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Medicina MATÉRIA

Predador à solta

Muita gente pode estar infectada como vírus da hepatite C e nem desconfiar, já que a doença não tem sintoma. E o pior é que, a longo prazo, seus danos são fatais

por FÁBIO DE OLIVEIRA

Números são uma representação abstrata de quantidades ou grandezas. Ainda assim, têm a capacidade de provocar algum tipo de reação emocional — da alegria ao temor. E é um misto de medo e de preocupação que emerge quando se fica a par das estatísticas da hepatite C no Brasil. "Estima-se que 1% da população brasileira tenha o vírus desse mal", diz a infectologista Cássia Mendes Corrêa, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "E é um cálculo por baixo, realizado pelos bancos de sangue, levando em conta os indivíduos fora dos grupos de risco."

IMAGEMTXTEntre os usuários de drogas injetáveis, por exemplo, acredita-se que o índice de contaminação chegue a 70% — compartilhar agulhas favorece o contato com sangue infectado, forma pela qual o vírus se dissemina. "Há muita gente com a doença, mas sem saber disso", inquietase a especialista. Isso porque a hepatite C provoca, aos poucos e na maior discrição, estragos nas células do fígado, órgão pelo qual seu agente causador tem preferência (veja abaixo). "Além disso, 50% dos pacientes desconhecem como se contaminaram", diz o cirurgião e hepatologista Paulo Massarollo, chefe do serviço de transplante de fígado da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. "Às vezes não há nenhum comportamento de risco especial."

A INVASÃO

Veja como o vírus da hepatite C penetra no organismo e conheça os estragos que ele provoca no fígado

O veículo utilizado pelo VHC, a sigla que identifica o vírus, é o sangue — contaminado, que fique claro. Via corrente sangüínea, ele vai parar no fígado, órgão pelo qual tem predileção. IMAGEMTXT
Ao chegar ali, ele se aloja no citoplasma, o recheio da célula hepática, chamada hepatócito. Bem instalado, o microorganismo dá início ao seu processo de replicação, que está por trás das seguintes conseqüências: IMAGEMTXT
1. O hóspede pra lá de indesejável pode provocar a morte do hepatócito ao tentar romper sua membrana para cair novamente na circulação. IMAGEMTXT
2. Durante o estágio de multiplicação, o VHC deflagra modificações celulares que chamam a atenção do sistema imune. É o sinal verde para que as defesas do corpo iniciem um ataque às células infectadas. IMAGEMTXT

O hepatologista Mario Guimarães Pessoa, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, revela outras estatísticas: "Em geral 80% dos portadores se tornam doentes crônicos." Desse total, 20% desenvolvem cirrose, quando o fígado se torna uma grande cicatriz, e de 2% a 4% terminam com câncer hepático.

O quadro pode ser ainda pior se o indivíduo bebe uns goles a mais. Foi o que verificou uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com 120 pessoas que descobriram serem portadoras do vírus quando foram doar sangue. "O álcool é tóxico para o fígado", diz a hepatologista Maria de Fátima Gomes de Sá Ribeiro, autora do trabalho. "Dessa forma, se já existe uma inflamação hepática decorrente da presença do vírus, a bebida vai potencializar a lesão." Sem contar trabalhos na literatura médica que constatam uma proliferação mais exacerbada do microorganismo em alcoólatras.

A ARTILHARIA CONTRA O INVASOR

Daria para tratar o mal. A terapia considerada mais eficaz atualmente se vale da associação de dois medicamentos, a ribavirina, um antiviral, e o interferon sintético, que dá um gás extra na capacidade do organismo de combater o vírus, além de agir diretamente contra ele. Sua versão mais moderna e eficiente, conhecida como peguilada, é revestida por uma molécula de polietilenoglicol. Ela garante que a droga agirá por mais tempo no organismo, exigindo apenas uma injeção semanal, contra três picadas da geração anterior da substância.

