Quarenta miligramas de HDL por decilitro de sangue. Ver essa marca no resultado do exame de colesterol é motivo de comemoração. Não é para menos. Ela sugere proteção contra o infarto. Mas isso pode mudar. É que a ciência anda analisando cada pedacinho desse famoso transportador de gordura. "O HDL não é uma única partícula", diz o cardiologista Raul Dias dos Santos, do Instituto do Coração, o Incor, na capital paulista, que se dedica exclusivamente a esse assunto em parceria com a Universidade Tufts, no Canadá. E cada fração dessa lipoproteína se comporta de maneira diferente. "Algumas são mais eficientes para livrar as artérias do perigo e outras menos", explica seu xará, o cardiologista Raul Maranhão, também do Incor.
Os últimos achados científicos atribuem esse bom desempenho a uma dupla de proteínas, as Apo A1 e 2 . Tudo leva a crer que a primeira é muito melhor na função de caça-gordura. Assim, quem tem mais dessa porção acaba com o peito verdadeiramente blindado.
Além disso, o HDL não é um mero carregador de gordura. Seu papel a um só tempo antioxidante e antiinflamatório desperta cada vez mais a atenção dos cientistas. Isso graças a moléculas que protegem a parede arterial e impedem inflamações. O duro é que pode haver exceções à regra. "Num pequeno grupo de japoneses, foi identificado um tipo de HDL pró-inflamatório", lamenta Dias. Vale enfatizar que era um time restrito e talvez azarado.
Se você já está se decepcionando com o HDL, alto lá. Embora essas revelações murchem um pouco sua bola, os médicos são unânimes em reafirmar a importância de que suas frações totais estejam nas alturas. Afinal, se algumas não funcionarem bem, sobrará uma parcela em condições de fazer o que tem que ser feito.
OS CAMINHOS DO COLESTEROL
Para desempenhar suas funções, o colesterol faz uma longa viagem.
Nesse trajeto a molécula gordurosa pega carona nas partículas LDL e HDL
1. Coleta de lixoIMAGEMTXT
A má fama do LDL se justifica porque às vezes ele deixa parte de sua carga de gordura pelo caminho, ou seja, pelas artérias. Já o HDL, o bonzinho, recolhe tudo o que ficou para trás, evitando assim que o colesterol se acumule.
2. Quem agarraIMAGEMTXT
Para apanhar as partículas de colesterol abandonadas pelo caminho e assim livrar as artérias do perigo, o HDL dispõe de proteínas que funcionam como verdadeiras garras:
a Apo A1 e a Apo A2. Elas vão se agrupando ao HDL e enchendo sua "caçamba" de colesterol. O destino é o fígado.
3. Mais eficiênciaIMAGEMTXT
A Apo A1, mais eficaz do que a Apo A2, consegue agarrar maior quantidade de colesterol. Assim, se o HDL estiver cheio de Apo A1, vai despejar ainda mais gordura no fígado.
4. Faxina malfeita
Se por falta de sorte o HDL se grudar em mais proteínas do tipo Apo A2, a limpeza não será tão eficiente, já que ela não consegue recolher muita gordura. Moral da história: o fígado receberá menos colesterol e o resto continuará circulando livremente.
5. TendênciaIMAGEMTXT
Por enquanto os exames rotineiros mostram apenas a concentração total de HDL, sem separar a molécula por partículas. As frações de Apo A1 e A2 só são medidas em casos muito específicos, mas os cientistas acreditam que isso em breve irá mudar.
Sobre o LDL não resta a menor dúvida: seus níveis devem ser inferiores a 100 mg/dl. Sempre
Graças ao seu surpreendente desempenho, as Apos começam a entrar na composição de drogas. Pesquisadores da Universidade de Milão isolaram um tipo ainda mais eficiente, batizado de Apo A1 Milano. "Por meio de engenharia genética, essa proteína entrou como matéria-prima de um medicamento capaz de reduzir as placas de gordura das artérias", conta o cardiologista Mercalo Brentami, do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo. Ainda não se sabe, entretanto, quando chegará ao mercado.
Enquanto a Apo A1 parece ser a nova queridinha dos pesquisadores, uma outra proteína é apontada como a mais recente vilã dessa história engordurada. É a CETP. Ela leva a má fama porque entra no processo de troca de colesterol entre o HDL, o VLDL e o LDL. "Os dois últimos acabam recebendo gorduras extras, o que pode representar risco para o coração", afirma o cardiologista Raul Dias dos Santos.
Tudo indica que a tal CETP está intimamente ligada a outra gangue perigosa, a dos famigerados triglicérides. Estudos mostram que, quando há triglicérides circulando aos montes pelo organismo, a proteína malfadada também aparece em grandes quantidades. "Diminuir o consumo de alimentos cheios de carboidratos refinados pode ajudar", opina Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração, na capital paulista.
Assim, por efeito indireto, o HDL desempenhará bem o seu papel.
Aliás, por falar em alimentação, sempre que o assunto é colesterol todo mundo quer saber o que ajuda a aumentar o HDL. Infelizmente, parece que comida nenhuma traz grandes resultados. "Vale apostar na atividade física e dar adeus ao fumo", insiste José Paulo Novazzi, cardiologista do Hospital Santa Catarina, na capital paulista.
E, embora agora paire sobre o HDL uma dose de incerteza, lembre-se de que ele ainda é um aliado do peito. E que seus níveis não devem ficar abaixo dos 40 mg/dl.
6. EncontrosIMAGEMTXT
No seu caminho para o fígado, o HDL pode deparar com o LDL, que está carregado de colesterol, e ainda com o VLDL, um transportador de triglicérides.
7. Trocas perigosasIMAGEMTXT
Ele pode topar também com uma proteína chamada CETP. Ela é responsável por trocas de colesterol entre o HDL e o LDL. E ainda faz intercâmbio com o VLDL, que doa parte de seus triglicérides ao HDL.
8. Caçamba vaziaIMAGEMTXT
Por causa da ação da CETP, o LDL e o VLDL ganham mais colesterol e o HDL perde, ou seja, ele fica mais "vazio" e por isso despeja menos gordura no fígado.
9. Sujeira espalhada
A dupla LDL e VLDL acaba mais cheia de colesterol e assim larga gordura pelo caminho, ou seja, nas artérias.
O QUE VEM POR AÍ
Terapias que prometem melhorar a performance do HDL
VacinaIMAGEMTXT
Cientistas estão desenvolvendo um imunizante para tornar o HDL mais eficiente. Essa vacina estimularia anticorpos a atacar a CETP. Desativada, a proteína não atrapalharia o trabalho do HDL.
MedicamentoIMAGEMTXT
Já está em fase final de testes uma droga que também atua na CETP. Nesse caso substâncias se ligam a essa proteína e formam uma espécie de ponte química que a desativa, ou seja, ela não consegue trocar informações e colesterol com nenhuma outra molécula.
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