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Gripe: um dia vamos nos livrar dela?

O vírus que provoca a doença vive se modificando para infectar o homem e, muitas vezes, acerta em cheio. Entenda os principais desafios por trás das tentativas de exterminá-lo

Ele habitava a face da Terra muito antes dos primeiros hominídeos. Como um Davi às avessas, pode ter contribuído para dizimar os dinossauros. E, de tempos em tempos, logo após uma transformação ou outra, assusta e gripa uma boa parcela da população. A versão da vez atende pelo nome de vírus A (H1N1).

Enquanto as autoridades e os médicos tomam providências para conter o avanço da doença apelidada de gripe suína, os cientistas não medem esforços para descobrir meios de derrotar todas as facetas do influenza, o micro-organismo camaleônico que causa febre e até mortes — só em 2016, 29 pessoas morreram em decorrência de complicações dessa gripe.

E a pergunta que não quer calar é: vamos um dia ficar livres para sempre do intruso?

“Esse vírus é muito instável e trafega entre diversas espécies animais. Por isso, sempre está sujeito a mutações que o tornam irreconhecível ao corpo humano”, explica o virologista Edison Durigon, da Universidade de São Paulo. O desafio é encontrar um jeito de construir uma muralha dentro do organismo. Nessa busca, pesquisadores, por exemplo, quebram a cabeça para viabilizar uma vacina universal, capaz de barrar o mutante a despeito dos seus disfarces.

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Mas a principal estratégia, defendem os especialistas, é jamais tirar os olhos do baderneiro microscópico. Em outras palavras, sustentar uma rede de vigilância planetária que não cochila. “Não adianta ter os laboratórios mais capacitados do mundo se esse controle é inadequado”, diz a virologista Terezinha Maria de Paiva, do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. 

O influenza é uma velha ameaça à humanidade. E não estamos falando somente dos grandes surtos capazes de matar milhões de pessoas, como na gripe espanhola do início do século 20. O próprio vírus da gripe comum – ou sazonal, como preferem os médicos – também troca de roupa frequentemente para se esquivar do sistema imune. Daí por que a vacina é renovada anualmente. Por mais que o micro-organismo ainda consiga encontrar brechas para atacar, o imunizante é o jeito mais seguro de prevenir estragos, sobretudo aos organismos mais frágeis. Por isso, é recomendado a crianças, idosos e indivíduos de risco, como portadores de câncer ou HIV.

“A gripe em si possui uma baixa letalidade, cerca de 0,5%”, calcula o infectologista Stefan Ujuari, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Ainda assim, estima-se que esteja por trás de 500 mil mortes ao ano em todo o mundo. A solução perfeita para coibir esse bando de micro-vilões seria formular uma vacina universal, válida para todo o planeta. Essa é uma ideia fixa para os cientistas, cuja pesquisa atrai investimentos de diversos laboratórios. Mas, por ora, não se sabe se ela é viável ou se daria cabo de toda sorte de influenza, principalmente os que estão por vir. 

Para aprimorar a frente de batalha, pesquisadores não perdem tempo em aperfeiçoar a versão de vacina disponível para o influenza sazonal, aquele típico das estações mais frias. “A meta é enriquecê-la com substâncias capazes de potencializar sua ação”, esclarece Renato Kfouri, vice presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. No entanto, quando há um novo vírus no ar, a tática para inibir uma possível pandemia seria elaborar vacinas específicas. 

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“Será muito difícil erradicar o influenza”, afirma a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo. Por isso, não dá para baixar a guarda – tanto a curto como a longo prazo. “Uma grande mutação pode levar anos para acontecer”, esclarece a infectologista Tânia Chaves, do Hospital das Clínicas de São Paulo. O malfeitor é bem-sucedido na medida em que usa células de diversos hospedeiros para se multiplicar e se rearranjar com seus familiares, dando origem a estirpes mais terríveis.

Com os avanços da medicina, porém, é improvável que enfrentemos um dia uma catástrofe como a gripe espanhola. A vigilância e as novas vacinas afastam esse risco. E até nós mesmos podemos prestar uma pequena contribuição, ao evitar tomar remédios para a doença sem orientação de um médico. “A automedicação só pode tornar os vírus mais resistentes”, alerta Isaías Raw, do Instituto Butantan. Ninguém quer dar um empurrãozinho a um inimigo que já causa tanta dor de cabeça – e no corpo inteiro.

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