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Pancreatite: motivo para muita dor

A inflamação do pâncreas costuma atingir homens e mulheres a partir dos 40 anos de idade. Entenda como essa doença de duas caras altera a rotina da digestão e complica a síntese de hormônios em nosso corpo

por Gabriel Moro
infográficos Thiago Lyra
ilustração Erika Onodera

Em meados de 2001, o paulista Vicente Carlos Saragosa, hoje com 51 anos, começou a sentir pontadas de dor na altura do abdômen. “Eram muito fortes, pareciam facadas. Não dava para saber se eram no estômago, nos rins ou nas costelas”, recorda-se. Os diversos médicos pelos quais ele passou também não conseguiam identificar o que causava tamanho desconforto. Com a piora de seu estado, Sarogosa teve de ser internado às pressas. “Em pé, sentado ou deitado, eu não conseguia achar uma posição para aliviar o incômodo. Só pensava em me livrar daquilo.” Descobriu-se, então, que o pâncreas era o epicentro das sensações dolorosas — e o problema tinha nome: pancreatite, uma inflamação naquela glândula que compromete suas funções.

É um desafio diagnosticar esse chabu. Isso porque o pâncreas está localizado em meio a diversos órgãos na região abdominal. “A pancreatite pode ser confundida com úlcera, colicistite, que é uma inflamação da vesícula biliar, e até perfuração abdominal e pneumonia”, afirma Adriano Miziara Gonzalez, gastroenterologista do Hospital São Paulo, na capital paulista. “Além de uma bateria de exames, é importante saber de todo o histórico do paciente”, completa o oncologista Felipe José Fernandez Coimbra, diretor do Departamento de Cirurgia Abdominal do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.

Foi por meio de um longo bate-papo com seu médico que Saragosa deu as pistas para que a charada fosse decifrada. Seu passado clínico era pontuado por taxas elevadas de triglicérides e colesterol. Sem falar que o advogado paulistano fumou três maços de cigarro por dia durante mais de três décadas. Mal sabia ele que o tabagismo ao lado da variação dos níveis de açúcar e gordura no sangue são alguns dos fatores que deflagram a pancreatite. Isso, claro, depende ainda de cada tipo da doença. É que essa inflamação apresenta duas facetas. Na versão aguda, as dores aparecem e somem subitamente. Em geral, o tormento vem à tona devido a uma pedra na vesícula. Já o segundo tipo de inflamação no pâncreas se apresenta como uma forma mais severa.

No caso de Vicente Saragosa, o primeiro diagnóstico foi de pancreatite aguda. Só que, anos mais tarde, ele se viu vítima de outras duas crises da inflamação. A última ocorreu em maio deste ano. “Foi quando descobri que sofro, na verdade, de pancreatite crônica”, relata. A causa mais comum desse tipo da doença é o consumo excessivo de álcool, que destrói as células da glândula. Mas há outros fatores, como os que causaram o problema no advogado. “Essa forma de pancreatite evolui durante anos e se manifesta por meio de uma dor enorme, que pode impedir a pessoa de trabalhar”, diz o gastroenterologista Renato Dani, da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Na tentativa de se defender de agressões contínuas, a glândula, coitada, acaba cheia de cicatrizes e fica toda fibrosa. “Essas cicatrizações geralmente danificam as ilhotas de Langerhans, o que causa o comprometimento da produção de hormônios”, afirma Vivian Ellinger, presidente da regional fluminense da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “A pessoa, então, pode se tornar insulinodependente, ou seja, passa a ter de realizar aplicações de insulina sintética todos os dias.”

Para evitar crises, os hábitos de um portador de pancreatite — aguda ou crônica — devem mudar completamente. Abolir a ingestão de álcool é apenas o começo. Saragosa nunca foi bom de copo, mas abandonou o vício do cigarro e adotou uma dieta rigorosa. “Evito alimentos gordurosos. E ainda preciso maneirar no tamanho dos pratos. Quero exigir o mínimo do meu pâncreas”, resume.

 
 
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