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Uma vontade incontrolável de devorar comida, especialmente doces é a popular larica, fenômeno experimentado por quem fuma maconha. No final dos anos de 1980, em busca de uma explicação para esse apetite exacerbado após as tragadas, pesquisadores da Universidade Saint Louis, nos Estados Unidos, descobriram que o THC (delta-9-tetrahidrocanabinol), o princípio ativo da erva, se encaixava em receptores localizados no cérebro, deflagrando a maior fome.
Em 1992, Raphael Mechoulam, o descobridor do THC e um dos integrantes do time da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, reuniu um time de cientistas em seu laboratório só para investigar o papel dessa substância na massa cinzenta. O que esse grupo descobriu foi espantoso: o próprio sistema nervoso fabricava as suas moléculas de cânabis, que logo foram apelidadas de endocanabinóides. Seriam a nossa maconha interna, numa tradução livre do cientifiquês. Uma dessas moléculas ganhou a alcunha de anandamida sendo ananda felicidade em sânscrito. Tempos depois foi identificada a 2 aracdonil-glicerol, ou 2-AG, outra endocanabinóide.
COMO FUNCIONA O NOVO REMÉDIO
"O sistema endocanabinóide funciona como uma defesa", resume Halpern. Em outras palavras: ele nos impulsiona a sair à procura de combustível para que a máquina humana continue a se locomover e acumule reservas para momentos de escassez a gordura nada mais é do que um estoque de energia para emergências. Provavelmente tudo isso é uma herança dos nossos antepassados, que não contavam com uma grande disponibilidade de alimentos e ainda tinham de driblar ameaças como animais selvagens, vivendo em constante estafa. Ora, o estresse é justamente o gatilho que aciona os tais endocanabinóides. Aliás, foi o que revelou um trabalho recente do biólogo brasileiro Renato Malcher-Lopes, do Instituto Cérebro-Mente de Lausanne, na Suíça.
No sistema nervoso de roedores, Malcher-Lopes demonstrou que hormônios como o cortisol, aqueles por trás dos estados de tensão, estimulam a liberação de endocanabinóides no hipotálamo, região do cérebro responsável por controlar o apetite. E não é mera coincidência: logo ali concentra-se grande parte dos receptores dessas substâncias, que também se espalham no fígado e até nas células de gordura. "Os endocanabinóides potencializam o prazer que os animais, o homem incluído, sentem com o sabor e a textura dos alimentos", explica Malcher- Lopes. "Além disso, inibem mecanismos de saciedade. Esses fatores combinados elevam a ingestão de comida."
Nestes tempos de estresse não é de estranhar que a epidemia de obesidade cresça a passos largos. A tensão do dia-a-dia pode tornar o sistema endocanabinóide hiperativo, propulsionando o ponteiro da balança para o alto. O rimonabanto vai ser indicado para quem já briga com esse equipamento. Isto é, para obesos propriamente ditos e para os indivíduos com sobrepeso ou índice de massa corporal, o IMC, acima de 27, associado ao que os médicos rotulam de risco cardiometabólico, um daqueles fatores da síndrome que acompanham a barriga, como a hipertensão. "Ele não será prescrito para aquela menina que quer perder 3 quilos só para ir à praia", afirma o endocrinologista Marcos Tambascia, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes.
"Em média, após um ano de tratamento com o rimonabanto, houve uma perda de 8 quilos", conta o cardiologista Álvaro Avezum, do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, em São Paulo. Os pacientes também tiveram melhoras nas taxas de açúcar no sangue, nos níveis de HDL, queda da pressão arterial e dos triglicérides. Sem falar, é claro, na sensação de saciedade e na diminuição da cintura. E isso é uma ótima notícia porque a gordura acumulada no abdômen produz aquela série de substâncias desencadeadoras de várias encrencas cardiovasculares.
"O remédio também facilita a atuação da insulina, melhorando a captação do açúcar no sangue, ao deixar que a célula de gordura secrete adiponectina, o que era em parte inibido pelo endocanabinóide natural", explica a endocrinologista Maria Tereza Zanella, da Universidade Federal de São Paulo. A médica, no entanto, acredita que a perda de peso promovida pelo rimonabanto não difere muito daquela proporcionada por outros medicamentos mais recentes. Ela lembra ainda que, só por emagrecer, qualquer um apresenta melhora no quadro da síndrome metabólica. Aliás, a primeira a desaparecer quando os quilos despencam é a amaldiçoada gordura visceral. "Por outro lado, é cedo para descartar que o rimonabanto tenha uma ação extra, além da perda de peso", pondera.
