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A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou uma operação de guerra. "O estado de alerta pandêmico já está em vigor", conta Otávio Mercadante, sanitarista e diretor do Instituto Butantan, que fica na capital paulista. O médico faz questão de ressalvar: "Alerta não significa pânico!" O que a OMS espera é que a comunidade científica e a população estejam atentas no que vem por aí.
A grande arma consiste em cercar oinimigo. Para isso cientistas espalhados pelos quatro cantos do planeta trabalham sem cessar. Eles criam vacinas mais eficazes, desenvolvem diagnósticos mais precisos, pensam em saídas para barrar a disseminação do H5N1 e analisam as características do vilão para prever suas artimanhas. Enfim, suam a camisa para derrotar o microorganismo.
Mesmo assim um clima de incerteza ronda essa turma. O vírus influenza é uma verdadeira metamorfose ambulante. Ele muda de cara para driblar mecanismos de defesa do organismo hospedeiro. E assim vai se tornando invencível. Basta lembrar que há tempos tratava-se de um vírus exclusivo de aves, ou seja, não havia risco de contaminar seres humanos. Hoje já é capaz de matar o homem. E até agora o que assistimos é sua disseminação pelo contato com pássaros, mas a previsão é de que nós também possamos transmiti-lo. Desse modo, o que se teme é que a doença alcance rapidamente outros continentes, não pelas asas de aves migratórias, mas pelas dos aviões.
Uma coisa é absolutamente certa: o H5N1 que circula na Ásia é perigosíssimo. Além de acometer os tecidos do aparelho respiratório e causar pneumonia, o vírus faz estragos em outras áreas do organismo. "Ele tem predileção pelo sistema digestivo, por isso não é raro ocorrer diarréia", diz a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo. E até o coração pode ser alvo do seu ataque. "Se não for detectado a tempo, o H5N1 mata em uma semana", lamenta. Para piorar, alguns cientistas apontam a tendência de se tornar mais potente, ou mais patogênico, como preferem dizer. Afinal, ele já circula por aí há muito tempo e, antes, agia de modo mais brando. "Houve até mesmo um surto de gripe aviária na década de 1950", conta Nancy. A partir daí, sutis alterações em sua estrutura o tornaram letal para os bichos, que antes eram apenas hospedeiros.
Há quem aposte, porém, que o microorganismo possa até se enfraquecer. "Na verdade é impossível precisar o impacto do vírus", afirma o infectologista Luiz Jacintho da Silva, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, no interior paulista. Só nos restar ficar de olho.
Em razão das notícias preocupantes, já tem gente querendo circular por aí de máscara. Se você não freqüenta granjas asiáticas, não é o caso. Também não é preciso banir o frango do seu cardápio. Mais uma vez, vale lembrar que não há sombra de foco em aves brasileiras. Além disso, mesmo se a galinha da canja tivesse morrido de gripe, o vírus não resistiria às altas temperaturas do cozimento.
A informação que se tem até agora — não custa repetir — é de que a contaminação se dá estritamente pelo contato com fezes ou vísceras cruas de animais infectados. Aliás, é por isso que as autoridades ainda não estão vigiando aeroportos. Claro que à menor suspeita de transmissão de homem para homem — aí, sim — surgirão sentinelas a postos em tudo quanto é canto.
Lançar mão de antivirais também está na lista de providências dos mais ansiosos, ou seja, daqueles que não querem esperar para ver. Fica o aviso: "Qualquer remédio só deve ser tomado quando há necessidade real e sob orientação médica", frisa o infectologista Carlos Magno Fortaleza, coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e professor da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, campus Botucatu. Em outras palavras, ninguém deve correr até a farmácia mais próxima e comprar todo o estoque.
Quem tem que se ocupar com isso são as autoridades, que, por sinal, não estão de braços cruzados. "O Brasil já adquiriu 9 milhões de doses de um antiviral para o caso de pandemia", diz Fortaleza. O remédio impede a multiplicação do H5N1 e atenua a doença (veja acima). "Mas, se for usado a torto e a direito, pode até levar a uma resistência do vírus", alerta o infectologista Sérgio Barsanti Wey, do Hospital Israelita Albert Eisntein, na capital paulista.
Além do antiviral, os cientistas correm para desenvolver uma vacina eficaz contra o H5N1. E o Brasil é um dos poucos países que participam dessa maratona. "Por enquanto nosso objetivo é dominar a tecnologia", afirma o sanitarista Otávio Mercadante, do Instituto Butantan, na capital paulista. A princípio a idéia é produzir 20 mil doses, o que serviria apenas para controlar pequenos focos. Entretanto, quando o processo de fabricação estiver na palma da mão dos estudiosos, haverá imunização em massa. Vamos torcer para que essa busca seja breve.
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ONDE ESTÃO AS VÍTIMAS | ||
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CASOS |
MORTOS | |
| Vietnã | 93 |
42 |
| Tailândia |
21 |
13 |
| Indonésia |
12 |
7 |
| Camboja |
4 |
4 |
| China |
3 |
2 |
Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)
COMO FOGO EM PALHA?
