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DP... o quê? A pneumologista Iara Ficks, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo, perdeu as contas de quantas vezes ouviu essa pergunta ao diagnosticar mais um caso de DPOC. Tanto assim que a transformou no título do livro que lançou sobre a doença pela Editora Claridade. No seu consultório, assim como no de seus colegas mundo afora, os casos se tornam cada vez mais freqüentes. Também é comum a cara de susto quando revela o nome por trás da sigla: doença pulmonar obstrutiva crônica. Um nome que não só assusta como confunde, reconhece a médica.
O que hoje é DPOC na língua dos médicos antes eram duas doenças que pareciam velhas conhecidas na boca do povo. Uma delas seria o enfisema pulmonar. A outra, a bronquite crônica, que as pessoas citam como se fosse sinônimo de asma e que, atenção, não é. Podem aparecer ao mesmo tempo ou não em um único paciente. O que faz com que mereçam, agora, ser conhecidas por uma só alcunha, DPOC, é o fato de destruírem os pulmões aos poucos.
O Ministério da Saúde registrou 173 162 internações por DPOC no Brasil em 2006, contra 121 132 por diabete.
Nos últimos 20 anos, o número de vítimas de DPOC cresceu 340% no Brasil. Elas só costumam procurar um especialista quando o estrago nas vias respiratórias está feito, e aí não tem volta, lamenta o pneumologista Daniel Deheinzelin, do Hospital Sírio-Libanês, também na capital paulista.
Nessa altura do campeonato, o cansaço, a falta de ar e a tosse com catarro já limitam atividades simples do cotidiano, como subir uma escada ou até mesmo tomar um banho. Se a pessoa não fizer nada para controlar a situação, ela vai se agravando, conta Manoel de Souza Machado Júnior, de 77 anos, que desenvolveu o problema por ser ex-fumante e hoje preside a Associação Brasileira de Portadores de DPOC. Nove em cada dez pacientes fumam ou já fumaram, confirma Deheinzelin. Em média, 15% dos tabagistas acabam com DPOC, completa.
Quem já passou dos 40 e dá as suas tragadas há pelo menos uma década precisa prestar atenção no fôlego. Nos anos 1960 e 1970, o tabagismo estava em alta, principalmente entre os homens. Agora, temos multidões de indivíduos com mais de 60 anos e DPOC, diz Deheinzelin. Respirar as baforadas alheias também favorece a encrenca, assim como botar para dentro dos pulmões toda a poluição das grandes cidades. Finalmente, há a questão da herança genética. Existem pacientes com uma deficiência na enzima alfa-1 antitripsina, responsável por reparar a camada elástica do pulmão, explica Iara Ficks. Eles seriam mais vulneráveis.
A pedagoga paulistana Flávia Figueiredo, de 41 anos, se encaixa no grupo que nunca acendeu um cigarro, mas se tornou refém da DPOC. E enfrentou uma via-crúcis até detectá-la, em 2001. Os médicos achavam que eu era asmática. Todo mês tinha uma espécie de crise, sentia um cansaço terrível, dificuldade para respirar e tossia muito. Vivia no hospital, recorda-se. Flávia chegou a perder uma oportunidade de emprego por causa disso e a depressão bateu. A pedagoga só deu a volta por cima com o diagnóstico certeiro e o tratamento adequado. Mudei a medicação, faço acompanhamento mensal com minha pneumologista e tento me exercitar sempre que possível, diz. No caso dela, a DPOC anda sob controle. Trabalho como diretora em uma creche, saio e viajo normalmente. Faz mais de um ano que não preciso ir ao pronto-socorro por causa de falta de ar, diz, respirando aliviada.
