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Ah, piolho tampouco faz distinção de classe social. "Qualquer pessoa está sujeita à infestação", declara Júlio Vianna Barbosa, chefe do Departamento de Biologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. "Prova disso é que países de primeiro mundo, como o Japão, a Alemanha e a França, têm tantos casos quanto o Brasil", diz ele, que é PhD em parasitologia — e tão expert nessa espécie que adotou o apelido de Doutor Piolho até no e-mail de trabalho!
Como o bicho tem fama de brega e sujo, todo mundo se segura para não se coçar — e se entregar — quando ele sobe à cabeça. "Os pais nem sempre avisam a escola e aí a criança transmite o parasita aos colegas", nota Júlio Barbosa. Essa omissão — diga-se — está por trás do aumento dos casos.
Embora a garotada seja o alvo preferido, o piolho não despreza hospedeiros adultos e adolescentes. Só que estes, sobretudo, contam com uma vantagem: "Na puberdade as glândulas sebáceas produzem, além do sebo, um hormônio que é um veneno para o inseto", conta o tricologista Valcinir Bedin, do Instituto de Pesquisa e Tratamento do Cabelo e da Pele, em São Paulo.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em parceria com a Fiocruz, em Campos, no Rio de Janeiro, revela que 70% das pessoas dessa cidade fluminense já tiveram pediculose, o nome científico da infestação por piolhos. Para dar cabo deles, metade dos entrevistados usou substâncias perigosas, entre elas — pasme! — gasolina, inseticidas comuns e até desinfetantes, como a creolina. "E tem ainda gente que lançou mão de plantas, achando que o que é natural não faz mal. Errado. Muitas são tóxicas", alerta Júlio Vianna Barbosa.
É DE ARRANCAR OS CABELOS!
Os primeiros sintomas da infestação aparecem rápido — no mesmo dia ou, no máximo, no dia seguinte ao contágio. Tudo começa com uma forte coceira no couro cabeludo, principalmente na região da nuca e atrás das orelhas. Esfregar as unhas sobre a pele costuma causar irritações e feridas que, para piorar, abrem brechas para infecções bacterianas, como o impetigo. Além disso, pode surgir uma erupção atrás da cabeça acompanhada do aumento dos gânglios linfáticos do pescoço. Esses sinais, porém, só dão as caras cerca de dois meses após a infestação e favorecem anemia e outras doenças que comprometem o rendimento escolar.
DÁ PARA PREVENIR
Como o piolho não escolhe sexo, idade ou classe social nem tem preferência por uma estação do ano, nada de bobear. Você já sabe que o bicho gosta mesmo é de cabelo limpo, o que não deve servir de desculpa para deixar de lavá-lo, claro. Faça isso, sim, até todo dia se for um hábito, mas evite mantê-lo úmido por muito tempo porque é disso que ele gosta. A dica, então, é usar o secador.
DE UMA CABEÇA PARA OUTRA
Engana-se quem acha que piolho voa (ele não tem asas!) ou pula (não é pulga!). Perigoso mesmo é o contato físico — um chamego, um abraço mais apertado e, pronto, ele muda de endereço. E o danado tem resistência de faquir. "Ele consegue permanecer vivo por até três dias sem se alimentar", garante Júlio Vianna Barbosa. E fica à espera da próxima vítima nos lugares mais insuspeitos — por exemplo, no encosto do banco do táxi, comum ou especial. "Um bom pente-fino, de preferência metálico, é o melhor jeito de apanhá-lo", recomenda Valcinir Bedin. E nunca, mas nunca mesmo, empreste-o a ninguém. Também evite compartilhar travesseiros, bonés e presilhas.
CAÇA ÀS LÊNDEAS
Os ovos do piolho encontram refúgio entre os fios, mas, como são brancos, podem ser flagrados com uma boa inspeção. "E o melhor jeito de retirá-los é com a mão mesmo", adianta Júlio Vianna Barbosa. Já para sufocar o bicho adulto sem dó nem piedade, você pode tentar uma receita caseira. Quem ensina é o biólogo Carlos Fernando Andrade: "À noite, lave o cabelo e passe condicionador ou óleo de oliva, sem enxaguar. Cubra a cabeça com uma touca e vá para a cama. Na manhã seguinte, passe o pente-fino nos fios e lave-os novamente. O tratamento é tão eficiente que não precisa ser repetido", garante.
ARSENAL PRONTO PARA COMPRAR
Não é todo mundo — menos ainda criança — que topa dormir com a cabeça besuntada de creme ou de óleo. Se esse for o caso, vale apelar para produtos tópicos. "Aqueles específicos, vendidos em farmácias, podem ser usados sem problemas", opina Carlos Fernando Andrade. Desde que, é claro, você siga rigorosamente as instruções da embalagem. Recentemente um medicamento de uso oral chegou ao mercado brasileiro, mas ele não é uma unanimidade entre os especialistas. "O produto não é aprovado pelo FDA, o órgão americano que controla remédios e alimentos", avisa Júlio Vianna Barbosa. No Brasil o remédio até conta com o aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas seu uso só está autorizado para o combate a sarna e alguns tipos de verminose.
DISQUE PIOLHO
Se ainda restaram algumas dúvidas sobre o parasita, ligue para o telefone (21) 2598-4379, ramal 126, ou acesse o site www.piolho.fiocruz.br. Esse canal de informação, criado por profissionais do Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, existe desde 1997. "Também fazemos palestras e ministramos cursos sobre o assunto", conta o parasitólogo Júlio Vianna Barbosa, responsável pelo serviço. Outro site especializado é o www.piolho.org.br, mantido por profissionais da Universidade Estadual de Campinas.
MUITO ALÉM DA CABEÇA
O cabelo não é o único hábitat dos piolhos. Existem espécies que povoam o corpo e até os pêlos pubianos
PEDICULOSE DO CORPO: Provocada pelo Pediculus humanus corporis, vulgarmente conhecido como muquirana, deposita suas lêndeas nos pêlos e nas roupas. "Nas duas guerras mundiais ele matou cerca de 12 mil soldados", conta Júlio Vianna Barbosa. "Esse tipo praticamente desapareceu das Américas", tranqüiliza Carlos Fernando Andrade. "Mas ainda surge em acampamentos de refugiados e presídios, onde se usa a mesma roupa por vários dias sem lavá-la."
PEDICULOSE PUBIANA: Nesse caso o Phthirus pubis, ou chato (nome popular), se instala na região pubiana do homem ou da mulher. As vítimas devem raspar os pêlos da região para dar fim ao problema.
PRODUÇÃO LÍVIA BADAN
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