenção e a memória. E a maconha afeta todo o seu funcionamento", explica Maria Alice. É que o THC, princípio ativo da maconha, toma o lugar de uma substância chamada anandamida, fabricada pelo próprio organismo e que atua nesse circuito. Aí, ela sobraria na massa cinzenta, o que, na teoria, acabaria desregulando a estrutura mental como um todo. Daí, as consequências para um sistema nervoso ainda em evolução seriam bastante danosas.

 

Quantidade é qualidade


"Ficamos assustados com o número de cigarros de maconha fumados pelos voluntários. Era uma média de dois por dia", afirma Maria Alice. E, quanto maior o consumo, pior o desempenho nos exames. Até porque mesmo os efeitos agudos da droga, a exemplo da percepção de mundo alterada e da desatenção, dificultam o aprendizado, tanto na escola como em casa. Isso, por sua vez, traz um obstáculo a mais para a resolução dos testes da pesquisa brasileira — e para todos os outros que surgem ao longo da vida.

O levantamento feito pela Unifesp estabelece uma associação entre o consumo da Cannabis sativa antes dos 15 anos e déficits cognitivos. Contudo, ele não define o que causa o quê, porque não dá para saber se foi a droga que gerou as falhas na cabeça ou se, por outro lado, os sujeitos com uma cognição menos privilegiada teriam, naturalmente, uma maior tendência a dar tragadas e mais tragadas. "Para resolver essa pendência, é necessário testar voluntários antes, ao longo e depois do período em que começarem a fumar, um processo complicado e demorado", explica o neurocientista Renato Malcher Lopes, da Universidade de Brasília. Assim sendo, é impossível dizer com todas as letras que maconha é sinônimo de tilts duradouros no cérebro.

A lógica, aliás, assemelha-se com a relação descoberta entre essa erva e a depressão. Enquanto há gente que acredita na hipótese de que ela seria o estopim desse mal em alguns casos, outros creem que quem sofre com o problema vê nela uma espécie de relaxante. "Existem mesmo pacientes psiquiátricos que a utilizam como medicamento. Mas isso não é indicado, principalmente sem a orientação de um profissional", reflete Jannuzzi Cunha.

O que realmente está consolidado é a influência da marijuana em um quadro que atende pela alcunha de síndrome amotivacional. Como o próprio nome diz, trata-se de um transtorno em que o adolescente fica extremamente desmotivado com os afazeres diários, especialmente dos mais tediosos, como a lição de casa. Falta averiguar se os efeitos persistem quando o uso é interrompido.

Também se sabe que a droga é capaz de desencadear surtos esquizofrênicos. E existe o risco de isso ocorrer mesmo em quem experimentou um baseado só uma vez. "A maconha não origina a esquizofrenia. Na verdade, ela pode antecipar uma crise em indivíduos com a doença", informa Malcher Lopes. Como todo pai bem sabe, para prevenir a adição não existe um guia único que funcione para todo filho. Até mesmo os especialistas não conseguem apontar estratégias que eliminem completamente — e em todos os casos — o risco de o jovem abusar de um entorpecente qualquer. Porém, há fatores genéricos que diminuem a probabilidade de esse problema dar as caras. São eles: não viver em uma casa com violência doméstica, possuir pais casados e ter um laço afetivo com os dois, ir bem na escola e não ver constantemente familiares com um cigarro de qualquer tipo na boca.

Prender o jovem em casa só piora a situação. Outro tiro pela culatra é tentar convencer a próxima geração de que a maconha traz sensações desagradáveis. A ordem é passar informação de qualidade e, acima de tudo, monitorar. "O pai precisa saber onde o adolescente está e quando e em que estado ele volta para casa", resume Arthur Guerra, psiquiatra do Centro de Informação sobre Saúde e Álcool, em São Paulo. A estratégia, no fim, é a mesma para evitar que o jovem se meta em uma série de encrencas: educação e acompanhamento.

 

Em outras partes do corpo

Há quem diga que a protagonista desta reportagem, quando presente desde a puberdade, abala a coordenação motora. Agora, justiça seja feita, isso só acontece — se acontecer — logo depois do uso. Outro suposto prejuízo seria a infertilidade, porque há experimentos relacionando a maconha com espermatozóides mais preguiçosos do que o normal. "Entretanto, isso não se reflete em estudos populacionais. Aparentemente, ela não gera uma maior dificuldade para ter filhos", contrapõe o psiquiatra Ivan Mario Braun, do HC.

 

Uma porta de entrada?


"As pessoas podem progredir da maconha para outra droga. Mas isso é somente uma associação, e não uma regra", relata Ivan Mario Braun. Um possível motivo é o desejo de a pessoa, ao longo do tempo, querer experimentar outras, digamos, viagens alucinógenas. "Um grande problema é que o usuário geralmente compra maconha do traficante. E esse oferece outras substâncias junto para aumentar seus próprios lucros", afirma Jannuzzi Cunha.

 

A maconha em números

- 67% dos usuários começam a fumar maconha entre 12 e 17 anos;
- 16% entre 18 e 25;
- 5,5% acima dos 25;
- 1,5% com menos de 12;
- 9% dos indivíduos que fumam maconha ficam viciados;
- O número sobe para 16% se o consumo se inicia nos primeiros anos da adolescência;
- 65,1% das pessoas têm acesso fácil à Cannabis Sativa;
- 3 anos é o tempo que transcorre, em média, do momento da experimentação até o uso crônico. Mas, claro, muita gente para antes disso;
- É a droga ilícita mais consumida no mundo.

 

O uso medicinal

Estuda-se muito o potencial da maconha contra consequências do câncer. Afinal, ela dá fome, aplaca dores e pode trazer sensação de bem-estar. Todavia, o tema gera polêmica. "A erva atua como vários remédios ao mesmo tempo e, se não há exagero, as reações adversas são poucas", defende Malcher Lopes. "Mas vicia e seu efeito alucinógeno compromete o dia a dia. Por isso, deveria ser empregada como um último recurso", diz Ivan Mario Braun, psiquiatra do HC.

 

 

 



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