CORPOMais de corpo >>
Quem descreve a aula é Mario Molari, professor de Educação Física na Universidade Norte do Paraná, a Unopar, e um dos orientadores do trabalho dirigido à terceira idade. Sua experiência com gente nessa faixa etária se estende também aos idosos do Centro de Vivência Ebenezer, outra casa de assistência social que fica na mesma cidade paranaense. O que prova que o caratê não é só para jovens e fortões, como muitos podem pensar.
Em pessoas com seus 60, 70 anos, o corpo-acorpo fortalece os músculos, ajuda a combater a osteoporose, aumenta a flexibilidade, protege as articulações e ainda melhora o equilíbrio. Tudo isso em apenas seis meses de treino regular, com aulas de três a cinco vezes por semana. Os idosos do Paraná foram incentivados a investir na dobradinha caratê e caminhada. O resultado foi um grande salto na qualidade de vida. "Muitos deles, que não tinham força nem para tarefas tão simples quanto segurar os talheres, deixaram suas limitações para trás", diz o professor Molari.
Quem pode ir à luta? Em princípio todos. "Mas é preciso passar pelo médico e procurar um professor especializado", recomenda outro expert, Fernando Antonio Malheiros Filho, mestre de caratê da Academia Okinawa, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
A lutadora Cintia Lassalvia, que foi tricampeã pan-americana de kata (veja o quadro na penúltima página), também aprova a prática do caratê na terceira idade. "Ele melhora a coordenação, a agilidade e a memória", enumera, destacando a grande vantagem dessa luta sobre outras artes marciais: o risco de quedas é bem menor.
Subir no tatame e encarar uma aula de caratê é indicado para pessoas de todas as idades — não só as mais velhas. A lista de benefícios é enorme. Para começar, a luta oferece todas as vantagens dos exercícios aeróbicos, ou seja, melhora a circulação e a respiração, aumenta o tônus muscular e a flexibilidade e ainda auxilia na perda de peso. "A modalidade também aprimora a postura, ajuda no alongamento e desenvolve a agilidade", diz Márcio Fuscaldo, presidente da Federação Brasileira de Karatê.
Isso sem falar nos ganhos em matéria de orientação espacial: o corpo do praticante responde com maior precisão e velocidade a estímulos. A mente também sai ganhando. Segundo os adeptos do caratê, sua prática aumenta o senso de responsabilidade, o espírito de disciplina, além de valorizar a busca contínua do aprimoramento do caráter. "Sem contar que o caratê incentiva o praticante a vencer os próprios limites", acrescenta Márcio Fuscaldo.
Há quem, por falta de informação, acredite que uma arte marcial dessas incentive a violência. Mas acontece exatamente o contrário. Durante o treino, os alunos canalizam sua agressividade, aprendem a gerenciar seus sentimentos negativos e encontram alívio para o estresse do dia-a-dia, sem descontá-los por aí.
A meninada também pode ir para o tatame para praticar a modalidade a partir dos 6 anos — mas nunca deve lutar com adultos ou mesmo com crianças mais velhas. Primeiro porque os pequenos não têm formação óssea para agüentar a carga de exercícios dos maiores. Segundo pelo óbvio: mesmo sem confrontos, podem se machucar por acidente ao dividir espaço com grandalhões. Se isso for respeitado, o caratê só faz bem a essa turminha. Diga-se que, para ela, os benefícios superam os já citados. "O caratê contribui para o desenvolvimento físico e para a integração social", observa Fernando Antonio Malheiros Filho, da academia Okinawa. O esporte desenvolve a coordenação motora, melhora a auto-estima da garotada, ensina boas lições de autocontrole e acalma os mais agitados. "Lutando a criança aprende o que é hierarquia, perseverança e respeito aos outros", complementa Cintia Lassalvia.
VOCÊ SABE O QUE É UM KATA?
Lê-se catá. Trata-se de uma seqüência de movimentos do caratê que formam uma espécie de coreografia
Eles fazem parte dos treinos dessa arte marcial e, conforme o praticante evolui e muda de faixa, os tais katas se tornam mais difíceis. Hoje há quem considere uma aula só de katas como uma modalidade à parte. Em diversas cidades brasileiras já existem cursos exclusivos dessas seqüências. Aí, há realmente zero confronto físico — só o bailado dos golpes. "Os benefícios de praticar katas ou caratê são os mesmos", garante Cintia Lassalvia. "Os campeonatos de katas se parecem com os de ginástica olímpica", descreve nossa tricampeã pan-americana. "Os juízes avaliam a precisão e a técnica das seqüências", diz.
HISTÓRIA MILENAR
Há várias hipóteses sobre a origem dessa arte marcial. A mais aceita é de que o tataravô do caratê teria surgido na Índia, há cerca de 2 mil anos. Seu criador seria Bodhi-Dharma, o mesmo que fundou o zen-budismo. A convite do imperador da China, ele teria levado sua arte para esse país. No entanto, só quando migrou para o Japão ela foi sistematizada. Ali, no início do século XV, a dinastia Sho ordenara o confisco geral das armas para evitar ataques entre grupos rivais. Por isso, em meados de 1600, a luta vinda da Índia com escala na China teria passado por uma ligeira metamorfose: os movimentos de mãos e pés fariam as vezes dos golpes das armas proibidas. Batizada de Okinawa-te, seus treinamentos, naquela época, eram secretos.
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