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Mestre e campeão

Dono de quatro recordes mundiais, 19 medalhas em Pan-Americanos e quatro pódios olímpicos, o nadador Gustavo Borges, hoje longe das competições, criou um método que ensina crianças e adultos a cair na água para vencer

por PRISCILA BOCCIA | design THIAGO LYRA | foto OMAR PAIXÃO

"Lógico, sem dúvida", respondeu Gustavo Borges, sem pestanejar, à pergunta: "Sua metodologia poderá lançar um novo campeão brasileiro?" E em seguida emendou: "Claro que, quanto maior o número de alunos, maiores também as chances de surgir um grande atleta." A resposta cautelosa é compreensível. Afinal, ele sabe que não é só com técnica que se faz um vencedor. Primeiro vem a dedicação aos treinos. Mas contar com o know-how de quem ganhou uma medalha de prata aos 19 anos nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992, ajuda, sim — e muito. E é no talento e na experiência do nadador que apostam os 20 mil novos alunos da rede GB, composta de 35 academias.

IMAGEMTXT"Nós não reinventamos a roda, mas sistematizamos o ensino da natação, aproveitando o que há de melhor nas técnicas atuais e nas antigas", pondera Borges. O "nós" refere-se ao seu mentor pedagógico, o ex-técnico da seleção brasileira William Urizzi de Lima, responsável pela divisão do aprendizado desse esporte em nove níveis (veja nas páginas seguintes). "No Brasil cada academia classifica os alunos de um jeito", critica Urizzi, que é professor da cadeira de natação da UniFMU, em São Paulo. "De acordo com a nossa metodologia, os objetivos de cada fase e os critérios de avaliação que levam à seguinte são muito claros", enfatiza. São quatro avaliações por ano. Se o aluno atingir 75% da pontuação máxima, avança um nível — em geral isso demora de seis a 12 meses.

O método mistura as duas linhas de ensino mais usadas no mundo, resumidas assim por Urizzi: "Na Europa a prioridade é aprender a sobreviver na água. Só mais tarde o aluno se inicia nos estilos crawl, costas, peito e borboleta. Já nos Estados Unidos o nado competitivo é ensinado logo de cara." Na rede GB o primeiro objetivo é a sobrevivência na água. Depois, sim, são introduzidos os nados, mas sem preocupação com a técnica. Após aprender a se deslocar na água nos quatro estilos, o aluno aprimora os movimentos de cada um.

O professor de educação física Mauro Guiselini, diretor do Instituto Runner de Ensino e Pesquisa, opina: "Pela primeira vez um programa de natação foi formatado no Brasil e isso é muito positivo para o esporte. Mas acredito que é preciso investir no relacionamento professor-aluno para dar certo". Antecipando-se a essa preocupação, os criadores da metodologia Gustavo Borges recrutaram uma equipe de atletas para viajar pelo país e treinar os profissionais das academias credenciadas. Com isso, querem garantir que mestres do Oiapoque ao Chuí seguirão sua nova cartilha à risca.

As dez unidades da academia Companhia Athletica espalhadas pelo país já adotaram o sistema de ensino de Gustavo Borges. "O que faz a diferença mesmo é o planejamento rigoroso", observa Fabiana Tassi, coordenadora do departamento aquático da unidade Morumbi, em São Paulo. Uma programação semanal determina quais habilidades aquáticas vão ser trabalhadas em cada aula. O professor tem autonomia para escolher os exercícios, mas não perde o foco. Para o adulto, a vantagem é poder avaliar a própria performance e corrigir eventuais falhas. E a criança? Ela também se preocupa com desempenho, mas não tanto quanto os pais. Ver o filho passar de um estágio para outro — ou não — é o que dá a medida do progresso da meninada.

IMAGEMTXTHá oito anos o empresário Paulo Maia, de 48 anos, voltou às piscinas depois de duas décadas longe delas. E há seis meses freqüenta a Academia Gustavo Borges, em São Paulo, na companhia do filho George, 9 anos. "Desde então, meu condicionamento melhorou 100%", conta. "E eu atribuo esse avanço à nova metodologia, que corrige detalhes importantes, como a posição exata da mão durante o nado." Pai e filho estão até fazendo travessias marítimas. "Em novembro nadei 25 quilômetros no canal de Bertioga, no litoral paulista." O menino, que já participou de várias provas de 1 quilômetro no mar, faz sucesso na escola, onde integra a equipe de revezamento da turma. "Agora estou treinando resistência e aprendendo a deslizar com mais facilidade na água", diz George.

Entenda o Novo Método
O ensino consiste em nove níveis e critérios bem definidos de avaliação do aluno

IMAGEMTXT NÍVEL BEBÊ 1
Touca amarelo-clara
Público-alvo: bebês com idade entre 6 e 14 meses
Objetivos: adaptar-se ao meio líquido e desenvolver o equilíbrio dentro d'água
Habilidade específica: aprender a flutuar


IMAGEMTXT NÍVEL BEBÊ 2
Touca amarelo-clara
Público-alvo: crianças com idade entre 15 e 24 meses
Objetivos: treinar mergulhos e giros
Habilidade específica: dar cambalhotas

IMAGEMTXT NÍVEL BEBÊ 3

Touca amarelo-clara
Público-alvo: crianças com idade entre 25 meses e 3 anos
Objetivos: sobreviver dentro d'água e aprender a respirar do jeito certo
Habilidades específicas: desempenhar saltos e deslizes


IMAGEMTXT ADAPTAÇÃO

Touca amarela
Público-alvo: crianças entre 3 e 7 anos e adolescentes e adultos que não sabem nadar
Objetivos: controlar a respiração durante o mergulho e desempenhar nado de sobrevivência
Habilidade específica: deslocar-se na água batendo braços e pernas alternados

IMAGEMTXT INICIAÇÃO

Touca vermelha
Público-alvo: crianças entre 6 e 10 anos e adolescentes e adultos que têm pouca experiência aquática
Objetivos: aprender os gestos mecânicos dos nados crawl, costas e peito
Habilidade específica: executar a pernada do estilo peito

IMAGEMTXT APERFEIÇOAMENTO 1

Touca azul-clara
Público-alvo: alunos que sabem nadar crawl, costas e peito
Objetivos: aperfeiçoar os estilos e aprender a técnica borboleta
Habilidade específica: fazer o movimento de golfinho

IMAGEMTXT APERFEIÇOAMENTO 2

Touca azul marinho
Público-alvo: alunos que sabem nadar os quatro estilos
Objetivos: progredir em todos os estilos e aprender técnicas de saída, virada e chegada
Habilidade específica: deslizar ao executar a ondulação do peito



IMAGEMTXT APERFEIÇOAMENTO 3

Touca laranja
Público-alvo: alunos que nadam com destreza todos os estilos
Objetivos: desenvolver velocidade e resistência e preparar-se para competições


IMAGEMTXT CONDICIONAMENTO

Touca preta
Público-alvo: jovens a partir dos 13 anos e adultos em busca de saúde e bem-estar
Objetivos: obter relaxamento, condicionamento cardiovascular e massa muscular, além de treinar para competições

produção ALESSANDRA RAVIZZA | infográfico THIAGO LYRA e ESTÚDIO MOL

 
 
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