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Exame do coração. Qual o mais confiável?

SAÚDE! realiza uma investigação no mundo dos testes cardíacos e descobre que eles, incluindo a popular esteira, não são 100% eficientes. Saiba o que fazer por Fábio de Oliveira | fotos gustavo arrais

Tenho 29 anos. No meu último checkup, no final de 2004, os níveis de colesterol e açúcar foram considerados ótimos. O resultado do eletrocardiograma deu tudo azul. Mas uma dor no antebraço esquerdo, um dos sinais que denunciam encrencas à vista no peito, fez meu cardiologista pedir o famoso teste de esforço físico na esteira. Além disso, pelo que me recordo, indicou a cintilografia, aquele exame em que os especialistas injetam no corpo um material radioativo para, com o auxílio de um aparelho chamado gama-câmara, flagrar algum problema de irrigação na intrincada rede de vasos por onde o sangue circula no organismo. Não, não me tache de hipocondríaco, caro leitor. Meu médico também não pecou pelo excesso de zelo. Sou jovem, portanto estou fora do grupo mais sujeito a problemas cardíacos, homens na faixa dos 45 anos em diante. No entanto, meu histórico familiar não me abona. Sou filho de diabéticos e, como você já deve ter lido várias vezes aqui na SAÚDE!, o diabete anda lado a lado com os males do coração. Além disso, meu velho já teve um princípio de infarto. E, naquela época, meu peso estava bem acima do normal. Então...


No final das contas, a dor parou de me incomodar. O tempo correu e, em meio à apuração de uma reportagem aqui e de outra acolá, acabei protelando os exames. Eles quase foram deletados da minha cabeça. Quase. Ao passar os olhos pelo programa do último congresso do American College of Cardiology, que aconteceu em março em Orlando, nos Estados Unidos, vi que um dos destaques era justamente um estudo sobre a eficácia da popular esteira para identificar o risco de problemas cardiovasculares em mulheres. Fiquei pasmo. Descobri que a esteira não passou inteiramente no teste.

A pesquisa realizada no Hospital Hartford, em Connecticut, nos Estados Unidos, concluiu que, além da esteira, mulheres com risco intermediário e alto para intempéries cardiovasculares deveriam ser submetidas também à cintilografia para ter uma previsão mais exata de tempo ruim no universo das artérias. Em outras palavras, um único teste, isoladamente, muitas vezes não é suficiente. Diante desse panorama, pintou a dúvida: dá para prever pra valer os problemas cardíacos? "Essa é a pergunta do momento", me disse sem pestanejar o cardiologista Ibraim Pinto, na sua sala no setor de angioplastia do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, em São Paulo. "O que a gente pode fazer para melhorar a capacidade de predizer o risco de ficar doente?", indaga em tom de eis a questão. "Até mesmo porque nunca vamos chegar a 100% de precisão", completa seu colega Antonio de Pádua Mansur, do Instituto do Coração, também na capital paulista. "Não existe 100% em biologia", deixa claro.

Um novo olhar
A preocupação de flagrar os males com antecedência faz sentido nos tempos modernos, em que a Medicina adota, cada vez mais, uma abordagem voltada para a qualidade de vida. Não é tão distante a época em que os especialistas se concentravam em saber se a gente estava doente e, caso o diagnóstico confirmasse a moléstia, examinar o grau das eventuais seqüelas. "Hoje procuramos identificar quem corre risco de sofrer algum problema para barrá-lo ou, pelo menos, diagnosticá-lo antes que provoque muitos estragos e prejudique o dia-a-dia do paciente", diz Ibraim Pinto, resumindo a nova onda.

Nesse sentido, antes de mandar alguém suar a camisa na esteira, um bom médico procura traçar o perfil daquele indivíduo na sua frente, em busca de uma luz. Foi o que meu cardiologista fez. É o que se chama de personalizar a avaliação. Quem veste o jaleco branco hoje em dia valoriza ou deveria valorizar o olho no olho e o bate-papo para obter o maior número de informações sobre aquele cidadão, incluindo o histórico familiar. E só aí indicar exames. Sim, mesmo quando se trata do coração não há receita-padrão.

Depois do eletrocardiograma, o teste que avalia a atividade elétrica no músculo cardíaco em determinado instante teste que é facilmente encontrado e realizado nos consultórios dos cardiologistas , a esteira é de fato a primeiríssima opção, especialmente para o pessoal mais jovem, sem nenhum mal aparente. "Ela é como um eletro de esforço", compara o cardiologista Marcelo Bertolami, também do Dante Pazzanese. "Ao contrário do eletrocardiograma, que é feito em repouso, a esteira exige do peito e mostra a probabilidade de problemas com mais acuidade." O corre-corre em cima daquela parafernália, com aquele monte de eletrodos colados no corpo, tem o objetivo de fazer o coração trabalhar na sua capacidade máxima para, daí, detectar algum distúrbio.

O problema do teste ergométrico, outra alcunha que as passadas na esteira recebem, é que ele tem uma eficácia de cerca de 75%. Feitas as contas, 25%, ou um quarto, das más notícias podem passar batido. E vamos ser claros: a esteira só acusa alterações nas coronárias se as placas por trás da desordem estiverem entupindo 60% do diâmetro dessas artérias. "E a imensa maioria dos infartos acontece devido a obstruções de 20% a 30%", diz Marcelo Bertolami. Essa história não acaba por aqui. A popular esteira ainda é responsável por vários casos de falso positivo, algo comum em mulheres e um fato ainda não inteiramente explicado pela ciência. "A gente só sabe, por enquanto, que a sensibilidade do teste, nelas, é baixa", diz o cardiologista Luiz Francisco Cardoso, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Diante desse quadro, busquei mais informações.

