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Vamos pra mesa?

Acredite: esse convite curto e banal é um sinal de que algo vai bem — bem mesmo. Durante as refeições em família, a gente conversa, relaxa e protege o corpo e a mente de uma série de infortúnios

por Paula Desgualdo
design Thiago Lyra
fotos Alex Silva

Passa o feijão, por favor”. Essa expressão, quando é recorrente em uma casa, mostra que seus moradores estão cultivando o hábito de se reunir durante as refeições. E isso tem poderes surpreendentes sobre a saúde física e mental. É que, entre pratos e talheres, nos aproximamos um pouquinho mais da família — e o reflexo da sensação de acolhimento à mesa se evidencia no humor, na alimentação e até na autoestima.

A constatação tem aval científico. E, se não é exatamente uma novidade, você há de convir que ela é muito bem-vinda em tempos de incompatibilidade de horários. “As famílias vivem pressionadas pelas longas jornadas de trabalho e as inúmeras atividades de cada um”, observa a jornalista americana Miriam Weinstein, autora do livro The Surprising Power of Family Meals (algo como “O surpreendente poder das refeições em família”). “Nessas circunstâncias, juntar-se na hora de comer fica em segundo plano.”

Muitos pesquisadores se empenham em explicar o elo entre a comensalidade — ou seja, comer e beber na companhia dos outros — e o bemestar. Um estudo colocou o assunto em destaque: realizado pelo National Center on Addiction and Substance Abuse, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, ele apontou que o ritual das refeições diminui a incidência de tabagismo, uso de drogas e distúrbios alimentares em adolescentes. Na realidade, não param de pipocar trabalhos que confirmam os mesmos efeitos. “Eles enfatizam a importância das refeições como forma de estreitar os laços e preservar a saúde”, afirma Jenet Jacob, professora da Brigham Young University, também nos Estados Unidos.

A balança é a primeira a perceber se estamos nos reunindo à mesa com relativa frequência. “Na frente da tevê, cada um come o que lhe convém”, nota a nutricionista Paula Ribeiro, autora do livro Comer Bem! Como? (Editora Leitura). Aí, a qualidade dos nutrientes e a mastigação ficam capengas. “Alimentos mal mastigados são mal aproveitados pelo organismo”, diz.

Para fugir dessa roubada, o segredo é incluir algumas refeições em família na sua agenda. “Acima de tudo, elas são uma oportunidade de dialogar”, lembra Ari Rehfeld, professor da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E a conversa não precisa ser um mar de rosas.

Em família, às vezes algumas questões mais difíceis ou delicadas são colocadas em pratos limpos. Os relatos do dia nem sempre são agradáveis — se houve um problema no trabalho, por exemplo. Mas só o fato de desabafar — o que o ambiente familiar favorece — faz o estresse diminuir e o sono ficar mais tranquilo. Isso também é observado pelos cientistas.

Fique claro: não vale deixar que esses momentos se resumam às datas especiais. É nos encontros do dia-a-dia, naqueles jantares sem pretensão, que estão os maiores benefícios para a saúde e o bem-estar de todos. “A periodicidade faz toda a diferença”, sentencia Rehfeld. Do contrário, os assuntos se acumulam e pode ficar difícil tirar o atraso entre a salada e a sobremesa. “E nem tudo se resolve em uma única conversa, uma única refeição. Às vezes precisamos mastigar ideias para retomá-las dias depois.”

O lugar também conta à beça: para que as conversas sejam bem digeridas, é importante que as refeições sejam em casa. Reunir a família no restaurante é gostoso? Claro. “Mas pessoas estranhas, barulho e ambiente diferente tiram o foco do diálogo”, destaca Ari Rehfeld.

Parece que a gente sabe de tudo isso. “Uma pesquisa sobre o almoço dominical da família baiana, ainda em fase de conclusão, revela que não há de fato uma desvalorização do comer em família. O problema é mesmo a falta de tempo”, conta a socióloga Nilce de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia, que assina o recém-lançado Escritas e Narrativas sobre Alimentação e Cultura (Edufba).

Mas vale enfrentar essa agenda apertada e, sem culpa, encontrar um horário, nem que seja só em alguns dias da semana, em que todos conseguirão comer juntos. “Esse é um excelente investimento”, afirma Nicole Larson, pesquisadora da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Mais difícil, em tempos modernos, é convencer as crianças a não pular fora depressa. Com calma — e firmeza —, elas aos poucos perceberão que isso muda tudo.

Mulheres tendem a sofrer mais do que os homens com a ausência das reuniões à mesa. O mesmo vale para as meninas, que são mais sensíveis à interação familiar do que os meninos
 
 
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