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Causa e efeito?

Pesquisador explica por que nem todas as associações divulgadas por aí no campo da saúde têm pleno fundamento

“Vacina provoca autismo.”

“Vírus zika causa microcefalia.”

“Sacrifício humano feito para o deus Vulcão interrompe sua erupção.”

Esses são apenas alguns exemplos de notícias ou histórias que chegam ao nosso conhecimento dia após dia. Deparamos constantemente com informações relatando todo o tipo de correlação ou associação. Em um primeiro momento, elas até parecem fazer sentido. Mas o que de fato é uma relação de causa e efeito e não apenas fruto de uma coincidência? O que devemos levar em conta quando batemos o olho nesse tipo de notícia?

Primeiro, precisamos entender como o raciocínio humano funciona. Um pensamento que é recorrente quando estamos lendo uma notícia que relaciona dois fatos é o seguinte: se “A” causa “B”, então certamente “A” tem que ocorrer antes de “B” e ambos têm que variar juntos, ou seja, se “A” aumenta, “B” também tem que aumentar, por exemplo.

Analise os dois gráficos abaixo e vamos fazer um pequeno exercício. Vale ressaltar que ambos os gráficos foram criados com dados reais.

Aumento no uso de agrotóxico X aumento nos casos de autismo

Gráfico sobre o aumento no uso de um pesticida e o crescimento nos casos de autismo (Divulgação do estudo/Divulgação)

Esse primeiro gráfico mostra o aumento do uso do herbicida glifosato, conhecido como mata-mato (repare na linha vermelha) e o crescimento no número de jovens diagnosticados com autismo (veja as barras amarelas).

Nesse caso, “A” seria o glifosato e “B” seria o autismo. Esse gráfico assusta, né? Conforme aumentamos a utilização do glifosato no cultivo de milho e soja, o número de jovens diagnosticados com autismo aumenta junto. Ora, nossa primeira impressão após ver esses dados é que glifosato causa autismo!

Essa conclusão só tende a ser mais verdadeira se eu disser que o glifosato é utilizado principalmente em plantações de organismos geneticamente modificados, os temidos transgênicos. E piora ainda mais se eu disser que o estudo foi feito por uma pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, instituição reconhecida por ser uma das melhores do mundo.

A gente não sabe bem o motivo, mas fica claro na nossa mente que aumentar o uso de glifosato poderia causar alguma coisa ruim. No caso, o aumento no número de jovens diagnosticados com autismo. Certo?

Vamos ao segundo gráfico. Ele foi produzido por um usuário frequentador do Reddit (um site de mídias sociais) e que possivelmente não tem nenhum estudo científico publicado na área de saúde.

Gráfico correlaciona venda de orgânicos e casos de autismo

Gráfico relaciona aumento na venda de produtos orgânicos e crescimento nos casos de autismo nos EUA (Divulgação/Divulgação)

O gráfico mostra o aumento das vendas de comida orgânica (linha rosa) e o aumento no número de indivíduos diagnosticados com autismo (linha roxa). Com base nele, percebemos que aparentemente o aumento nas vendas (e, portanto, no consumo) de comida orgânica está propiciando um aumento no número de pessoas diagnosticadas com autismo.

Esse gráfico, contudo, parece “mais errado” de alguma forma que não conseguimos explicar direito. Afinal, comida orgânica é “natural”. Não faz sentido ela causar mal algum!

Mas por que quando mostramos o gráfico do glifosato tudo pareceu fazer sentido? E aí? Em qual gráfico acreditar?

A resposta: em NENHUM.

Nós, humanos, somos predispostos a tentar encontrar padrões para tudo. Quando lemos alguma notícia sobre um estudo alegando que “A” causa “B”, rapidamente evocamos nosso pré-conceito adquirido por nossa experiência de vida. Isso é chamado viés de confirmação.

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Pesquisadores também sofrem com essa tendência. Devido à cobrança por resultados e a pressão acadêmica, encontram exatamente o que estão procurando por meio desse viés — ou fazem uma forcinha a mais para enxergar aquilo que querem enxergar e chegam até a forjar dados.

Existem diversas outras questões para se levar em conta antes de fazer afirmações de que “A” causa “B”. Utilizando o exemplo do autismo, temos que levar em consideração que houve mudanças significativas no diagnóstico de autismo. Provavelmente antes de 1990 ocorria uma subnotificação nos casos. Após 1996 muitos jovens podem ter sido enquadrados nas novas bases para o diagnóstico da condição.

Um exemplo mais recente é a relação entre o zika vírus e a microcefalia. Na mesma época em que houve o aumento de casos de febre zika, principalmente no Nordeste brasileiro, ocorreu o aumento drástico no número de casos de microcefalia, aquela malformação no cérebro e no crânio do bebê.

O vírus era encontrado na maioria dos recém-nascidos diagnosticados com o problema neurológico. Era como se o vírus estivesse sempre na cena do crime e segurando a arma, ainda fumegante. Parecia ser óbvio que o vírus zika causava a microcefalia. Tanto é que o Ministério da Saúde declarou que a relação estava comprovada, mesmo antes da conclusão de estudos mais detalhados.

Alguns meses depois foi constatada essa relação utilizando experimentos em animais. Porém, até que o estudo fosse publicado, seria muito arriscado afirmar que existia uma relação de causa e efeito. Poderia ter sido outro o motivo do aumento no número de casos de microcefalia. Só que estaríamos com tanta convicção que o zika vírus era o culpado que esse outro motivo passaria despercebido bem debaixo dos nossos olhos. Nesse caso em particular, pesquisas mais atuais já demonstraram que o zika vírus é capaz de infectar células da placenta e causar microcefalia em macacos, demonstrando uma forte ligação entre o vírus e a microcefalia em seres humanos.

O grande ponto aqui é que é importante para um cientista fazer de tudo para provar que o seu principal resultado está… ERRADO! Que aquilo que ele está observando é culpa do acaso. Quando o cientista falhar em provar que está errado, ele pode enviar seus resultados para outros cientistas analisarem. Estes deverão fazer um esforço ainda maior para provar que a hipótese continua errada. Portanto, um bom começo seria questionar todas as correlações daqui para a frente.

Por fim, apresento um último gráfico para mostrar que podemos fazer as correlações mais bizarras possíveis e que, mesmo assim, nosso cérebro faz de tudo para encontrar alguma lógica.

Gráfico sobre gastos com pets e número de suicídio

Gráfico relaciona gastos com animais de estimação e aumento nas taxas de suicídio nos EUA (Divulgação/Divulgação)

O gráfico mostra a correlação entre quanto dinheiro é gasto com animais de estimação (linha vermelha) e o número de suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento (linha amarela) nos Estados Unidos. Repare como elas andam alinhadas!

Com uma correlação de 99%, parece estar comprovado que quando você compra aquela caminha toda estilosa para o seu gato ou cachorro e ele prefere a caixa de papelão, a vontade que temos é de nos matar… Mas, por favor, não façam isso! Não cometam suicídio nem criem “causações” absurdas. Nem tudo o que vemos por aí comporta realmente a lógica de causa e efeito.

Continuem nos acompanhando!

* Luiz Gustavo de Almeida é biólogo e pesquisador do Laboratório de Genética Bacteriana do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo 

 

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