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HPV? Tô fora!

A infecção causada pelo papilomavírus está por trás de 99% dos casos de câncer de colo do útero, o segundo mais letal entre as brasileiras. E as adolescentes são pra lá de suscetíveis a entrar nessa roubada

por Cida de Oliveira | design Eder Redder | fotos Christian Parente

Aprovada em junho nos Estados Unidos e com chegada prevista para ainda este ano ao Brasil, a vacina contra o HPV, ou papilomavírus humano, reacende o debate sobre uma infecção que está intimamente ligada ao câncer de colo uterino.
Encontram-se rastros do DNA desse vírus em praticamente 100% dos tumores. E há fortes suspeitas de seu envolvimento em outras formas de câncer que acometem regiões como vulva, ânus, laringe e boca, embora sua presença pese menos nesses casos.
As mulheres são o alvo preferencial do papiloma. E, embora o pico de incidência ocorra entre 20 e 25 anos, os médicos alertam: a curva de crescimento da doença entre as adolescentes preocupa bastante porque é ascendente. "As meninas iniciam a vida sexual cada vez mais cedo", procura justificar Sérgio Mancini Nicolau, professor de ginecologia da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp. "A questão é que elas costumam ter vários parceiros e quase nunca exigem camisinha. Desse jeito, as chances de entrarem em contato com o vírus se multiplicam." Explica-se: é que os rapazes podem carregar o papiloma. O vírus não faz distinção de sexo. Nos homens, quando o sistema imunológico não dá conta de eliminá-lo, ele pode deflagrar tumores malignos no pênis e no ânus. É bem verdade que isso é relativamente raro. Afinal, para eles, que têm um órgão sexual externo, a higiene é mais simples. Sem contar que qualquer lesão fica escancarada. Com as meninas a história é outra. "Para complicar, na adolescência o colo do útero ainda está em formação, abrindo caminho para a entrada e a proliferação do HPV", explica o ginecologista Waldemir Rezende, diretor executivo do Instituto Central do Hospital das Clínicas de São Paulo.
"Sem contar que, nessa fase, a garota ainda não conta com anticorpos suficientes para combater a agressão", completa. Como se não bastasse o risco de, dali a alguns anos, a menina se transformar em mais uma mulher vítima do câncer uterino diga-se, serão mais 20 mil casos desse tumor no Brasil até o final de 2006 , o HPV amplia outras probabilidades nada boas. Afinal, ele provoca feridas que podem servir de brecha para mais infecções a aids entre elas.

O câncer não é a única ação nefasta desse malfeitor. Apesar de benignas, as verrugas, ou condilomas, que aparecem tanto nos genitais masculinos como nos femininos, "são incômodas e difíceis de tratar", segundo Mauro Romero Leal Passos, diretor da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do livro HPV: Que Bicho É Esse?. "Elas só desaparecem depois de umas 15 visitas ao médico. E olhe lá, porque reincidem na maioria das vezes", lamenta ele, que não se cansa de criticar a falta de atenção que as pessoas "tanto médicos quanto pacientes" dão ao problema.

O tratamento das lesões provocadas pelo papiloma consiste na queima das verrugas com frio intenso, bisturi elétrico, laser, substâncias cáusticas, pomadas e cremes. "Quando existem muitos métodos é porque nenhum funciona satisfatoriamente", dispara Leal Passos. Tão relevantes quanto as implicações físicas são as de ordem psicológica por trás da infecção e elas não deveriam ser minimizadas. "A auto-estima despenca e surgem dificuldades de toda ordem, desde sentimento de culpa, passando por problemas amorosos até danos nos estudos e no trabalho", garante.

Todos os médicos ouvidos pela SAÚDE! foram unânimes em dizer: a vacina será, sim, uma grande aliada, mas não dispensará a camisinha nem os exames clínicos e laboratoriais, como o famoso papanicolaou, que aponta lesões causadas pelo HPV. O ideal mesmo é que exames de biologia molecular estes, sim, capazes de flagrar o menor sinal da presença do vírus se tornem rotina. Por enquanto eles são caros e, muitas vezes, inacessíveis. Um estudo recente do Hospital das Clínicas de São Paulo, coordenado por Waldemir Rezende, concluiu que 51% das adolescentes grávidas estudadas, com idade entre 12 e 18 anos, estavam contaminadas pelo HPV. É assustador, mas, na maioria desses casos, a lesão não tinha sido detectada pelo papanicolaou nem pela colposcopia, feitos rotineiramente no pré-natal.

UMA VACINA QUE VALE POR QUATRO
Recombinante quadrivalente esse é o nome do primeiro imunizante contra o HPV aprovado nos Estados Unidos. Ele age contra quatro tipinhos terríveis dessa família de vírus, identificados pelos números 6, 11, 16 e 18. O quarteto é responsável direto por verrugas genitais e feridas que podem levar ao câncer de colo do útero. Lesões pré-cancerosas vulvares e vaginais também estão na mira dessa vacina. "O ideal é imunizar as meninas de 9 anos em diante até mulheres de 26 anos", opina Sérgio Mancini Nicolau, da Unifesp. "Assim diminuiremos em cerca de 70% a incidência câncer de colo do útero." Sem dúvida, uma ótima estimativa.

EM COMPASSO DE ESPERA
Liberada nos Estados Unidos e no México, por aqui a vacina contra o HPV aguarda o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As apostas são de que chegue às clínicas particulares ainda este ano, mas o fabricante ainda não revela o custo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão do Ministério da Saúde, também não decidiu se o imunizante será incluído no calendário oficial de vacinação. Por meio de sua assessoria de imprensa, informou que, para comprá-lo e aplicá-lo gratuitamente, será preciso confirmar os tipos do vírus mais comuns entre os brasileiros e a faixa etária mais propensa à infecção. A família do HPV tem mais 100 membros e nem todos são tão agressivos. Aliás, alguns deles nem causam sintomas em seus hospedeiros porque são logo identificados e destruídos pelo sistema imunológico

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