Depois de observarem a disseminação veloz da gripe aviária, os especialistas acreditam que está por vir uma pandemia. O termo é usado para doenças que alcançam proporções intercontinentais. Dá arrepios, já que remete a um cenário de milhões de vítimas. A intenção da OMS, entretanto, é cercar o mal muito antes de esse pesadelo virar realidade.
DÉCADAS DE GRIPE
Veja os estragos que o vírus influenza fez ao longo da história
| 1918 A GRIPE ESPANHOLA Matou cerca de 30 milhões de pessoas. Estima-se que pelo menos 50% da população mundial tenha sido infectada. Apesar do nome, a pandemia não surgiu na Espanha. Na verdade esse país foi um dos últimos a serem contaminados. |
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| 1957-58 A GRIPE ASIÁTICA A pandemia começou na China e, após atingir vizinhos da Ásia, como Cingapura e Japão, chegou em poucos meses a outros continentes. Cerca de 1 milhão de pessoas morreram. |
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| 1968 A GRIPE DE HONG KONG O primeiro foco do problema foi, mais uma vez, a China. Numa cena repetida, o vírus tomou boa parte da Ásia e chegou aos Estados Unidos. Acredita-se que a contaminação do território americano se deu por meio dos soldados que lutaram no Vietnã. As estimativas são de 600 vítimas. |
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| 1976 A GRIPE SUÍNA Ela não passou de um susto. O influenza contaminou porcos e se alastrou por países asiáticos, até atingir a Europa e alcançar os Estados Unidos. Animais foram sacrificados, mas houve poucos seres humanos infectados — os números não são precisos. |
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Fotos Bettmann/Corbis/Stock Photos
A AMEAÇA PODE NÃO SE CUMPRIR
Apesar de todas as evidências indicarem uma pandemia de gripe aviária, há quem acredite que tudo não passe de alarme falso. E aí não faltam referências a 2003, quando o mundo ficou apavorado diante da ameaça de proliferação da Sars, ou Síndrome Respiratória Aguda Severa. Lembra-se? Era um tipo fatal de pneumonia que assustou a Ásia. Na época houve quase uma histeria, mas a doença não causou tantas vítimas como se esperava — foram cerca de 700 mortes. "As estratégias para deter o problema deram certo e a Sars não avançou para outros continentes", nota o médico infectologista Carlos Magno Fortaleza, coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
DO CÉU PARA A GRANJA
Antes de ser o vírus que assusta o mundo, o H5N1 se restringia a aves selvagens. De mutação em mutação, ele se tornou letal
1. AVES SELVAGENS
Inicialmente os pássaros selvagens hospedavam o H5N1 sem sofrer grandes danos, mas a evolução do vírus já o torna capaz de aniquilar essas aves. Quando a morte ocorre em lagos de águas frias, o vírus fica ativo por até um mês! E, se o bicho voar próximo de granjas, pode deixar ali seu rastro e... provocar a doença.
2. PERIGO NA GRANJA
Na Ásia, a produção de aves para fins comerciais muitas vezes não obedece a critérios de saneamento. Não é raro ver frangos em fundos de quintal sem instalações adequadas. Os cientistas acreditam que tudo isso facilitou a integração do H5N1 àquelas comunidades. Especula-se que vacinas pouco eficientes contribuíram para a mutação do vírus.
| 3. NO CORPO HUMANO Para que o homem se contamine, basta que entre em contato com fezes ou vísceras dos animais infectados. Varrer o chão da granja ou manipular ovos e aves infectadas é o suficiente. Mas, ao se tornar portador, o homem ainda não é capaz de transmiti-lo a outro ser humano, pois suas células ainda não contêm número bastante de receptores para o vírus H5N1. |
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4. A METAMORFOSE |
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DIAGNÓSTICO PRECOCE
Quanto mais preciso e rápido o exame que detecta a gripe aviária, maiores são as chances de barrar a disseminação
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1 - GENÉTICA PURA 2 - CULTURA DE VÍRUS |
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CORTAR AS ASAS DA INFECÇÃO |
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AS ARMAS CONTRA O H5N1
Além da perspectiva de uma vacina mais eficiente, já podemos contar com um medicamento que atenua os sintomas da doença

VACINA
1. Para compor um imunizante, o vírus influenza passa por um processo de purificação. Sua estrutura é toda modificada para que ele possa ser inoculado em ovos e replicar sem causar danos ao embrião.
2. O novo vírus, inativado — e por isso mesmo incapaz de provocar a doença —, é cortado em pequenos pedaços antes de ser injetado no organismo humano.
3. O sistema imunológico começa, então, a trabalhar para combater o intruso. Se um dia o verdadeiro vírus aparecer, o organismo irá reconhecê-lo a tempo.

ANTIVIRAL
1. O vírus H5N1 tem em sua superfície uma proteína chamada hemaglutinina que o ajuda a se grudar nos receptores de seus hospedeiros.
2. Há ainda uma outra proteína, a neuraminidase, que desliga a hemaglutinina, permitindo assim que ela se grude em novos receptores e contamine outras células.
3. O antiviral atrapalha a neuraminidase. E impede que a hemaglutinina se encaixe em outras células. O vírus, então, fica estagnado, sem conseguir se multiplicar. Isso alivia à beça os sintomas da infecção.
Infográficos THIAGO LYRA e ERIKA ONODERA
O VÔO DO VÍRUSMAIS VISITADOS
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