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Aterosclerose também é coisa de criança

Por esta você não esperava: as placas causadoras da doença que¿ mais mata brasileiros podem surgir até na vida intra-uterina. O desafio é detectá-las o quanto antes e evitar complicações futuras

por Cida de Oliveira | design Eder Redder e Samara Araújo

Infarto, derrame e até mesmo a morte súbita seriam bem menos freqüentes se não fosse a doença aterosclerótica. Os ateromas, placas de gordura que se formam nas paredes das artérias, estreitam e enrijecem os vasos de médio e grande calibre, obstruindo a passagem do sangue. Pior: podem se desprender e viajar pela circulação, causando prejuízos em órgãos vitais. Não confunda: a aterosclerose é bem diferente da arterioesclerose, o endurecimento e espessamento das artérias que costuma ocorrer com o avanço da idade, embora ambas sejam nocivas.

Às vezes os ateromas começam a se formar bem antes do nascimento. "Alguns estudos detectaram a presença de estrias gordurosas em artérias de fetos", informa o cardiologista Bruno Caramelli, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo. As complicações, como infarto e derrame, vão se manifestar muito mais tarde, depois dos 40 anos na maioria dos indivíduos. Porém, é bom que se diga, há casos raros em que os nefastos desfechos ateroscleróticos surpreendem. Às vezes os ateromas começam na adolescência, atingindo principalmente os portadores de homocistinúria, um problema metabólico de origem genética. Além das estrias gordurosas que precedem o ateroma, outros fatores de risco para a aterosclerose já dão sinais na vida intra-uterina. Dependendo da saúde da gestante, o feto pode se desenvolver menos ou mais que o normal. Estudos mostram que bebês com baixo peso ao nascer — menos de 2,5 quilos correm maior risco de desenvolver pressão alta, intolerância à glicose e doença aterosclerótica. Já os que vêm ao mundo com mais de 4 quilos estão propensos à obesidade, ao diabete e à dislipidemia, o aumento anormal da taxa de gorduras no sangue. Já os que vêm ao mundo com mais de 4 quilos estão propensos à obesidade, ao diabete e à dislipidemia, o aumento anormal da taxa de gorduras no sangue.

Os indícios de que o perigo dá as caras nos primeiros anos de vida ficam evidentes nas necrópsias de quem, infelizmente, morreu de causas diversas ainda criança. Uma investigação da Universidade de Tulane, em New Orleans, nos Estados Unidos, concluída há dez anos, revelou que quase 30% dos meninos e meninas entre 2 e 15 anos já tinham as artérias coronárias e a aorta comprometidas por placas e estrias de gordura.

É verdade que a genética tem boa parcela de responsabilidade, mas o estilo de vida também contribui. Além de sedentária, a garotada de hoje exagera nas calorias e nas gorduras — mistura explosiva que resulta no aparecimento precoce da hipertensão, do colesterol alto e do diabete. Pode soar a exagero, mas, se nada for feito, daqui a uns 20 anos a maioria da população adulta sofrerá infarto ou derrame devido ao avanço da aterosclerose na mais tenra idade.

Diante de perspectiva tão sombria, especialistas em cardiologia, endocrinologia e pediatria elaboraram uma diretriz nacional para a prevenção do problema e o controle de seus fatores de risco na infância e na adolescência. "Todas essas complicações futuras podem ser evitadas no consultório do pediatra", anima-se a cardiologista pediátrica Isabela Giuliano, da Universidade Federal de Santa Catarina, que ajudou a elaborar a proposta juntamente com o cardiologista Bruno Caramelli, do Incor, e outros experts no assunto.

Cabe aos pais a tarefa de incentivar a prática de atividade física pela criançada por no mínimo 30 minutos. Todo santo dia. Para os adolescentes recomenda-se pelo menos três sessões semanais de exercícios moderados ou intensos, com duração mínima de 20 minutos. Ninguém aqui está dizendo que é fácil convencer a moçada a mexer o corpo. Em alguns casos, não é mesmo. Então, use a criatividade. Que tal recompensar o esforço e a disciplina com jogos e brincadeiras que movimentem seus filhos?