Com a promessa tentadora de aniquilar a barriga com um comprimido, vale mais do que nunca a reflexão: será que, para emagrecer, todo mundo precisa mesmo do auxílio de algum tipo de medicamento? "Os remédios podem ser úteis numa primeira fase", diz o endocrinologista Durval Damiani. "Mas sem a mudança de hábitos o indivíduo volta a engordar."
DEZ MOTIVOS PARA UM MUNDO MAIS GORDO
Um trabalho publicado no seriíssimo periódico científico International Journal of Obesity aponta suspeitos para a explosão da epidemia de obesidade que vão muito além do sedentarismo e dos exageros à mesa
1. O ar condicionado
Nosso corpo queima energia para se aquecer ou se resfriar conforme a temperatura ambiente e assim manter seus 36 ou 37 graus centígrados contantes. Ele não precisa adicionar lenha na fogueira para essa tarefa quando o termômetro externo marca o equivalente a 27 graus centígrados, se o corpo estivesse nu o que os cientistas chamam de zona termoneutra. E o uso de aquecedores e aparelhos de ar-condicionado proporciona essa sensação térmica. Ou seja, o organismo tende a não gastar ou pelo menos a gastar menos calorias para regular seu calor.
2. Pouco sono, muito apetite
Não dormir o suficiente pode ter um peso considerável no aumento da circunferência abdominal. Pesquisas demonstram que o déficit de sono provoca uma queda nos níveis do hormônio da saciedade, a leptina, e uma elevação de um outro hormônio, a grelina, que dispara a vontade de comer.
3. Menos cigarro
... e infelizmente mais quilos. Além de estimular o gasto energético, a nicotina tira o apetite. Claro, isso não é justificativa para alguém insistir em fumar. Apenas serve de alerta para o ex-tabagista cuidar ainda mais do peso.
4. De mãe para filho
Engordar em demasia na gravidez ou ter diabete gestacional elevam o risco de o filho se tornar um adulto obeso. O mesmo vale para bebês que nascem com baixo peso - no futuro, como se fosse para compensar, eles tendem a acumular reservas de energia com maior facilidade.
5. Matrimônio da pesada
Gordos se casam com mais freqüência com gordos. Essa é uma verdade estatística de razões discutíveis. O fato é que a união contribuiria para o crescimento da obesidade porque seus filhos nasceriam com essa tendência, sem contar que (outra estatística) gordos tendem a ter mais bebês.
6. O envelhecimento
No hemisfério norte a prevalência de obesidade é maior entre os indivíduos maduros. "Com o avanço dos anos, os tecidos do corpo em geral se renovam menos", diz o endocrinologista Durval Damiani, do Instituto da Criança, em São Paulo. "Mas o adiposo foge a essa regra." Suas células podem se multiplicar em pleno vapor na idade avançada.
7. Dinheiro e filhos
Por questões que têm a ver inclusive com educação, a obesidade tende a ser mais comum entre os indivíduos mais pobres. E estes tendem a ter mais filhos. Por sua vez, quanto maior a prole, maiores as chances de uma mulher ganhar quilos extras para o resto da vida.
8. Alguns remédios
Medicamentos para depressão, pressão alta, diabete e até os anticoncepcionais favoreceriam um aumento de peso indireto.
9. Toxinas
A exposição a pesticidas e poluentes no dia-a-dia poderia desregular hormônios como o estrógeno. E o distúrbio faria o tecido adiposo crescer.
10. Mãe mais velha
De acordo com cientistas britânicos, filhos de mulheres que tiveram uma gravidez tardia têm mais facilidade para acumular gordura no corpo. Ninguém ainda sabe o porquê.
OS EFEITOS COLATERAIS
IMAGEMTXTOs voluntários que emagreceram com o rimonabanto tiveram reações leves no início do tratamento, como náusea, tontura, ansiedade e diarréia. "O enjôo, que é o sinal adverso mais freqüente, faz certo sentido", diz Alfredo Halpern. "Afinal, o cérebro controla esse estado estimulando seus receptores de canabinóides", diz ele. Quanto à ansiedade, a suposição é da médica Maria Tereza Zanella: "A anandamida, endocanabinóide bloqueado pelo rimonabanto, além de abrir o apetite, promove um relaxamento". Sem falar que ela é a responsável por apagar situações traumáticas da memória. "Por isso é preciso ter cuidado na indicação do remédio para indivíduos ansiosos e com quadros depressivos", opina ela. O próprio laboratório Sanofi-Aventis revela, em seu relatório sobre quatro grandes estudos com a droga ao redor do mundo, que o uso dos comprimidos foi interrompido em pacientes que apresentaram depressão. Felizmente foram raríssimos casos.

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