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De corpo inteiro

Experimente o treinamento funcional, um programa de exercícios que exige esforço muscular integrado e em movimento. O método, que faz sucesso há anos nos Estados Unidos, promete seduzir também os praticantes brasileiros

por Priscila Boccia | design Eder Reder | foto Omar Paixão

"Você é tão forte quanto o seu elo mais fraco", sentencia o personal trainer americano Harley Pasternak. Assim o especialista explica por que o conceito de treinamento funcional é tão revolucionário. O elo mais fraco a que ele se refere é aquele músculo frouxo que deveria ser parceiro de toda a cadeia muscular, mas que rói a corda na hora do esforço. É o tal desequilíbrio gerado pela musculação tradicional, que prioriza alguns músculos, esquece-se de outros e exercita um pedaço de cada vez, isolado dos demais. "Ora, na vida real usamos diversos músculos para fazer um único movimento", diz o educador físico Luciano D'Elia, organizador do I Workshop Internacional de Treinamento Funcional, realizado em São Paulo.

O evento reuniu mais de 200 professores de educação física interessados em incrementar seus planos de exercícios com o treinamento funcional. Por ora só a Academia Única, em São Paulo, e as unidades Pinheiros, Santana, São José do Rio Preto e Catanduva do SESC-SP têm equipe especializada — as demais 17 unidades serão habilitadas nos próximos seis anos. Já as grandes redes acabam de estrear aulas inspiradas no método.
A questão é que, se a cadeia muscular não está igualmente forte e flexível, cresce o risco de você ter má postura, sucumbir ao fazer certos tipos de esforço e até mesmo ter uma bela dor. "Quando os pares de músculos, chamados de agonista e antagonista, estão desbalanceados, a tensão fica desigual, o que compromete a postura e a movimentação", descreve o personal trainer Thiago Passos, aluno do Instituto Chek, escola americana de treinamento funcional.

Outra preocupação é exercitar pontoschave. "Os pequenos músculos, tanto os da coluna como os dos pés, são fundamentais para o bom funcionamento de todo o corpo", enfatiza John Blievernicht, consultor da Academia Nacional de Medicina Esportiva, nos Estados Unidos. O treino funcional prepara o corpo para um bom desempenho nas atividades rotineiras, como agachar-se, empurrar um móvel e carregar uma criança — daí seu nome. Para tanto usa elásticos, bolas, pranchas de instabilidade e bastões, entre outros aparelhos.

O programa desenvolve a força, a flexibilidade, a coordenação, 0 equilíbrio, a resistência e a velocidade. "O corpo seaprimora e transfere o aprendizado para os momentos de necessidade", garante a educadora física Liciana Rossi, de Jundiaí, no interior paulista. "É provável que treinar a força dinâmica em movimentos parecidos com os do dia-a-dia funcione, mas épreciso comprovar essa hipótese", pondera Júlio Serrão, professor de biomecânica da Universidade de São Paulo.

As pesquisas ainda engatinham. "A principal dificuldade é medir a atividade muscular durante situações de instabilidade, como a de alguns exercícios funcionais", reconhece Thiago Passos. "Mas sabemos que abdominais sobre uma bola, por exemplo, ativam inclusive músculos periféricos, ou auxiliares, menos requisitados na versão convencional do exercício", revela. Exercício diferente
Entenda os princípios do treinamento funcional

AÇÃO
Nada de se sentar ou se apoiar. Durante o treino funcional é preciso movimentar o corpo inteiro. O objetivo é solicitar diversas habilidades físicas — FORÇA, FLEXIBILIDADE, COORDENAÇÃO, EQUILÍBRIO —, todas ao mesmo tempo, já que elas atuam em parceria na hora do esforço, na vida real.

Tridimensional
O exercício é executado em três planos — VERTICAL, HORIZONTAL e DIAGONAL. O esforço é superior ao da musculação tradicional, em que os movimentos se restringem a um plano por vez.

Sinergia
Os músculos trabalham em conjunto. Veja como, durante movimento, a força executada se transfere de uma parte a outra do corpo: primeiro os pés (1), passando por pernas (2), quadris (3), tronco (4) e, finalmente, chegando aos braços (5). Com isso a musculatura fica preparada para executar suas funções de maneira eficiente e sem dor.

Malhação versátil
Os exercícios trabalham mais de uma habilidade, embora uma sempre predomine

Equílibrio
A superfície instável ativa os proprioceptores — terminações nervosas que funcionam como sensores de movimento e posição corporal. O resultado é a melhora significativa do equilíbrio. Os músculos profundos que sustentam a coluna e os abdominaisficam fortes.
Olhe para baixo!
Os pés são a interface entre o chão e o restante do corpo. Ou seja, se estão fortes e ágeis, ajudam a pessoa a se equilibrar e a fazer força. Como o uso contínuo de sapatos os deixa frágeis e fracos, vale a pena executar alguns movimentos com eles descalços para exercitar a sua musculatura.

Força
Pressionada pela gravidade, a musculatura precisa dar conta de estender as pernas, erguer o tronco e levar o braço que carrega um pesinho para cima. O exercício trabalha um grupo muscular na seqüência do outro. A cadeia inteira sai fortalecida.

Outras habilidades
Durante o treinamento funcional, o aluno faz muitas repetições. Há também um aumento progressivo das cargas. Com isso são desenvolvidas a resistência e a velocidade. O corpo passa a agüentar mais esforço por mais tempo e ainda ganha agilidade.

Flexibilidade
Chega de tédio. Neste exercício, braços, abdômen e pernas são alongados de maneira integrada e dinâmica. O estica-e-puxa começa em um lado do corpo e termina no outro — o tronco gira para que o pé se aproxime do braço oposto. Isso aumenta a mobilidade articular e treina a coordenação.

Coordenação
Os deslocamentos para os lados — frente, atrás, direita e esquerda — treinam a coordenação. Como os braços estão ocupados, segurando o bastão nas costas, a pessoa perde a referência de espaço, um truque para exercitar o equilíbrio. Os agachamentos, por sua vez, fortalecem as pernas

A paulistana Beatriz Resende de Andrade, de 28 anos, é professora da pré-escola. "Passo o dia me agachando e carregando meus alunos de 2 anos no colo", conta Bia. O treinamento funcional foi uma mão na roda para deixá-la forte e resistente, apta a encarar o pique da criançada. "A vantagem é que não enjoa porque aprendo exercícios novos a cada treino", conta Bia, que freqüenta a Academia Única, em São Paulo, cinco vezes por semana.

Pontos de apoio
O exercício começa e termina em um único pé – na saída, o esquerdo, e na chegada, o direito. E isso exige equilíbrio e coordenação.
 
 
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