Pacientes como ela podem perder o fôlego porque a DPOC se caracteriza por uma reação exagerada dos pulmões a uma agressão, como a das substâncias do cigarro ou a das partículas de poluentes presentes no ar. Na maioria da população, elas não disparam uma resposta inflamatória. Mas, em certos portadores de DPOC, a inflamação é tamanha que pode destruir estruturas chamadas alvéolos, que são fundamentais para as trocas gasosas, diz o pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. É o quadro típico do que antes se chamava enfisema. Em outros, os agressores disparam uma inflamação crônica nos brônquios, fazendo com que eles fiquem mais estreitos e produzam muco em excesso, completa Iara Ficks (entenda mais). Seria a bronquite. Os estragos que os dois fenômenos provocam são irreversíveis.
Enquanto o mal estiver fora de controle, o doente sofrerá crises freqüentes, conhecidas como exacerbações. Elas são caracterizadas pelo agravamento dos sintomas e, muitas vezes, requerem internação. Pior: deixam más lembranças nos pulmões. Cada crise grave provoca danos pulmonares que elevam em 10% o risco de, um dia, o indivíduo morrer de DPOC, alerta o pneumologista Rafael Stelmach, do Instituto do Coração, em São Paulo.
Para aumentar o sufoco, o inverno é o inimigo número 1 dos portadores. Nessa época do ano, o clima mais seco favorece a concentração de poluentes. Também ocorrem quedas bruscas de temperatura. Tudo isso contribui para as vias respiratórias ficarem mais vulneráveis a infecções e estas, por sua vez, predispõem o organismo a novas crises de DPOC, explica Elie Fiss.
Os médicos falam em uníssono: o ideal é evitar que os sintomas da DPOC dêem as caras. Não à toa. Quando aparecem, o pulmão já está com boa parte de suas funções comprometidas. Portanto, o certo seria a avaliação pulmonar ser incluída no check-up anual, especialmente para os fumantes quarentões. Quem possui familiares com a doença ou apresenta sintomas como tosse, expectoração, cansaço ou falta de ar também precisa se precaver, mesmo se for mais jovem ou não fumar, aconselha o pneumologista Rafael Stelmach.
A tal avaliação pulmonar começa com um bom exame clínico realizado no consultório do pneumologista. Ali mesmo é feita a espirometria, em que o indivíduo sopra em um equipamento que mede o volume de ar expulso durante a expiração e, assim, acusa sua capacidade respiratória. Há ainda o oxímetro, aparelho que, em contato com a pele, mensura a quantidade de oxigênio circulando no sangue. Se estiver deficiente, será sinal de que o serviço de entrega desse gás pelos pulmões não anda dos melhores.
Quando a DPOC é flagrada por essa avaliação, a primeira providência é diminuir a exposição ao fator irritante. Portanto, se o paciente fuma, é mais do que hora de apagar o vício. Em seguida, entram em cena os remédios, principalmente os do grupo dos broncodilatadores. Hoje contamos com o brometo de tiotrópio, único medicamento dessa classe desenvolvido especificamente para tratamento de DPOC, diz Iara. Sua principal vantagem é agir ao longo de 24 horas. Às vezes, é necessário associar mais de uma droga. Durante as exacerbações, por exemplo, os corticóides inalatórios são utilizados para reverter o quadro crítico. E, quando há infecção provocada por alguma bactéria, a estratégia é recorrer a antibióticos depressa para evitar que a vulnerabilidade pulmonar aumente.
O principal passo, porém, é convencer o doente a ingressar em um programa de reabilitação. Nele, definimos um treinamento personalizado para os pulmões, que deve ser praticado de duas a três vezes por semana, por cerca de três meses, explica o fisioterapeuta Leonardo Santos, de São Paulo. Ensinamos o paciente a respirar de forma adequada e a trabalhar força e condicionamento cardiorrespiratório, descreve. O objetivo é preparar o corpo e adaptá-lo às limitações do fôlego, minimizando o impacto da respiração deficiente no coração e nos músculos.
O fundamental é esclarecer aos que são apresentados à sigla DPOC como talvez seja o seu caso ao ler este texto que por trás de suas letras não existe uma sentença de morte. É para respirar fundo e seguir, com coragem, o exemplo da pedagoga Flávia para tomar as rédeas da situação, viver mais e sem tanto sufoco.

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