DE OLHO!
Devem ser incluídas no rastreamento das placas nas artérias crianças acima de 2 anos que tenham pelo menos um dos seguintes fatores de risco:
• pais ou avós com infarto e aterosclerose antes dos 55 anos
• pais com colesterol
maior que 240 mg/dl, pressão alta e obesidade
• pais que usem drogas ou que sejam portadores de aids e hipotireoidismo
• pais que tenham dores abdominais recorrentes e pancreatite
• pais com arco corneal, um anel branco em volta dos olhos, considerado um dos sintomas clínicos do desequílibrio de gorduras em circulação. Aliás, qualquer outro sintoma desse problema acende uma luz amarela.

MAPA DA ATEROSCLEROSE
As placas geralmente se formam nas ramificações das artérias, onde há grande turbulência sangüínea

1. CÉREBRO
Quando as placas de gordura se rompem nas artérias carótidas, responsáveis pelo suprimento de sangue de toda a região cerebral, pode haver derrame e outras complicações.
2. AORTA
Como leva sangue para as pernas e para a pelve, sua obstrução costuma causar dores e úlceras varicosas. Se o problema não for tratado, pode levar a amputações.
3. CORAÇÃO
Se a oclusão ocorrer nas artérias coronárias, vasos que irrigam o músculo cardíaco, vai ocorrer o infarto.
4. PERNAS
A placa pode impedir a circulação local ou, na pior das hipóteses, se soltar e viajar até os pulmões. Aí é embolia pulmonar na certa.


O PESO DAS EMOÇÕES
A primeira diretriz brasileira para prevenção da aterosclerose na infância e na adolescência é mais completa que as versões estrangeiras. "Tivemos o cuidado de abordar o tabagismo em adolescentes, além de problemas como estresse e depressão nessa fase da vida", conta o cardiologista Bruno Caramelli. O estresse, aliás, é um capítulo à parte, porque tem muito a ver com o surgimento da aterosclerose. Vários estudos reforçam que ele está na raiz da doença, quase tanto quanto a obesidade, o colesterol alto e o sedentarismo. E está se alastrando de forma preocupante entre as crianças.

Uma pesquisa realizada há três anos no Rio Grande do Sul revelou que 23% da garotada cursando a primeira série do ensino fundamental exibia reações orgânicas típicas das tensões do dia-a-dia. Entre os adolescentes da terceira série do ensino médio e já às portas do vestibular, o índice era ainda maior: 83%. Por isso, o documento escrito para orientar os médicos recomenda à família ações que aliviem a tensão emocional à qual esses grupos etários estão cada vez mais expostos.

OS VESTÍGIOS DO MAL
Se o seu filho apresenta ao menos um dos fatores
de risco, o pediatra deverá pedir os seguintes testes:

PERFIL LIPÍDICO
Exame de sangue que analisa os níveis de HDL (o bom colesterol), LDL (o colesterol ruim) e triglicérides (frações de gordura que ajudam a entupir as artérias).

GLICEMIA
Mostra as taxas de açúcar no sangue e uma possível resistência à insulina. Pode ser feito em jejum ou após a ingestão de glicose, conforme o pedido médico.

OUTROS EXAMES CLÍNICOS
No consultório, o médico deverá checar a pressão arterial, pesar e medir a criança.

ATENÇÃO!
A diretriz brasileira recomenda que, independentemente de estarem ou não no grupo de risco, todas as crianças façam os exames aos 10 anos

A taxa ideal de colesterol total para quem tem entre 2 e 19 anos deve ser inferior a 150 mg/dl. Se chegar a 170 mg/dl, é considerada bem alta


ABRIL 2006

FOTO EDUARDO SVÉZIA E FERNANDO VARGAS (FERRO FOTOS) | ILUSTRAÇÃO | EDER REDDER | PRODUCAO ALESSANDRA RAVIZZA / KRISTINA K. / PROCOPIO SPORTS

Apesar de magro e bem-disposto, Vinicius Bandeira, 11 anos, da cidade catarinense de Florianópolis, cravou a marca de 240 mg/dl de colesterol total. Cortou o chocolate e a batata frita, passou a comer grãos integrais e entrou na escola de futebol. Deu certo: as taxas despencaram para 133 mg/dl. A suspeita da pediatra, confirmada pelo exame, tinha razão de ser: a avó materna é cardíaca
 
 
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