Depois de uma atuação marcante, daquelas dignas de um Oscar, há atores que não conseguem desvincular sua imagem da do personagem e, por isso, passam a vida inteira tentando mostrar que são capazes de surpreender em papéis diferentes. No universo da nutrição há um caso assim. Veja só a estrela desta reportagem, a gordura poliinsaturada ômega-3.
Há um bom tempo, ela é ovacionada por desempenhar com maestria a função de protetora do peito. "Esse ácido graxo de fato reduz a absorção de LDL, o colesterol ruim, e faz com que o HDL, versão benéfica dessa molécula, apareça em maior quantidade. Assim, previne a obstrução das artérias e o surgimento de doenças cardiovasculares", atesta Maria Aquimara Zambone, nutricionista do Hospital das Clínicas de São Paulo. Nos últimos tempos, porém, a ciência vem mostrando que o ômega-3 é capaz de brilhar em outros cenários, muito diferentes daqueles da cardiologia. Logo, não hesite em colocálo sob os holofotes, em cima da mesa, na forma de peixes de água fria — como sardinha, salmão e atum — ou linhaça, nozes e óleo de canola. As vantagens dessa escalação para prevenir doenças renderá ótimas críticas.
Obesidade
"O ômega-3 é um ótimo aliado para evitar o aumento do peso", afirma dennys Cintra, professor de nutrição da universidade estadual de Campinas, no interior paulista. a descoberta, prestes a ser publicada na revista científica americana PloS ONE, aconteceu após o pesquisador avaliar a reação de cobaias obesas à suplementação com o nutriente. a principal evidência é de que o excesso de gordura saturada, aquela da carne vermelha e dos queijos gordos, faz o cérebro disparar um alerta para o sistema imunológico. ao entender que o organismo está em perigo, nossas defesas liberam proteínas pró-inflamatórias, as citocinas. e, quando elas entram em cena, atrapalham o modo como a massa cinzenta interpreta mensagens importantes, como a de que há comida no corpo. "Se essa informação não é perceptível, a fome permanece", conclui Cintra. Mas a atuação do ômega-3 impede a cascata de encrencas e, então, o sinal da saciedade soa. outro dado surpreendente: a menor dose da gordura foi a mais eficaz. uma porção de sardinha já supre essa demanda.
Transtornos do humor e alcoolismo
Um trabalho da universidade de indiana, nos estados unidos, mostrou que ratinhos bipolares alimentados com óleo de peixe, rico em ômega-3, deixaram a depressão de lado e, quando submetidos ao estresse, não tiveram crises de euforia. "esse estudo revela que o dHa, uma das principais frações da gordura, altera a atividade dos genes ligados à bipolaridade", avalia o psiquiatra teng Chei tung, da universidade de São Paulo, a uSP. No meio do caminho, os cientistas ainda se depararam com um efeito inesperado: houve redução no desejo por álcool, comum entre os portadores da doença. "Não dá para prometer a solução desses quadros só com uma dieta cheia de ômega-3, mas ele pode auxiliar muita gente", opina tung.
Depressão pós-parto
Já que o assunto é humor, vale dizer que investir no ômega-3 na gravidez livra a mulher da temida tristeza pós-parto. a conclusão é de um trabalho da universidade de Connecticut, nos estados unidos. enquanto uma parte das 42 voluntárias consumiu cinco cápsulas de óleo de peixe por semana, a outra recebeu óleo de milho. Seis meses depois de o bebê nascer, a turma do ômega fez menos pontos em uma escala que calcula a incidência de depressão nas mães. "a deficiência de dHa tem sido associada a baixos níveis de dopamina e serotonina, substâncias que agem no cérebro proporcionando bem-estar", diz Michelle P. Judge, autora da pesquisa. Comer de duas a três porções de peixes como a sardinha por semana seria o suficiente para se blindar contra o baixo-astral.
