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À beira do diabete

Hoje os médicos têm certeza: existe um estado, que pode durar anos, em que o sujeito é pré-diabético. Se não mudar os hábitos, ficará doente na certa. Seria o seu caso?

por Beth Fernandes | fotos Gustavo Arrais

Não dá para minimizar o perigo do diabete. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, ele é a quarta causa de morte no Brasil e atinge nada menos do que 150 milhões de indivíduos em todo o planeta. Quem tem mais de 45 anos, episódios do problema na família e está acima do peso precisa se cuidar mesmo ainda mais se já tiver desenvolvido o que hoje se chama de pré-diabete. O nome deixa claro do que se trata: uma condição em que o sujeito está prestes a se tornar diabético tipo 2. Mas ela não é irreversível esta é a boa notícia. A importância da prevenção foi um dos principais focos de discussão no Congresso Internacional de Pré-diabete e Síndrome Metabólica, realizado recentemente em Berlim, na Alemanha. "O pré-diabete é um estado sério, que pode levar a um infarto ou a outras complicações graves", confirma o médico Antônio Chacra, professor titular de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ou seja, o pré-diabete é perigoso em si: pode matar alguém do coração antes mesmo de esse sujeito ficar diabético pra valer.

Para evitar um futuro desses, ninguém precisa reinventar a roda. Basta se manter nos trilhos da vida saudável, o que significa adivinhe comer direito e mexer o corpo. O epidemiologista Trevor Orshard, da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, lembra aos leitores de SAÚDE! que, mais prudente ainda do que controlar o diabete, é nem chegar lá e reverter o pré-diabete, "evitando assim aquelas complicações para o coração e os rins, que podem matar". Orchard acompanhou nada menos do que 3 234 indivíduos pré-diabéticos, para montar o recémconcluído Programa de Prevenção do Diabete, nos Estados Unidos. Sua conclusão foi de que um rígido controle nutricional e 150 minutos de exercícios semanais reduzem em 58% o risco dessa gente de cair de vez no abismo da doença.

O que você deve fazer para descobrir se tem pré-diabete? É aí que mora o problema. Se o diabete pode não manifestar sintomas claros, imagine então o pré-diabete. A pista a seguir atende pelo nome de fator de risco. Um único deles já é o suficiente para acender a lâmpada amarela: estar muito acima do peso, ser sedentário, ter mais de 45 anos, colesterol alto, hipertensão, ovário policístico ou diabete gestacional. Os obesos precisam redobrar a preocupação. "Quilos a mais exigem do pâncreas maior produção de insulina. Aí, ele fica sobrecarregado e não consegue produzir o hormônio adequadamente", explica o endocrinologista carioca Leão Zagury, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. "Todo mundo que tem diabete tipo 2 foi pré-diabético um dia, por isso é tão importante que as pessoas saibam mais sobre esse estado", completa.

A confirmação pode chegar por meio de dois exames feitos partir de uma amostra de sangue. "O primeiro é a dosagem da taxa de glicose de jejum. Se ela estiver entre 100 e 126mg/dl, uma faixa entre o saudável e o diabete, o paciente deve ser submetido a um segundo exame", explica o médico Daniel Giannella, responsável pelo Laboratório de Endocrinologia Molecular e Celular do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Nessa segunda etapa é analisada a tolerância ao açúcar, ou seja, como o organismo reage nas primeiras duas horas depois de ter ingerido um alimento com muito carboidrato", diz . Se passado esse período a glicose sangüínea insistir em ficar entre 140 e 200 miligramas por decilitro, o indivíduo é considerado pré-diabético. Em outras palavras, a insulina produzida pelo pâncreas não está dando conta de mandar o açúcar para dentro das células como deveria.

De acordo com a médica Vivian Elinger, presidente do departamento de diabete da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, de 10% a 25% dos ocidentais apresentam o pré-diabete. "Se não se cuidarem, essas pessoas têm até oito vezes mais chances de se tornarem diabéticas", estima o endocrinologista Sérgio Atala Dib, da Universidade Federal de São Paulo. E seu colega Antônio Chacra completa: "Sem contar que a intolerância à glicose ajuda a formar placas de gordura capazes de entupir as artérias, favorecendo a ocorrência de infarto".

O endocrinologista Daniel Giannella, porém, faz questão de enfatizar que o prédiabete não é uma doença é uma luz amaela. E a médica Vivian Elinger chama atenção de que tomar medicamentos contra o diabete nessa fase preliminar não surte grande efeito. "Nada se compara à mudança de hábitos", reforça.; Para a nutricionista Gisele Gouveia, de São Paulo, especialista em diabete, uma coisa é certa: "O pré-diabético sempre ingere algum nutriente em excesso, seja carboidrato, proteína ou gordura". Em busca do equilíbrio, o jeito é traçar um plano alimentar sem grandes restrições. Frutas, hortaliças, cereais e leguminosas são excelentes nesses casos. É que as fibras também regulam a absorção da glicose, evitando que vá para as alturas depressa.

Em relação à atividade física, para um pré-diabético em geral o objetivo é reduzir de 5% a 7% do peso corporal. "Como o principal fator de risco em casos assim é a obesidade, indicamos de 20 a 30 minutos diários de exercícios aeróbicos corrida, caminhada ou natação , que ajudam a queimar gordura e melhoram a captação de glicose pelo organismo", diz a professora de educação física Moema Bueno, da Associação de Diabetes Juvenil. Se é tão simples prevenir um mal maior, você não vai querer viver perigosamente, vai?

A PROVA DOS NOVE
O DPP (sigla em inglês para Programa de Prevenção do Diabete) é uma pesquisa recém-concluída que envolveu 3 234 adultos pré-diabéticos e diversos centros médicos dos Estados Unidos. Durante três anos, o epidemiologista Trevor Orchard e sua equipe, da Universidade de Pittsburgh, acompanharam esses pacientes, divididos em três grupos. O primeiro foi tratado com placebo. O segundo, com metformina, um medicamento indicado para controlar o diabete. O terceiro seguiu uma dieta adequada e um programa de atividade física. Conclusão: esse último foi o que apresentou os melhores resultados, com 58% de redução no risco de desenvolver diabete, contra 31% do grupo tratado com metformina.

PREVENIR É PRECISO
O diabetes do tipo 2 pode acarretar sérias conseqüências:

• Problemas no coração
• Amputação das pernas
• Cegueira
• Impotência sexual
• Insuficiência renal

Junho 2005

No mundo inteiro, estima-se que metade dos diabéticos não saibam que têm a doença

O pré-diabético tem de 6 a 8 vezes mais chances de se tornar diabético do que um indivíduo normal
A quantidade de açúcar no sangue do pré-diabético costuma ficar acima do normal em jejum e nas duas primeiras horas depois das refeições.É de assustar! O diabete cresce a olhos vistos no mundo inteiro
 
 
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