É por aquelas dúvidas e outras que os médicos, além da suadeira na esteira, podem indicar a cintilografia, que em geral tem alguns estágios. No primeiro a gente fica de repouso, cheio de eletrodos. A segunda fase da cintilografia vem acompanhada de suor, muito suor: corre-se novamente sobre a esteira para o baticum do coração trabalhar o máximo que puder. Nessa hora, injeta-se no sangue um marcador radioativo que tem predileção por uma proteína com afinidades pelas bandas cardíacas. Aí, há uma elevação do aumento do fluxo sangüíneo e, de quebra, as artérias coronárias precisam se distender a toda para que oxigênio e nutrientes alcancem o coração. Se houver alguma placa no caminho do sangue, o exame vai, por meio de um aparelho que capta a radiação do marcador, o gama-câmara, mostrar se determinada região cardíaca não está sendo devidamente irrigada. No caso, seu médico pode completar o procedimento com um cateterismo, que, por meio de uma sonda introduzida por uma artéria da perna até a aorta no peito, tira a prova dos nove.

Nenhum exame é perfeito. A cintilografia, apesar de ter uma eficácia de 90%, também só costuma revelar placas que interrompem 60% das coronárias. Sem falar que não é capaz de identificar a hipertrofia de alguma área do músculo cardíaco, situação que pode acometer os hipertensos. "A própria pele pode impedir uma captação correta dos raios gama, como no caso de mulheres com mamas muito volumosas", diz Ibraim Pinto. Para essa e outras situações, os especialistas devem se valer de alternativas. As ondas do ultra-som do coração, por exemplo, exibem imagens em tempo real da anatomia do órgão. Trata-se de uma ferramenta a mais para descobrir se o músculo cardíaco está funcionando numa boa ou aos trancos e barrancos.

Por falar em ondas sonoras, um outro teste que está entrando na rotina dos checkups é o ultra-som da artéria carótida, que se localiza no pescoço. Ela é um ótimo tira-teima para checar a quantas anda o processo de formação de placas de gordura no organismo, a cada vez mais freqüente aterosclerose. O exame avalia a espessura da carótida. "As paredes desse vaso começam a se alterar antes mesmo de a placa se formar ali", conta Marcelo Bertolami. Portanto, transforma-se em uma forma de realizar uma checagem indireta da existência das benditas placas nas coronárias. Isso porque o mexe-remexe do coração não permite que o ecocardiograma consiga enxergá-las.

Átomos estimulados
Pendências não esclarecidas pelo ecocardiograma podem ser verificadas pela ressonância magnética. Por meio de um campo magnético potente, ela estimula átomos do hidrogênio das moléculas do corpo, dando um retrato falado das estruturas ou tecidos às quais elas estão ligadas. Dá para ver o tamanho exato do estrago de um infarto. Além de placas de gordura, os médicos me explicaram que, no interior das nossas artérias, também ocorrem calcificações. Esses depósitos de cálcio são na verdade uma maneira de o organismo fazer um reparo nos machucados detonados nas paredes arteriais durante a evolução da aterosclerose.

As calcificações podem obstruir a passagem do sangue e, dependendo do seu grau, revelam a progressão das placas de gordura. Um método pra lá de eficiente (92%) para denunciá-las é a tomografia computadorizada. Consiste num tubo que gira ao redor do paciente duas ou três vezes por segundo, liberando raio X em 64 fileiras de detectores que cobrem seu corpo. O resultado são imagens congeladas dos movimentos do coração. Aí, tem-se uma visão interna de seus vasos, com calcificações e afins. Saí das conversas com os médicos convencido de que os exames têm muito a evoluir, mas, mesmo imperfeitos, são de grande valia. Não deixarei de marcar meu teste ergométrico.

Colesterol na pele?
É isso mesmo. Um teste disponível desde o começo do ano nos Estados Unidos, Canadá e alguns países da Europa mede o nível total dessa gordura na palma da mão, o que pode ser um alívio para quem tem pavor das agulhas do exame tradicional. O procedimento foi tema de um dos estudos apresentados no último congresso do American College of Cardiology.

Ele dura de três a cinco minutos e utiliza um dispositivo retangular acolchoado que contém três cavidades. O kit é colocado sobre a palma da mão e, por meio de reagentes químicos, quantifica o nível total da gordura. "Quando o colesterol se acumula nas paredes arteriais, é excretado através da pele", explicou à SAÚDE! Sarah Borg-Olivier, diretora de comunicação da IMI International Medical Innovations, empresa canadense que desenvolveu o produto. "A pele é como se fosse um espelho do acúmulo de gordura nas coronárias." O cardiologista Ibraim Pinto pondera. "Pode ser uma tendência, mas é um teste impreciso por medir o colesterol total. Saber desse total quanto é LDL, o colesterol ruim, e quanto é HDL, o bom, é de longe o mais importante."

A proteína do momento
Ela atende pelo nome de c-reativa e vem sendo pesquisada a fundo pelos cientistas que tentam desvendar os mistérios por trás dos males cardíacos. A c-reativa está envolvida nos mais diversos tipos de inflamação que ocorrem no organismo. Como a aterosclerose, a formação de placas de gordura nas artérias, é considerada um processo inflamatório, não é à toa que a molécula venha despertando tanto interesse dos cardiologistas. "Medir seus níveis no sangue já está se tornando rotina", afirma Ibraim Pinto. "Quem tem um perfil com tendência a inflamações pode apresentar mais risco de placas de gordura instáveis, que podem se romper." Segundo o médico Luiz Francisco Cardoso, a c-reativa "pode ser considerada como um marcador de prognóstico, mas não é tão específico como o colesterol e a pressão arterial". Em todo caso, é um parâmetro a mais.

 



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