Funções cognitivas
Colocar o ômega-3 no prato não favorece apenas as futuras mães. "o nutriente auxilia no desenvolvimento do cérebro do bebê, conferindo ao órgão forma e funcionalidade", explica Sandra Chemim, coordenadora do curso de nutrição do Centro universitário São Camilo, na capital paulista. e atenção: a massa cinzenta e os nervos dos mais crescidos também precisam dessa gordura do bem. "ela recobre a membrana dos neurônios, que, bem protegidos, disparam sinais com mais velocidade. assim, o aprendizado é facilitado", comenta dennys Cintra.
Degeneração macular
A combinação entre predisposição genética e lesões causadas pela exposição solar pode resultar nessa doença que representa uma das cinco principais causas de cegueira no brasil. "Há um importante fator inflamatório por trás do quadro", diz o oftalmologista Renato Neves, diretor do Eye Care, Hospital dos Olhos, em São Paulo. Por isso, o ácido graxo é essencial para barrar danos na retina. Foi exatamente o que pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, constataram depois de acompanhar quase 40 mil mulheres por dez anos: quem alegou comer uma ou mais porções de peixe por semana apresentou uma probabilidade 42% menor de sucumbir ao problema.
Periodontite
Outro chabu causado por inflamações — o alvo desta vez são as gengivas — e amenizado com o consumo de fontes de ômega-3. A prova veio de mais um levantamento da Universidade Harvard. "Dos adultos analisados, os que consumiram frações de DHA com frequência corriam um risco 30% menor de sofrer de periodontite", revela Asghar Naqvi, líder da pesquisa. Um dos perigos de desenvolver a doença, completa o cientista, é que ela aumenta o risco de ataque cardíaco. Uma porção de peixe por semana garante a proteção.
Câncer
antes de assegurar que a gordura dá força no combate a tumores, Maria isabel Correia, titular de cirurgia da universidade Federal de Minas Gerais, revisou trabalhos publicados sobre o tema entre 1997 e 2008, nas línguas portuguesa, espanhola e inglesa. "o câncer se comporta como uma inflamação crônica e essa situação interfere na produção de substâncias que controlam o apetite", conta a professora. "os estudos mostram que usar o ômega-3 para diminuir o estado inflamatório devolve a quem tem câncer o desejo de comer." Com a alimentação em dia, os tratamentos são mais bem tolerados. "Mas, se o indivíduo não receber os nutrientes adequados às suas necessidades, a gordura não opera milagres", avisa ela.
Perda de massa muscular
Saiba: com o passar dos anos, os músculos vão literalmente minguando. o processo, denominado sarcopenia, muitas vezes resulta em quedas e fraturas graves. a boa-nova é que o bendito ômega turbina a síntese de proteínas e, assim, impede a degradação das fibras musculares. Pelo menos foi o que evidenciou uma pesquisa da universidade de Washington, nos estados unidos, após o nutriente ser adicionado à rotina de alguns voluntários maduros. "Se o efeito se comprovar em outros trabalhos, os idosos que fazem musculação poderão caprichar no ácido graxo", diz a nutricionista daniela Seixas, que foi palestrante do vii Congresso internacional de Nutrição Clínica Funcional, realizado no mês passado, na capital paulista.
Artrite reumatoide
A doença aparece quando algumas células do sistema imune sofrem uma pane e passam a atacar sem piedade as articulações, causando inflamação, dor, fraqueza e limitação dos movimentos, entre outros sintomas. "o tratamento visa minimizar o desconforto, já que a artrite reumatoide não tem cura", conta Karin Klack, nutricionista do Serviço de reumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo. e, aí, uma das estratégias para proteger as juntas é investir na ingestão diária de — adivinhe! — ômega-3. "Mais de 15 estudos comprovaram que, juntamente com anti-inflamatórios, ele proporciona o alívio das dores articulares", revela Karin. agora, vem cá: a gordura merece ou não merece um prêmio de melhor coadjuvante?
Uma gordura, três frações
Ácido alfalinolênico
Vem das fontes vegetais, como linhaça, nozes e óleo de canola. No organismo, é transformado em EPA e DHA.
EPA e DHA
Estão nos animais, ou seja, nos peixes de águas frias. São mais p