"Antes de iniciarmos o tratamento, fazemos uma biópsia do fígado para averiguar se há atividade da doença e fibrose", explica Pessoa. Os especialistas também checam, por meio de um exame, o PCR, a quantas anda a carga viral. Se o mal estiver muito avançado, o recurso é o transplante do fígado — não à toa, a hepatite C é a causa de cerca de 40% desses procedimentos.

Há outros complicadores nessa história. Um deles é o fato de existirem seis genótipos do vírus VHC. "Isso dificulta o desenvolvimento de uma vacina", diz o hepatologista Paulo Massarollo. Dão as caras no Brasil os tipos 1, 2 e 3, sendo que o primeiro, justamente o mais agressivo, é o de maior prevalência. O tratamento padrão para o genótipo 1 dura 48 semanas e para os de número 2 e 3, não menos de 24. "Hoje, após a quarta semana de tratamento, já é possível saber se há uma diminuição da carga viral ou a negativação do vírus. Antes era preciso esperar até a 12° semana que dava um valor preditivo negativo", conta o hepatologista Hoel Sette Júnior, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Atualmente, após o 1° mês, dá para ter mais certeza de quem vai se curar", comemora Sette.

PREVINA-SE

A terapia, no entanto, apresenta alguns efeitos colaterais. A ribavirina pode provocar anemia e o interferon, uma redução do número de glóbulos brancos. "Quando se aprende a manejá-los, o paciente pode ser assistido no tempo necessário para regular as doses de que precisa", garante Pessoa. Com tantos inconvenientes, o jeito é se precaver.

Os usuários de drogas injetáveis e quem tomou transfusões sangüíneas antes de 1993, quando os bancos de sangue passaram a se valer do exame que identifica o vírus, devem procurar se submeter ao teste. Isso vale, ainda, para quem faz tatuagem em locais onde se desconhece se as normas de esterilização são observadas. Atenção também com manicures e acupunturistas, sem falar no uso de objetos de familiares infectados, como barbeadores e alicates. Embora o risco de transmissão via relações sexuais gire em torno de 5%, evite descuidos nessa área. Vale tudo para não se tonar mais uma vítima desse predador.

IMAGEMTXTMAIS UM FATOR DE RISCO

Quem já se submeteu à endoscopia digestiva apresenta um risco quase três vezes maior de adquirir o vírus da hepatite C. É a conclusão de uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Controle e Qualidade em Saúde e pelo Instituto de Hematologia do Rio de Janeiro. Dos 253 doadores de sangue analisados, 54 estavam infectados, sendo que 25,9% deles haviam apelado para o exame antes da detecção do vírus. "Essa forma de transmissão só ocorre quando as técnicas de limpeza e desinfecção do aparelho não são realizadas de forma correta", assegura a biomédica Thaís Tibery Espir, autora do estudo. "O problema é que ainda não existe no país uma legislação especificando como isso deve ser feito." Em outro trabalho, a pesquisadora avaliou a higiene dos aparelhos em cinco estabelecimentos públicos do Rio. Resultado: 60% pecaram na higienização.

UMA QUESTÃO POLÊMICA

O tratamento da hepatite C no Brasil é oferecido gratuitamente pelo serviço público, mas há críticas ao esquema. "Só os pacientes nunca antes tratados e que apresentam o vírus de genótipo 1 têm acesso à ultima geração de interferon", diz Sidnei Moura Nehme, presidente do conselho diretor da Transpática, entidade que representa os portadores de doenças hepáticas. "Assim, os demais doentes ficam restritos ao interferon convencional, que promove uma taxa de negativação (ou seja, de zerar o vírus) de 40%, ao passo que, com o peguilado, esse índice fica entre 60% e 70%." "Os doentes com o vírus de genótipo 1 respondem melhor ao interferon peguilado, que é mais caro, associado à ribavirina", explica Alex Freitas, técnico do programa nacional de hepatites virais do Ministério da Saúde. "Já os dos tipos 2 e 3 reagem tanto ao peguilado quanto ao comum, daí a escolha pelo produto mais barato nesses casos."

 
 
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