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Cicatrização: 8 alimentos que ajudam ou atrapalham a pele

Não é só a destreza do cirurgião que define a aparência de uma cicatriz. As escolhas alimentares fazem toda a diferença na reconstrução do tecido

Várias preocupações rondam a cabeça de uma pessoa que está prestes a realizar uma cirurgia. E o aspecto final da cicatriz, embora não seja mais importante do que recuperar a saúde em si, é uma delas. Nessas horas, a composição do cardápio passa batida, porque muita gente desconhece que uma coisa tem tudo a ver com a outra.

“Certas substâncias encontradas em alimentos ajudam a reconstruir o tecido lesionado, seja pelo bisturi do cirurgião, seja por um acidente”, diz o médico Laércio Guerra Garcia Júnior, especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e diretor da Clínica Ephesus, em São Paulo. Na contrapartida, há itens que devem ficar de escanteio sem dó nem piedade em prol de uma cicatriz quase invisível. Quem encabeça a lista é o camarão.

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O crustáceo chegou ao topo por causa de uma crença popular, é verdade, mas pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) provaram que o posto é merecido. Eles ofereceram a 40 cobaias um menu equilibrado, com boas porções de proteínas, gorduras e carboidratos. Só que uma parte desses animais saboreou um item especial: o camarão.

Depois de um tempo com essa dieta bem planejada, todos eles foram submetidos a um corte de 4 centímetros na região do tórax, tratado com um curativo. O passo seguinte foi tirar um fragmento da pele costurada de metade das cobaias de cada grupo. “No quinto dia após a operação, nos ratos cuja dieta continha camarão, a cicatriz se rompia com a maior facilidade”, percebeu Elizabeth Borges, professora do Departamento de Fisiologia e Biofísica da UFMG e uma das autoras do experimento. “No entanto, no 21º dia, quando a cicatrização já estava totalmente concluída, não observamos diferenças entre os dois grupos”, completa a cientista.

Ao dar continuidade a esse projeto, Elizabeth constatou que comer camarão modifica os níveis de algumas proteínas no organismo, levando a um estado inflamatório. De acordo com o cirurgião plástico Bernardo Hochman, professor da Universidade Federal de São Paulo, esse processo é, de fato, o pior inimigo de quem vai encarar (ou acabou de encarar) o bisturi. “Após um corte, ocorre uma inflamação normal, que sinaliza para o corpo que está na hora de cicatrizar. Mas a situação complica quando existe um estado inflamatório preestabelecido”, esclarece.

Em um quadro de inflamação exacerbada, o grande perigo não chega a ser o rompimento do tecido que está formando a cicatriz, como observado nos animais, mas sim de uma supercicatrização. “É que, nesse contexto, mais células de defesa são recrutadas para ajudar na recuperação da ferida. Daí há um maior estímulo para a formação de colágeno e vasos sanguíneos no local”, descreve Hochman. “Acontece que essa sobrecarga de colágeno não é bem-vinda, já que aumenta o risco de desenvolver queloide, uma cicatriz alta que ultrapassa as barreiras da pele”, completa.

Como o camarão está longe de ser o único patrocinador de inflamações, a relação de ingredientes contraindicados a quem tem encontro marcado com o bisturi não é pequena. Para ter ideia, todos os alimentos ricos em gorduras trans, como salgadinhos, sorvetes, biscoitos e congelados, figuram na lista. “Abastecidos de sódio, eles ainda promovem inchaço, mais um fator que atrapalha a cicatrização”, lembra Garcia Júnior.

Com os redutos de gorduras saturadas, como as carnes vermelhas e os embutidos, a história não é diferente (recomenda-se distância), mas há um detalhe importante. A carne, por proporcionar aminoácidos essenciais para a fabricação do colágeno – que, em doses adequadas, funciona como uma espécie de cimento para fechar a ferida -, precisa fazer parte da dieta. “A saída, então, é recorrer a cortes mais magros, a exemplo de lagarto, alcatra, coxão mole, filé-mignon e músculo”, indica a nutricionista Paula Castilho, que atua na clínica de Hochman. Picanha e cupim? Nem pensar nesse período!

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Com o intuito de deixar a pele preparada para o antes e o depois do procedimento cirúrgico, Paula também recomenda que os peixes apareçam à mesa. “Eles são fontes de ômega-3, uma gordura de ação anti-inflamatória. Nesse quesito, as melhores opções são sardinha, atum e salmão”, elenca. Quem dá força extra no combate à inflamação são as frutas, por causa do conteúdo de antioxidantes. Se apostar naquelas com quantidades abundantes de vitamina C, melhor ainda. “Esse nutriente é fundamental para a produção de colágeno”, explica o médico Antonio Carlos Ligocki Campos, professor de cirurgia do aparelho digestivo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

No reino das frutas, cabe ressaltar, a exceção é o abacate. “Ele tem substâncias que diminuem a ação da colagenase, uma enzima que destrói o colágeno”, justifica Hochman. Parece contraditório, não? Mas é que isso afeta o equilíbrio perfeito entre a fabricação e a quebra dessa proteína, o que pode servir de estopim para o surgimento do tal queloide, aquela cicatriz que passou da conta.

Ainda entre os alimentos favoráveis à remodelação da pele, não dá para deixar as fontes de zinco de lado. “Sem ele, não há uma boa cicatrização”, crava o professor da UFPR. Hochman concorda e completa: “Está provado cientificamente que pacientes com queloide têm níveis mais baixos desse nutriente”. Tudo porque a tal da colagenase só aparece na sua presença. Sorte que é fácil encontrá-lo dando sopa por aí. “As carnes, os peixes e todos os vegetais folhosos verde-escuros concentram zinco”, aponta Paula.

Como se vê, para que a marca cirúrgica seja o mais suave possível, não basta contar com um médico pra lá de habilidoso. Depois de agendar a operação, ou mesmo após um acidente, como um corte com vidro ou queimadura, há que se fazer o dever de casa – e ele começa na cozinha. Apesar de a tarefa nem sempre ser cobrada pelo cirurgião, vale a pena segui-la à risca.

Veja, agora, o resumo do que pode e do que não pode entrar no cardápio para melhorar a cicatrização.

Fique longe de…

…camarão

O crustáceo tem concentrações elevadas de quitosana, uma molécula que favorece a inflamação da pele.

…carne de porco

Ela também inflama a cútis, o que pode elevar além da conta a produção de colágeno e gerar uma supercicatrização – o queloide.

…soja

As isoflavonas da leguminosa estimulam a liberação de substâncias do corpo que rendem mais e mais inflamação na ferida.

…pimenta

Ela tem capsaicina, substância que é ótima para as artérias, mas um tanto quanto agressiva para a pele. Melhor aposentar por um tempo.

Aposte em…

…fontes de vitamina C

Presente em frutas – laranja, pêssego e acerola são bons exemplos -, o nutriente é essencial para a formação adequada do colágeno, proteína que regenera o tecido.

Castanhas, nozes e afins

Além de contarem com gorduras benéficas, com poder anti-inflamatório, elas são boas fontes de zinco, mineral que garante o equilíbrio entre produção e degradação de colágeno.

Peixes e carnes magras

Os cortes magros de carne vermelha dão incentivo especial para a formação do colágeno. Já os pescados fornecem ômega-3, gordura que barra inflamações.

Vegetais arroxeados

A cor indica a oferta de antocianina, um dos antioxidantes mais efetivos para a pele. Cereja, beterraba e berinjela estão cheias dela.

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