Já são 2 horas da manhã e você não conseguiu pegar no sono. Esse carma, estimam as autoridades em saúde, tende a fazer parte da rotina de um terço da população mundial. E, segundo os levantamentos epidemiológicos, a insônia está ampliando realmente seu número de vítimas. O mais recente deles, concluído pelo governo britânico, acusa, depois de entrevistar mais de 11 mil pessoas, que pelo menos metade dos habitantes do Reino Unido tem sérias dificuldades para dormir.
No Brasil, o cenário é provavelmente semelhante. Dados de um estudo conduzido em São Paulo em 2007 revelam que até 35% dos paulistanos reclamam de insônia, problema que, não bastasse o sacrifício noturno, gera, durante o dia, irritabilidade, fadiga, perda de memória e concentração, sem contar que ainda predispõe a infecções, depressão e doenças cardíacas. As mulheres padecem mais do transtorno: para cada portador do sexo masculino, há três do feminino.
Estima-se que 1/3 da humanidade tem ou terá insônia em algum momento da vida
Antes de esmiuçar as razões desse boom de insones, convém esclarecer o que é o problema. Não se trata da privação de sono espontânea, quando se deixa de deitar por trabalho, festas ou bate-papos online. O distúrbio é marcado pela vontade de se entregar aos sonhos, mas nada de pregar os olhos. "O indivíduo não consegue dormir ou manter o sono durante a noite e tem um repouso superficial", define a médica carioca Andréa Bacelar, da Academia Brasileira de Neurologia. "Hoje há um novo conceito de que o insone é aquele que vive insatisfeito com o seu sono. Essa dificuldade é fruto de um estado de hiperalerta na hora de dormir", diz a neurologista Dalva Poyares, do Instituto do Sono, em São Paulo.
Por que há uma horda crescente de vítimas desse antiapagão? A resposta, para a maioria dos especialistas, não vai nos espantar, porque são ingredientes da vida nas grandes cidades. A culpa recai sobre o estresse crônico e a ansiedade — e também nas desordens que esses fatores ajudam a desencadear. E suspeita-se de que a própria privação de sono intencional colabore, depois de anos a fio, para o distúrbio em si.
É preciso diferenciar uma batalha para pegar no sono que acontece eventualmente e em circunstâncias adversas — quando nos deitamos após uma briga com o cônjuge, preocupados com um projeto no trabalho ou se temos de dormir em meio a uma viagem de ônibus — de um conflito rotineiro, instaurado a cada início de noite e sem ter necessariamente um motivo aparente. "Classificamos como insone o indivíduo que não consegue dormir direito três vezes por semana e isso se estende por mais de um mês", explica Andréa Bacelar. O problema pode durar uma temporada e ir embora, voltando ou não esporadicamente, ou tornar-se crônico. De qualquer forma, a partir do momento em que esse pesadelo atrapalha a qualidade de vida, cai bem uma visita a um médico do sono, que pode recorrer a diversos exames.
Se, há mais de um mês, você tem dificuldade para dormir pelo menos entre duas e três vezes por semana, vale procurar um médico do sono
A insônia também pode ser catalogada como primária — quando sua origem é desconhecida — ou secundária, se é sintoma de outra doença, psicológica ou fisiológica, ou segue de mãos dadas com ela. "Uma porção de males, entre eles insuficiência cardíaca, refluxo e desordens hormonais, está associada à privação não intencional de sono. Daí a necessidade de investigar a fundo o problema", aponta a neurologista Rosa Hasan, do Hospital e Maternidade São Luiz, na capital paulista. Os transtornos da mente, aliás, lideram a lista dos financiadores de insônia. "É comum observarmos dificuldades para dormir entre pacientes com depressão, ansiedade e esquizofrenia", diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Por falar em depressão, já se estuda se a insônia não faz parte do mesmo caldo bioquímico por trás da tristeza e da falta de motivação.
Não só doenças boicotam o repouso noturno. Mudanças no corpo que acompanham o avançar da idade também contribuem para madrugadas acesas. E, nesse sentido, o perrengue pesa mais uma vez no bloco feminino. Na menopausa e no período que a sucede, um número significante de mulheres passa a relatar noites em claro. "As oscilações hormonais, as ondas de calor e quadros depressivos figuram entre as principais explicações para o problema", diz a ginecologista Helena Hachul, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No caso, a reposição hormonal, quando bem indicada e somada a mudanças no estilo de vida, costuma remediar a situação. Aliás, em um trabalho feito na Unifesp, a equipe da professora Helena verificou que a isoflavona, componente extraído da soja, minimiza a insônia nessa fase. Depois dos 65 anos, porém, não é raro que os homens compartilhem da luta para adormecer e manter-se de olhos bem fechados — e isso pode estar ligado à necessidade de levantar várias vezes na madrugada para urinar.
Se por um lado a ciência apura por que a insônia anda visitando tantas casas depois que o sol se põe, por outro está de olho em estratégias capazes de promover uma desligada saudável. Uma vez dado o diagnóstico do distúrbio, e identificadas suas causas correlatas, o médico se junta ao paciente para delinear um plano em prol de noites em paz — e aí é crucial tratar, se for o caso, a condição que arma ou incentiva a dificuldade de pregar os olhos. Algumas receitas, no entanto, podem ser aplicadas a todos os insones de plantão. São as regras da chamada higiene do sono, que aparecem na ilustração à direita. "Não adianta nada o paciente tomar remédio para dormir se não mudar seus hábitos ruins", diz o neurologista Rubens Reimão, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
No campo do estilo de vida, quem merece o título de fator pró-sono é o exercício físico. Um estudo da Universidade Bellarmine, nos Estados Unidos, acaba de sinalizar, após acompanhar 2 600 pessoas de 18 a 85 anos, que a prática regular de uma atividade moderada aprimora em 65% a qualidade do sono. Nem é preciso viajar para fora do país para colher resultados tão animadores. Na Unifesp, a fisioterapeuta e pesquisadora da área de psicobiologia Carolina Vicaria está avaliando o impacto da musculação e do alongamento no controle da insônia crônica em pessoas antes sedentárias. "Os voluntários que realizam essas atividades uma hora por dia três vezes por semana relatam uma melhora no padrão de sono", conta Carolina. Por quê? "Acreditamos que os exercícios atuam na liberação de endorfinas, que produzem uma sensação de bem-estar, e reduzem a ansiedade no momento de dormir", explica. Outro trabalho realizado na instituição já havia revelado que a caminhada exerce efeito parecido.
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