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Você é o que o seu intestino quer

Conversamos com uma expert em flora intestinal que acaba de lançar um livro por aqui contando o quanto esse ninho de bactérias repercute em nossa saúde

Não é exagero. A ciência vem mostrando que esse órgão — e os trilhões de bactérias que ele abriga — influencia nossa proteção contra doenças em diversos cantos do corpo e até mesmo nosso comportamento. Já existem indícios de que a flora intestinal, esse reino de micróbios instalado no ventre, interfere na possibilidade de ficarmos obesos, diabéticos ou deprimidos, e ainda modula o risco de encararmos doenças cardiovasculares, tumores e até perrengues neurológicos. Para o bem ou para o mal. Não é de estranhar, portanto, que um profissional da saúde de hoje tivesse interesse pelo tema. Mas a médica alemã Giulia Enders sentiu na pele por que deveria investigar a fundo a flora intestinal. Ainda estudante, ela teve feridas cutâneas e descobriu que a causa era um desarranjo lá nos confins do aparelho digestivo.

Hoje, Giulia se dedica a pesquisas na área no Instituto de Microbiologia e Higiene Hospitalar de Frankfurt. E, instigada pelo universo dentro do abdômen humano, decidiu compartilhar o que a ciência já sabe a respeito no livro O Discreto Charme do Intestino, recém-publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes. Em tom divertido e didático, a médica dá uma aula de biologia fazendo um passeio pelo sistema digestivo (até que demora um tanto pra chegar ao intestino pra valer!) e destrinchando a conexão entre o nosso organismo e as nossas bactérias. Além das tendências e descobertas recentes, Giulia aproveita para ensinar a tirar proveito dos nossos micróbios parceiros. Como? Recrutando bactérias boas para habitar a vizinhança e alimentando as espécies bacanas que já moram no pedaço. Nesta entrevista à SAÚDE, a expert fala desse universo microscópico incrível e do potencial que ele tem de mexer com nossas vidas.

SAÚDE: Entre tantos aspectos interessantes da flora intestinal e de sua interface com o corpo humano, qual a senhora considera o mais incrível?

Giulia Enders: Vejo a conexão entre o intestino e o cérebro como algo fascinante. Pensar que as bactérias alojadas lá no abdômen podem influenciar nosso humor e até mesmo nosso comportamento abre caminho a novas perspectivas. Nós entramos em contato com esses micro-organismos por meio de escolhas alimentares, no ambiente em que vivemos, no convívio com nossa família… É como se o nosso destino tivesse, de certa forma, algo de microbiano.

SAÚDE: De que forma as bactérias podem alterar nosso comportamento, ditando, por exemplo, preferências alimentares?

Giulia: Os trilhões de bactérias da flora intestinal produzem muitas coisas diferentes. Elas podem tratar o intestino bem ou trazer problemas. Mais de 20 mil genes são ativados ou desativados sob influência delas. O intestino pode mandar sinais para o cérebro por meio do nervo vago para contar como anda a “vida lá no meio”. Esse nervo sobe pela nossa barriga e passa através dos pulmões até chegar ao interior do crânio e, daí, ao cérebro. Em experiências em que se cutuca essa estrutura, podemos deixar as pessoas mais ansiosas ou confortáveis, dependendo do tipo de estímulo. No final das contas, não soa estranho pensar que o cérebro é o gerente e que ele precisa de informações de todos os cantos para criar a sensação de “como eu sou”. 

SAÚDE: Há indícios de que a flora intestinal pode influenciar o risco de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. Como a ciência explica isso?

Giulia: É um campo de estudos que ainda está muito no começo. Vemos que ratinhos podem ter perda de memória quando são infectados por certas bactérias e também descobrimos, em laboratório, que alguns micróbios produzem substâncias tóxicas aos neurônios e que são associadas ao aparecimento do Parkinson. As pesquisas no momento buscam descobrir formas de aperfeiçoar estratégias capazes de levar à cura desses problemas.

SAÚDE: Lendo seu livro e artigos científicos, ficamos com a impressão de que a flora intestinal está envolvida em todas as doenças crônicas. Diabete, câncer, males da cabeça e do coração… Como enxerga esse elo?

Giulia: Um aspecto interessante é que as bactérias consideradas boas (os probióticos) sempre estiveram presentes na cultura humana. Os alemães têm o chucrute [repolho fermentado], os coreanos têm o kimchi (condimento à base de acelga e nabo), os suíços têm o queijo… Quando o padrão de estilo de vida ocidental se estabeleceu e começamos a enxergar as bactérias como algo ruim, boa parte da população parou de consumir essas bactérias do bem ou seus alimentos preferidos, os prebióticos [alguns tipos de fibra e afins]. As doenças crônicas típicas dos nossos tempos estão provavelmente ligadas a uma combinação de mudanças no estilo de vida e no ambiente. A interação disso tudo com as bactérias está sendo decifrada e deve ser vista com atenção. Até porque, muitas vezes, é mais fácil modificar o padrão das nossas bactérias do que o ambiente em que vivemos.

SAÚDE: Até que ponto comer prebióticos e probióticos realmente muda o perfil da flora e nos oferece benefícios?

Giulia: Os probióticos [eles existem na forma de iogurtes, leites fermentados, sachês ou cápsulas] são mais um tratamento, na minha visão. Você pode recorrer a eles por razões específicas. E eu recomendo que, ao pesquisar na internet, a pessoa procure se realmente existem estudos bem conduzidos mostrando um efeito positivo. É claro que, se você puder incorporar probióticos à dieta, isso seria ótimo. Inclusive porque, uma vez que você deixa de comer ou tomar esse produto, suas bactérias boas são extintas da flora intestinal. Já os prebióticos, a comida dos nossos micro-organismos do bem, deveriam entrar na rotina diariamente. Todo mundo já carrega no intestino suas bactérias probióticas. Então fazemos muito bem em nutri-las direito. Procure experimentar alimentos e descobrir um prebiótico que você adore. Aspargo, cebola, alho, alho-poró, banana verde e o amido frio do arroz do sushi e da salada de batata são bons exemplos.

SAÚDE: Cientistas já testam, inclusive em seres humanos, o transplante fecal, que consiste em levar um pedaço de uma flora saudável a uma pessoa doente. Considera essa terapia promissora?

Giulia: Hoje isso deveria ser usado com grande cautela! Ainda não conhecemos todos os efeitos colaterais desse procedimento. Até o momento, sabemos apenas que, em caráter de pesquisa, o transplante tem uma taxa de cura de 90% para infecções causadas pela bactéria Clostridium difficile e que não são resolvidas com remédios tradicionais.

SAÚDE: Considerando o avanço nos estudos com a flora intestinal, como imagina que estaremos daqui a 50 anos?

Giulia: Espero termos exames, empregados na prática clínica, para determinar o padrão da flora intestinal de cada um. Baseados nessa informação, poderemos escolher medicações e inclusive guiar uma dieta e o uso de probióticos. Talvez até mesmo o alívio do estresse por meio de métodos comportamentais deva ganhar a ajuda das bactérias.

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